Ao correr da pena
por Inácio Steinhardt, em Israel
 
:: Eu, o ursupador Data: Quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

"Em frase curtíssima: "a terra palestiniana foi ocupada (...) uns combatem com mísseis, outros com pedras". 

Este foi um dos muitos comentários ao meu texto sobre o blogue de José Saramago. É uma opinião em que muitas pessoas comungam, e que como muitos outros slogans políticos, passam de boca em boca, até se tornarem verdades incontestáveis, repetidas por quem não quis ou não teve tempo para verificar os factos.

Com todo o respeito por quem assim pensa por convicção e não por obediência política, tentarei analisar alguns factos facilmente verificáveis em fontes históricas acreditadas.

Faço-o porque o assunto me toca muito de perto, pois, sendo a frase realmente curtíssima e se não se esclarecer a que "terra palestiniana" se refere, de uma das possíveis interpretações poderia inferir-se que eu vivo em terra ocupada. Seria, portanto um ocupante, um usurpador.

Faço-o com a consciência tranquila de quem, por natureza, se recusa a aceitar dogmas, slogans e propagandas seja de que parte for, sem os analisar primeiro, com conhecimento de todos os factos, e passando-os pelo crivo do seu senso comum, da sua lógica, e da sua consciência.

Se quem comenta se refere aos territórios da Palestina ocupados em 1967, em resultado da vitória israelita na Guerra dos Seis Dias, confirmo que essa parte do território foi realmente ocupada e ainda não foi totalmente devolvida à soberania dos seus habitantes.

Se se refere à Faixa de Gaza, não é uma área ocupada, pois todos os colonos e soldados israelitas retiraram da faixa, por decisão unilateral, em 2005, como já aqui foi dito.

Se se refere às cidades de Sderot, Ashkelon, Ashdod, Ber-Sheva, Netivot e todas as terras menores entre elas, cujas populações civis vivem há sete anos sob o terror dos mísseis lançados de Gaza, pois essas nunca foram "área ocupada", pois sempre fizeram parte do Estado de Israel, desde que este foi criado, por decisão da ONU.

Não se cometa, porém, o erro de pensar que a "Guerra dos Seis Dias" foi uma iniciativa israelita, destinada a conquistar territórios aos seus vizinhos.  Não, foi uma tentativa mais dos países árabes que cercam o Estado de Israel, para ocupar o território deste Estado e expulsar os seus habitantes, invertendo assim a execução da decisão da Assembleia Geral das Nações Unidas, de 29 de Novembro de 1947.

A quem pertencia o território?

No princípio da primeira Guerra Mundial (1914-1918), a Palestina (todo o território, nas duas margens do Rio Jordão até ao Mar Mediterrâneo) fazia parte do Império Otomano, há quatro séculos, pelo menos.

Em 1917, as tropas britânicas, sob o comando do general Edmund Allenby, conquistaram a Palestina (juntamente com a Síria e o Iraque) aos turcos e receberam da então Sociedade das Nações, o mandato sobre a Palestina.

Na sequência os ingleses criaram, nos novos territórios que ocuparam, dois novos reinos, o Iraque e a Transjordânia (ou seja, quanto a esta última, a margem oriental do Rio Jordão), e entregaram o seu governo a dois príncipes hashemitas do Hedjaz, que, portanto, não pertenciam às regiões que vieram governar, nem eram da mesma etnia dos seus habitantes. O emir Feissal do Hedjaz tornou-se rei do Iraque e o emir Abdallah, seu primo, ficou rei da Transjordânia.

(A norte da Palestina, foram os franceses que criaram a Síria, e em parte do território desta, o Líbano, destinado em princípio a ser o estado da minoria cristã, a que se juntaram árabes sírios e drusos, para aumentar um pouco a dimensão do minúsculo país).

Apenas a Palestina, entre o Jordão e o Mediterrâneo, ficou sob o mandato britânico, por conta da Sociedade das Nações.

Entre a primeira e a segunda Guerras Mundiais, a população da Palestina (todo o território do mandato britânico, sem a Transjordânia) era constituída por cerca de um milhão de pessoas, dos quais 588 mil não-judeus (árabes, drusos e outras pequenas minorias) e 470 mil judeus.

Se pensarmos que, na mesma área vivem hoje cerca de 10 milhões de pessoas, podemos compreender que a terra era quase desabitada. A maior parte dos terrenos pertencia a ricos proprietários árabes ("efendis" na língua turca) que mantinham nela, camponeses árabes ("felahin") que a cultivavam e lhes pagavam tributos. A maior parte dos terrenos eram áridos, rochosos ou pantanosos. Grande parte da população morria de malária.

