A profanação do cemitério judeu de Lisboa

Por © Inácio Steinhardt

domingo, 30 de Setembro de 2007

Os jornais de Lisboa trazem-nos as notícias preocupantes sobre o grave atentado de vandalismo no cemitério israelita daquela cidade, na noite de 18 para 19 de Setembro.

Os autores, identificados como "cabeças-rapadas", foram detidos em flagrante pela polícia, alertada por um vizinho, que ouviu ruídos estranhos, provenientes de dentro do muro.

O caso é grave, muito grave mesmo, e exige rápidas medidas, não só punitivas como preventivas.

Antes disso, porém, é imperativo realizar uma análise serena dos factos, sobre cujos resultados deverão incidir as medidas a tomar.

Se estas forem tomadas com base nas interpretações instintivas, na presença do doloroso desacato e do horror causado pelo inqualificável carácter moral e humano da organização, em nome da qual os arguidos pretendem ter agido, corre-se o risco de seguir um caminho ineficaz, e, pior ainda, contraproducente.

Dos comentários da imprensa colhe-se a impressão de que se trata de uma acção planeada por uma organização, que age por motivos ideológicos (nacionalistas, racistas, e sobretudo anti-semitas).

Salvo provas em contrário, parece-me uma interpretação errada.

Não que não existam, em Portugal e no Mundo, racistas, anti-semitas ou outros.

Em Portugal certamente em número muito inferior ao resto do Mundo, como se poderá concluir de uma análise serena da nossa história remota e recente.   

Encontraremos perseguições motivadas por fanatismo religioso, por interesses materiais, por colonização ou missionarismo,  mas raras vezes por crença íntima na superioridade de uma raça sobre outra.      

 

Até que, qualquer português, pese a quem esteja convencido do contrário, dificilmente será capaz de definir a sua própria origem étnica, nascido como nasceu numa sociedade multi-racial desde as suas origens.   E nesse multi-racismo ocupa uma grande percentagem, como todos sabemos, o povo judaico.

Vale a pena realçar aqui um pormenor das notícias sobre este acto de vandalismo: foi um vizinho do cemitério judeu, que certamente não ignorava quem eram os habitantes do terreno sagrado do eterno repouso, quem teve o cuidado de alertar a polícia, para o que ouviu por acaso.

Não sei se, em qualquer outro país, um vizinho ou um passante dariam essa prova de civismo.

Não é a primeira vez, em Portugal, que vizinhos de um local do culto judaico tomam iniciativas desse género.  Estou a lembrar-me de um incêndio havido há muitos anos na velha sinagoga «Ets Haim 1.ª», na Travessa do Ferregial, onde um vizinho entrou durante a noite, antes de chegarem os bombeiros, provavelmente com risco da própria vida, para salvar os dois rolos de pergaminho, com a Torah judaica.

São provas de espírito de tolerância, e da ausência de anti-semitismo, em escala significativa, no seio da grande maioria da população.

 

Ou que não se mantenha viva uma ideologia nacionalista integralista, que não será necessariamente racista ou anti-semita.  Mas não creio que esses nacionalistas se identifiquem com o fenómeno social dos "cabeças rapadas", que, até pelo nome por que vulgarmente querem ser conhecidos, "Skinheads", serão, pelo contrário, produto negativo da globalização, um fenómeno que, na sua vertente principal, tem já a seu crédito muitos factores positivos.

Mas, na sua vertente negativa, a globalização abriu o caminho à comunicação fácil e universal de elementos de degradação moral, como a violência desenfreada, a pornografia, a permissibilidade de todos os instintos selvagens que se mantêm inatos no "homo sapiens", o recurso ao álcool, à droga e à violência, como odienta válvula de escape para o tédio enorme de que sofre, sim sofre, uma crescente, mas ainda minoritária parcela da juventude, que não encontra, no ambiente em que vive, um ideal e uma estrutura, onde consumir as energias próprias da sua idade.

Alegam os "cabeças-rapadas" que nas suas fileiras não são admitidos alcoólicos nem drogados. Se assim é, só é de lastimar que, apesar disso, tenham enveredado por um caminho de violência e de descalabro desumano, como válvula de escape para as suas energias descontroladas.

Eles são uma ínfima minoria, de uma sociedade em que os homens e mulheres da sua idade se mantêm na senda da moralidade, da investigação e da construção de um mundo melhor, de que eles, os que o destroem, são também grandes beneficiários.

É um fracasso enorme dos sistemas de ensino, os quais, se ainda ensinam, deixaram de educar.

É um fracasso enorme já não dos pais, mas de alguns avós, que deixaram escapar-lhes das mãos a autoridade e o exemplo.

Tanto é devido esse fenómeno à globalização que esse movimento, supostamente anti-semita, já foi identificado também em Israel, ainda que no seio de um pequeno grupo de jóvens não-judeus, provenientes da derrocada da sociedade soviética e que, por motivos óbvios, se acharam também no vácuo, vítimas do mesmo tédio odiento.

Ao propor atribuir a estes factores a responsabilidade pelo que se passou em Lisboa na terça-feira, da semana mais importante do ano judaico, entre Rosh Hashaná e Kipur, não estou a tentar generalizar.

Grassam no mundo uma onda de anti-semitismo, por razões ideológicas, e uma onda muito semelhante de anti-israelismo, por razões de fundamentalismo religioso e também políticas.

Perante essas haverá que proceder por vias ideológicas.

Mas seria um erro de consequências contraproducentes aplicar o mesmo tratamento ao caso presente.

No caso da juventude transviada, há que punir sem piedade, mas com a preocupação imperiosa de, através da punição, corrigir os erros, educar e criar uma estrutura de produtividade, capaz de se sobrepor ao tédio.

Inácio Steinhardt

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