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No mês de Dezembro de 1993, na sala de leitura da Biblioteca Nacional e Universitária de Jerusalém, um leitor requisitou um livro de versos em yiddish.
Quando lhe entregaram o pequeno volume no lugar que havia escolhido para se sentar, ele aproveitou uma distracção dos funcionários, para sair, levando consigo o livro. Roubou-o.
Dias depois, o director da biblioteca recebeu, pelo correio, um envelope com as folhas queimadas do livro: «Sou o autor deste livro, escrito num mundo que já não existe. Esse mundo acabou "lá", em Auschwitz. Por isso não tem o direito de figurar nas prateleiras de nenhuma biblioteca». 
Este era o único exemplar conhecido que ainda existia daquele livro. Outros dois tinham sido destruídos da mesma forma, um na Biblioteca do Congresso, em Washington, outro, que pertencia ao consagrado poeta israelita Nathan Zach, foi obtido, por empréstimo, com um estratagema, e teve a mesma sorte. Nathan Zach, que admirava o autor, nunca conseguiu encontrar-se com ele. Telefonou-lhe, compreendeu que o homem pretendia isolar-se e respeitou o seu desejo. Ajudou-o junto de um editor, para que as suas obras fossem publicadas.
Poucas pessoas se recordam hoje do homem que se encobria sob o nome suposto de K. Zetnik. Nome suposto e não pseudónimo, porque ele recusava que o tomassem por tal.
Zetnik nasceu em 16-5-1909, na aldeia polaca de Sosnowiec, numa família de judeus ortodoxos, "Hassidim", e fez os seus estudos numa Yeshivah (Academia rabínica). Chamava-se então Yehiel Fayner. Fez parte do movimento ortodoxo da juventude "Tseirei Agudat Israel". Com a idade de 22 anos, escreveu as poesias, que foram publicadas em livro, de certo modo contra a sua vontade.
Casou com Fania Goldblum, que pereceu no Holocausto, e sobre a qual se sabe muito pouco, apesar de ter irmãos e mais família, que vivem em Israel.
Yehiel Fayner esteve prisioneiro no campo de concentração de Auschwitz. Aí viveu todos os horrores, e sobretudo viu e sofreu com os horrores que viu os outros sofrerem: assassinatos, estupro, sadismo, a besta humana na sua revelação mais abismal.
Chegou a sua vez de participar na marcha da morte, a caminho das câmaras de gás, do extermínio. Yehiel escondeu-se dentro de um barril de carvão. Na sua imaginação, ele ali já estava morto e nasceu outra vez, para nunca mais voltar ao ser humano, que fora antes.
«Se posso estar aqui hoje, na vossa presença» - disse ele ao testemunhar no julgamento do criminoso nazi Adolph Eichmann - «e contar-vos o que se passou naquele planeta (Auschwitz), se eu, o extra-terrestre daquele outro planeta, aqui me posso encontrar hoje, acredito plenamente que se deve à jura que lhes fiz lá. Foram eles que me deram esse poder. Aquela jura foi a armadura, com que entrei num poder supremo, estranho à Natureza, que me permitiu escapar, depois de dois anos em tempo de Auschwitz, depois de ter sido lá um 'muzelman'.
'Muzelman', que significa em yiddish muçulmano, era o termo com que os prisioneiros do campo de concentração designavam tragicamente aqueles que já tinham esgotado as suas últimas forças, pela fadiga, a letargia e a fome, e, perdida toda a vontade de viver, aguardavam apenas a morte libertadora.
A sua única preocupação, a partir daquele momento foi ficar vivo para relatar a tragédia daqueles que pereceram no planeta Auschwitz, ao outro mundo, que para ele só surgira depois de Auschwitz. Ainda no campo de concentração começou a criar o que seria o seu primeiro livro "Salamandra", um título que simbolizava exactamente as memórias que o mantinham vivo.
Não quis ser conhecido como autor dos seus livros. Yehiel Fayner já não existia. O homem que subsistia nele era apenas um dos habitantes do planeta Auschwitz, um KaZetnik. K.Z. (Ka Zet) era a abreviatura em alemão para Konzentrationslager (campo de concentração) e o sufixo nik, que designa naturalidade, pertença. O autor era o Kazetnik 135633, número que figurava no ultrajante uniforme de prisioneiro que apresentou no tribunal, como representante de todos os outros Kazetniks cujas cinzas ficaram "naquele planeta".
Em 1946, ainda durante o mandato britânico na Palestina, ele conseguiu chegar aqui, a bordo de um barco de imigrantes ilegais, que conseguiu furar o bloqueio.
Nesse mesmo ano, isolou-se numa pequena alcova, durante três semanas, quase sem comer, para cumprir a promessa que havia feito aos que "lá ficaram", concluindo o livro «Salamandra», que publicou com o nome de K. Zetnik, que ninguém conhecia.