Os primeiros judeus que vieram também trabalhavam a terra, ao mesmo tempo que construíam estradas, e secavam os pântanos. Para isso tinham que comprar as terras aos seus proprietários "efendis", que geralmente viviam em países mais atractivos, como o Líbano.

Normalmente os colonos judeus, que aqui chegavam, não traziam consigo nenhumas posses. Poucos puderam adquirir terras com o seu dinheiro. Foi a Organização Sionista Mundial, criada por judeus da Diáspora, que iniciou a colecta de fundos para a compra de terrenos.

Nomes que hoje toda a gente conhece, com David Ben Gurion, Golda Meir, etc. começaram as suas vidas na Palestina, como trabalhadores rurais. A pouco e pouco criaram as suas organizações locais, os seus sindicatos, e assumiram a liderança da população judaica. As terras adquiridas ficaram a pertencer a um Fundo Nacional Judaico, o KKL, como propriedade do futuro Estado. Ainda hoje, o andar em que eu vivo e de que sou proprietário, está num prédio construído sobre terreno do Estado. Terreno esse formalmente alugado aos donos dos andares, a prazo muito longo. O mesmo sucede com quase todas as construções do país.

Ao lado da terra em que vivo, encontra-se uma grande cidade, uma das primeiras construídas pelos judeus. Há 120 anos era um enorme pântano, a que os árabes chamavam Malabes. Ninguém podia ali viver muito tempo. Todos adoeciam com a malária e morriam ou partiam para outras bandas.

Colonos judeus tentaram, por duas vezes, estabelecer-se em Malabes, e duas vezes tiveram que desistir porque não resistiam às condições de insalubridade. Na terceira tentativa, há 120 anos, iniciaram a secagem dos pântanos. Chamaram-lhe Petah Tikva – a Porta da Esperança – e dedicaram-se à agricultura. Vieram outros agricultores de Jaffa e plantaram aqui laranjas. Aqui mesmo ao lado da minha casa, quando aqui chegámos, havia um enorme laranjal e nas noites de verão era um prazer sentir o cheiro das flores das laranjeiras entrar-nos pelas janelas. As laranjas deixaram há muito de ser rentáveis e hoje, no lugar do laranjal está um bairro novo, com prédios de 7 andares e a poluição dos automóveis.

Hoje, Petah Tikva é uma progressiva cidade com cerca de 200 mil habitantes e uma zona industrial onde predomina a alta tecnologia. Algumas das principais multi-nacionais têm ali escritórios, laboratórios e fábricas.

Algo de semelhante sucedeu 50 quilómetros mais para o norte, numa aldeia a que os árabes chamam Al-Hudra (a verde), onde também os pântanos e a malária tornam insuportável a fixação de uma grande população.

O primeiro passo foi plantar grandes bosques de eucaliptos, cujas raízes secaram os pântanos. Um médico judeu, nascido em 1864 numa pequena aldeia da Ucrânia, veio em 1891 para a Palestina, com uma das primeiras ondas migratórias e decidiu especializar-se na cura da malária. Hoje não há malária em Israel. Hadera, nome adaptado do seu nome original em árabe, é uma cidade com cerca de 80 mil habitantes. Tem uma zona industrial importante, onde predominam uma fábrica de pneus e uma fábrica de papel, classificada entre as 200 principais papeleiras do mundo. (Uma fábrica de papel num país onde não há madeira, não há água, e ninguém sabia fazer papel, em 1952, quando foi fundada, é outra das contradições deste país!).

Nas ruas de Hadera encontra-se grande quantidade de cidadãos árabes, que habitam as aldeias em redor, e que vêem à cidade fazer compras, tratar -se nos serviços de saúde e tratar de quase todos os assuntos burocráticos. No hospital da cidade, um dos estabelecimentos de saúde centrais da região, e que naturalmente tem o nome do médico pioneiro "Hillel Jaffe", são tratados tanto judeus como árabes da região. Muitos dos seus médicos e enfermeiras são também árabes.

Eu gostaria de vos contar agora o que viu Eça de Queiroz nos areais para norte de Jaffa, e o que lá está agora.

Mas esta história já vai longa, e a continuação vai ficar para outra altura.

Para já, imagino que quem me leu até aqui estará a perguntar: "Mas com que direito vieram os judeus da Europa arrancar as pedras do chão da Palestina, secar os pântanos e plantar laranjas, nas terras dos árabes?"

A mesma pergunta faziam os árabes, cuja população aumentou rapidamente entre as duas guerras.

Eles vieram principalmente dos países árabes vizinhos, porque agora já tinham acesso a condições de vida e tecnologia importadas da Europa, os pântanos estavam secos e havia trabalho e dinheiro para ganhar.

Tentarei responder logicamente a esta pergunta, num próximo trabalho.

 


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