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A história que vos vou contar passou-se comigo há cerca de 30 anos, talvez menos. Já aqui me referi à minha primeira visita a Gaza, mas não contei esta história, que talvez nos ajude a todos a compreender melhor o que se está a passar.
Fui a Gaza a convite do então presidente da Câmara, Rashad A-Shawa, já falecido.
Na altura eu estava indirectamente ligado a um fornecimento de material de embalagem que o meu anfitrião usava para produtos agrícolas da Faixa, nomeadamente laranjas, que ele exportava, através de uma empresa de Israel, aproveitando a rede internacional de marketing da mesma.
Como eu não conhecia a cidade, um sobrinho do presidente sugeriu-me que parcasse o carro na primeira estação de gazolina à entrada de Gaza e pedisse ao encarregado para telefonar para ele. "A estação é nossa" . explicou., e eu vou lá buscã-lo
Enquanto aguardava a sua chegada, o solicito encarregado explicou-me que o "efendi" (senhor) e a sua família eram donos de tudo quanto era comércio e indústria na Faixa. "Aquele moinho de trigo é deles; a maioria dos laranjais, e as empresas de embalagem de cítricos, são deles; a electricidade é deles. São muito ricos.".
O meu contacto chegou e levou-me directamente a um escritório ricamente mobilado, com móveis antigos, em cuja porta se viam letreiros metálicos da "General Motors" e da "General Eléctric", cujos representantes eram.
"O meu tio prefere recebe-lo no escritório da empresa e não no Município. Ele faz questão de separar as duas actividades."
No andar de cima, no gabinete do patrão, encontravam-se já, além do dono da casa, dois dos seus filhos.
Rashad A-Shawa, já falecido, era um verdadeiro diplomata levantino, muito calmo, atencioso, e ponderado.
Falámos um pouco sobre a situação da cidade ocupada. Falar-lhe em Ariel Sharon, que fora comandante da região militar do sul, era agitar um pano vermelho à sua frente. Mas ele disfarçava bem. Preferia Ezer Weizman (também já falecido), a Shimon Peres. "O senhor Peres diz sempre que sim e que não. Weizman diz muitas vezes que não e sei que é não. Mas, quando diz que sim, é sim."
Ele já tinha muita experiência com "ocupantes". Já vivera sob os turcos otomanos, e sob o mandato britânico; depois da Guerra da Independência de Israel, a Cisjordânia foi ocupada pelo que então se chamava Transjordânia, e que, por isso passou a chamar-se "Reino Hashemita da Jordânia"; enquanto que a Faixa de Gaza foi anexada ao Egipto. Sob a soberania de uns e de outros, ele continuava a conduzir os seus negócios e a acumular riquezas. E agora, com a ocupação israelita, tirava o partido que podia do comércio com eles e através deles. Por parte da população ele tinha toda a obediência e respeito.
A-Shawa era um homem do rei Husseini, da Jordânia, e comungava com ele a oposição à OLP-Organização de Libertação da Palestina, dirigida por Yasser Arafat, que, na altura, salvo erro, ainda se achava em Beirute.
Terminámos de beber o café bem negro e bem quente, e Rashad A-Shawua disse-me que tinha muito prazer em me convidar para o almoço, mas, infelizmente, não me poderia acompanhar, porque tinha uma reunião importante na Câmara. Far-se-ia representar por seus dois filhos e pelo sobrinho, que fariam as honras da casa.
Estes levaram-me para um restaurante, frente ao Mediterrâneo, no lugar onde mais tarde Arafat construiu a sede do seu governo.
A partir desse momento, foi o filho mais velho, Mansour, que assumiu a direcção da conversa e as atenções ao convidado.
Vieram as garrafas para a mesa, depois as "pitas" (pão árabe) e as saladas tradicionais, o peixe fresquíssimo, pescado mesmo ali. Cada peixe dava para uma refeição completa de um abade "corrupto", mas eles insistiram comigo que tinha de comer dois. Aceitei constrangido, pensando que seria aquilo todo o almoço. Ia sucumbindo, quando depois vieram servir a carne; só por cerimónia ainda provei um dos muitos doces da sobremesa.
Sentindo-me um pouco menos constrangido na conversa mais informal de Mansour, e, confessando-me ainda ignorante do panorama local, perguntei-lhe se eles consideravam que Yasser Arafat representava realmente o povo palestiniano.
O diálogo que se segue, estou a citá-lo de cor, não representa as palavras exactas do sucessor destinado do "efendi", mas estão muito próximas.
"Arafat é um bluff. Mas nós somos fracos demais para o denunciar. Vocês, que estão em posição de força, é que devem aceitar o desafio."
Continuando, explicou-me que, na opinião dele, os israelitas estavam a cometer um grave erro.
"Antes de 1967 (da Guerra dos Seis Dias"), nós diziamos à nossa população que em Tel Aviv a miséria era tanta, que os judeus caiam mortos de fome e de doença nas ruas. Mas sabíamos bem que não era assim. A minha irmã, que vive em Beirut e tem vários passaportes, compra todas as suas roupas na Rua Dizengoff (uma das principais ruas de comércio em Tel Aviv). Aqui em Gaza, a rua, cheia de buracos, onde está o nosso escritório, tenho vergonha de o dizer, chamamos-lhe, por troça, a nossa Dizengoff."
"O mal começou quando vocês ocuparam o território, e abriram as vossas cidades aos habitantes de Gaza. Eles foram lá e viram que não era como nós lhes tínhamos dito. Eles não tinham dinheiro, nem por sombras, para comprar o que lá se vendia. Mas vocês deram-lhes trabalho, que aqui quase não tinham. Os salários que vocês lhes pagam são uma miséria, em relação ao que ganham os judeus. Mas, para eles, é quase uma fortuna. Uma família com seis, sete filhos, com todos a trabalhar em Israel, já se dá ao luxo de comprar um frigorífico e até uma televisão. Eu rio-me quando passo na estrada e vejo antenas por cima das barracas, em que muitas dessas famílias vivem."
"Mas não é para nos rirmos, não. Quando vocês se forem embora – porque, não tenha dúvidas, meu amigo, mais cedo ou mais tarde, vocês terão que se ir embora – eles vão exigir de nós que lhes demos o mesmo que eles têm quando vão a Israel. E como está a ver, é óbvio que não lhes poderemos dar. Então eles vão revoltar-se e sei que vão correr rios de sangue em Gaza."
Parou um momento para pensar e continuou:
"Como não posso ver sangue derramado nas ruas, e como sou dono de alguns apartamentos em Londres, irei para lá viver!"
Rashad A-Shawa já faleceu. Não sei onde vivem hoje os filhos. Sei que Mansour chegou a ser indicado para o substituir na presidência do município.
Nestes últimos três anos, o sangue já corria nas ruas de Gaza, nas lutas entre o Fatah e o Hamas.
Muito antes dos raids israelitas...
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