Entrevista com Deus
Por © Inácio Steinhardt
sábado, 10 de Dezembro de 2005
Há dias recebi de um bom amigo judeu ortodoxo um link para uma apresentação na Internet, em inglês, com o título de "Interview with God".
Para mim foi uma mensagem mais, que calou bem fundo no meu coração.
Porque me pareceu que o seu significado tinha também um valor universal, entendi junta-lo aos votos de boas festas que mandei a todos os meus amigos, judeus, por ocasião de Hanucá, cristãos pelo Natal, a festa que consagra a união da família, e simbolicamente também aos amigos muçulmanos, cujo Ramadão foi este ano um pouco mais cedo.
Embora só ontem tenha enviado os meus votos, recebi já hoje alguns comentários delicadamente positivos.
Apenas um deles foi mais positivo ainda, porque me lançou um desafio, que eu gostosamente aceitei.
Deixo aqui aos meus leitores o benefício do link
http://www.theinterviewwithgod.com/viewmovie.html
e uma cópia do diálogo que, na sequência, troquei com o amigo que me lançou o reptro.
Prezado Inacio,
Este sitio parece muito cristão. A ênfase é sobre o perdão automático em vez da necessidade do pecador fazer penitência primeiro para merecer o perdão da pessoa que sofreu a injustiça.
Em hebraico, quando o pecado é teológico,está escrito:
Uteshuva utefila utzedaka ma'avirin at roa hagezehra.
O perdão nunca é automatico no judaismo. Deve ser merecido pelas boas obras.
Atenciosamente,
Avraham
Caro amigo Avraham,
Muito obrigado pelos seus comentários, que despertaram em mim a sempre desejável meditação sobre as nossas relações pessoais com o Criador do Céu e da Terra.
Muito obrigado também pelos seus amáveis votos, pois estou certo de que, embora o não tenha expressado por escrito, em espírito teve a intenção de reciprocar.
Não vou argumentar consigo, pois, como judeus, temos, graças a Deus, o direito e o costume de escutar e ler as tão diferentes interpretações dos nossos sábios da Lei, e decidirmos pelas mais aceitáveis pelo nosso espírito.
O problema com o Judaísmo é que, depois que, por nossos pecados, perdemos o nosso Templo em Jerusalém, o nosso centro cultural e religioso, os nossos sábios tiveram a preocupação de criar códigos rígidos de acção e de oração, para que o Povo disperso se não dividisse em seitas, através de diferentes fórmulas de culto.
Com isso perdemos uma importante forma de comunicação com Ribonó shel Haolam, que os nossos antepassados bíblicos, desde Avraham e de Moisés, nos ensinaram: o falar directamente com Deus, pelo nosso espírito, e sobretudo escuta-lo. Porque Ele nunca deixou de falar para nós, por todos os meios possíveis. Nós é que estamos demasiado ocupados com os textos das orações, que outros prepararam para nós, e demasiado surdos pelos barulhos, que nos rodeiam, mesmo na sinagoga, mesmo em Rosh Hashaná e Kipur, e nos dias da Penitência, que não só não O ouvimos, como não nos damos conta de que Ele está falando para nós.
A "guezherá", meu caro Avraham, são os homens que a causam a si próprios, ao desviar-se do caminho certo na vida. Se não comemos certo, trazemos sobre nós as doenças. Se tratamos mal o nosso próximo, nós sofremos mais do que ele. Nós é que nos castigamos, não Deus. Ele é rakhum vekhanun - como está escrito.
Apesar de haver quem blasfeme contra Ele, acusando-o de castigos horríveis, como aqueles que ousaram dizer que Deus castigou as crianças de Petah Tikva, no desastre do autocarro, porque os seus pais não mandaram verificar o estado das mezuzot das suas casas!
Quem disse isso, coitado, tem mesmo um canal desligado na sua comunicação com Deus.
Tudo isto, evidentemente, é glosa minha, e aceito que posso estar errado. Mas, se estou errado, Deus tem a sua maneira de me dizer.
Falar com Deus, meu caro Avraham, simbolizado naquela "entrevista" tão linda - que você suspeita de ser cristã, uma religião que provavelmente você também pensa que foi criada por outro Criador, mas eu, na minha ingenuidade, só reconheço Um - falar com Deus, naquela forma, é certamente "teshuvá", e é também "tefilá". E quem fez "teshuvá" daquela maneira directa, não precisa sequer decidir ou pensar fazer "tsedaká". Esta será sempre parte da sua maneira de viver.
Porque "haavarat roa haguezherá" não se compra, aceita-se.
Aqui ocorre-me uma dúvida, que me parece pertinente. O senhor escreveu: "O perdão nunca é automatico no judaismo. Deve ser merecido pelas boas obras.". Que faria o senhor, se mantivesse realmente um diálogo com Deus, e Ele lhe dissesse directamente que o perdoava? Acaso Lhe responderia: "Não, Senhor meu Deus, Tu não podes perdoar assim, automaticamente. Isso não estaria de acordo com a Lei, que está escrita, e que nós somos obrigados a seguir!."
Não o faria, não é verdade?
Recebi o link para a "Entrevista" de um grande amigo meu, judeu ortodoxo e também sincero. E ele também o tinha recebido de uma amiga judia. Gostei muito, e escutei a Voz que falava para mim. Porque eu sei que essas coisas não chegam a nós por acaso. Como não chegou por acaso o seu comentário, como forma que Deus escolheu para me conduzir para esta meditação.
E, como gostei, decidi partilhar a mesma oportunidade com todos os meus amigos, judeus, cristãos e muçulmanos. Foi a minha maneira de lhes desejar Festas Felizes e esperar que também no ano civil que vai começar saibam aproveitar a oportunidade de levar directamente ao Criador as suas dúvidas e sobretudo escutar as suas respostas.
É o que também desejo a si, meu amigo.
Ashrei col yire A. haolekh bederakhav
Receba um abraço amigo do
sempre grato
Inácio