Contrariamente a outros sobreviventes dos campos de concentração, que até recentemente respeitavam como que uma conspiração de não contar o que lá se tinha passado (o próprio escritor Aharon Apelfeld, que escreveu sobre a Shoá, limitou-se a relatar a vida dos sobreviventes) Zetnik não se impôs a si próprio nenhum pudor, para que os seus leitores sentissem bem as atrocidades do dia-a-dia dos habitantes do campo de concentração, através de descrições detalhadas, extremamente chocantes, das violências, das torturas, do quase canibalismo, dos abusos sexuais de mulheres e crianças.
Dizem que dormia num banco de jardim, servindo-se de folhas do seu livro como almofada.
«Salamandra» causou uma impressão traumatizante entre os seus leitores. Em breve se tornou conhecido em vários países do mundo. O editor recebeu inúmeras cartas pedindo a identificação do autor, que ele não podia revelar.
Quem sim conseguiu desvendar o mistério foi uma israelita, Nina Asherman, que se encontrou com ele, e os dois acabaram por casar.
Yehiel, que entretanto tinha mudado o apelido de Fayner para Di-Nur, que em aramaico significa "do fogo", surpreendeu o rabino, que celebrou o casamento, exigindo que, debaixo do pálio nupcial, a "hupá", recitasse a oração «El Malé Rahamim», em memória dos milhões de seus companheiros, "Kazetniks, que ficaram lá".
Nina foi uma companheira incansável, traduziu alguns dos livros que ele continuou a escrever com pungentes descrições sobre o mesmo tema, promoveu a sua publicação em duas centenas de línguas.
Tiveram uma filha e um filho, que nunca conseguiram adaptar-se à dupla personalidade do pai, e, por isso, acabaram por se distanciar dele.
Zetnik fazia uma vida dupla. Uns tempos passava-os na casa confortável do casal em Telavive. Em outras alturas, vestia roupas de trabalhador do campo, isolava-se numa cabana entre pomares e laranjais, alimentava-se de alfarrobas e água, e escrevia como um louco.
Nunca ganhou um centavo com os livros que escreveu. Todo o dinheiro que recebeu investiu-o num fundo destinado a imprimir milhares de cópias dos mesmos livros, para serem distribuídas gratuitamente pelos alunos das escolas. Para que todos aprendessem o que "lá" se passou.
Em determinada altura, Nina levou o marido a consultar um psiquiatra, na Suíça, Jan Bastiaans, que tratava de K.Z.s sobreviventes da Shoá, com a droga LSD. Zetnik-DiNur acompanhou-a contra vontade.
Mas a meio do tratamento decidiu interromper, declarando, em contradição com as insistências da mulher e do médico, que já estava curado. A droga tinha-o feito reviver todos os horrores "daquele planeta". Antes ele só via o filme do "planeta Auschwitz", nos seus pesadelos nocturnos. Agora já os via também de dia. Na realidade estava pior!
Em 1961, foi chamado a depor, como testemunha, no julgamento de Adolph Eichmann. Não chegou a concluir o depoimento.
O acusador público enumerou os livros que ele tinha escrito, perguntando se fora o seu autor, assinado com o pseudónimo de "K. Zetnik".
Encarando o réu, que ele já havia encontrado no passado, e que agora estava sentado na sua frente, numa cabine de vidro à prova de balas, o escritor respondeu:
«Não é um pseudónimo. Não me considero um escritor que faz literatura. É uma crónica de dentro do planeta Auschwitz. Estive lá durante dois anos. O tempo lá não é como o tempo no planeta Terra. Cada fracção de minuto decorre lá numa roda de tempo diferente. Os habitantes daquele planeta não tinham nomes, não tinham pais, nem tinham filhos. Não se vestiam como as pessoas se vestem aqui. Não nasceram, nem geraram filhos. Respiravam, mas segundo outras leis naturais. Não viviam, nem morriam, segundo as regras daqui. O nome deles era o seu número de Kazetnik.»
E continuou a falar e a contar, sem permitir que o interrompessem.
«Eles passavam, deixando-me para trás; passavam sempre, deixavam-me sempre para trás... eu vejo-os, a olhar para mim... eu vejo-os...»
Por três vezes, o juiz-presidente lhe pediu em vão, que parasse, para ouvir e responder às perguntas do acusador público.
Então o juiz decidiu suspender a audiência. Nesse momento, a testemunha desmaiou e teve que ser levada para fora da sala.
K. Zetnik, aliás Yehiel Dinur, aliás Fayner, faleceu em Telavive, em 25 de Julho de 2001, de um cancro.
Nina falecera poucos anos antes.
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