O avô e os netos

Por © Inacio Steinhardt

sexta-feira, 12 de Janeiro de 2007

A Bíblia, como se sabe, não é apenas um código de leis religiosas. É também um relato histórico e um manancial de observações sobre a vida humana, que nunca perde a sua oportunidade, mesmo passados milénios sobre a época em que foi escrita cada uma das obras literárias, que a constituem

Por isso, o estudo da "Perashat Hashvua" – a porção do Pentateuco, que se lê nas sinagogas em cada semana do ano – renovado cada ano, proporciona de cada vez um novo ângulo de observação.

Ao ler no diário «Haarets», (com atraso de uma semana, por erro de paginação), o sempre douto comentário do rabino Benjamim Lau à perashá "Vayehi" (capítulo 48 do livro Génesis) lembrei-me das minhas conversas, de quando em quando, com o meu amigo, e ex-colega de trabalho, Imanuel M. Nascido em Vilna, capital da Lituânia, o meu amigo, além de muito culto, é um nacionalista judeu ferrenho, muito orgulhoso  das realizações e dos sucessos do seu Povo.

Ele tem três filhos e, pelo menos, sete netos. Mas quase sempre a nossa conversa deriva para os dois netos dele, que nasceram e vivem na América, e que comunicam com o avô em inglês. Imanuel tem uma obsessão em incutir naqueles dois netos conhecimentos sobre a história dos judeus, sobretudo dos últimos cem anos. Os pequenos é que não tem paciência para isso, têm outros pensamentos e outras ocupações, e agradecem muito os muitos livros que o avô lhes manda, mas não os lêem.

 

O capítulo da Bíblia que o rabino comenta, trata precisamente de avós e netos e da diferença de culturas.

Trata-se do patriarca Jacob, a quem a seca e a fome que grassavam em Canaan, obrigou a ir com seus filhos para o Egipto, onde o esperava uma surpresa. O responsável pela economia egípcia não era outro senão o seu filho José, desaparecido em criança, e que ele julgava morto.

Jacob vive no Egipto na companhia de seus 11 filhos e seus netos, que nasceram e cresceram na sua casa, e que ele conhecia bem. Agora eles vivem juntos, nas terras de Goshem, que se transformaram numa espécie de gueto.

José casara com uma mulher egípcia. Ele, sua mulher e seus filhos, viviam em condições muito diferentes, num palácio, com outros costumes e segundo uma cultura diferente.

Quando José recebeu a notícia de que seu pai estava doente, foi logo visitá-lo, acompanhado de seus dois filhos, Manasses e Efraim.

Quando Jacob soube que José tinha chegado, reuniu as suas últimas forças e sentou-se no leito para o receber.

E lembrou-lhe que seu avô, Abrahão, e seu pai, Isaac, tinham recebido de Deus a bênção, com a obrigação de a transmitir aos seus filhos e aos filhos de seus filhos, de geração em geração.  Assim também ele, Jacob, por segundo nome Israel, cumpriria a tradição recebida.

"Portanto, os teus dois filhos, que te nasceram na terra do Egipto, antes que eu para aqui viesse ter contigo, serão meus: Efraim e Manasses, assim como Reuven e Simão, serão reputados meus filhos."

O que significava que, para o futuro, também eles teriam parte da herança (a terra de Canaan), em igualdade com seus tios e primos.

Mas logo a seguir a Bíblia conta que Jacob perguntou, apontando para as crianças:

"E esses, quem são?"

O comentarista aponta para a grande tensão, que domina esta cena, tal como o texto bíblico nos revela.

Pois não sabia já Jacob que aqueles eram os seus netos? Tinha acabado de o dizer.

José, porém, sabia que Manasses e Efraim não estavam vestidos com roupas iguais às dos filhos de seus irmãos. Também não falavam a mesma língua nem tinham as mesmas maneiras. Ele próprio, José, vestia-se de modo muito diferente dos irmãos que tinham vindo de Canaan.

Como iria proceder o pai? Lembrar-se-ia que ele tinha sido o filho preferido, vendido como escravo por seus irmãos? Ou iria considera-lo como um assimilado a uma cultura estranha.

 

"São meus filhos, que Deus me deu neste país."

"Fá-los chegar a mim para que eu os abençoe."

Porque os olhos de Jacob se tinham escurecido, por causa da grande velhice, e não podia ver claramente. E chegados eles a si, beijando-os e abraçando-os, disse a seu filho: "Não fiquei privado de te ver, e mais do que isso, Deus mostrou-me a tua geração."

 

Comenta o rabino: "Jacob compreendeu que, por detrás dos fatos egípcios, se lhe apresentavam José e seus filhos, para continuar o caminho de seus antepassados. Há muitas roupas diferentes entre os filhos de Jacob espalhados por várias partes do Mundo. Compreendeu que dentro daquelas roupas se escondiam os netos, que queriam a sua bênção, para a transmitirem a seus filhos e gerações futuras."

Jacob colocou as mãos em cima das cabeças dos netos. "E naquele dia os abençoou dizendo: Assim será a bênção de Israel, que Deus te faça como Efraim e Manasses."

 

Desse acto, tão comovente, da bênção de Jacob, no leito da morte, aos netos, que acabara de conhecer, nasceu o costume dos pais judeus, na noite de Shabath, ao entrarem em casa, colocarem as mãos sobre as cabeças dos filhos e os abençoarem dizendo: "Que Deus te faça como Efraim e Manasses."

 

E porquê a obrigação de abençoar os filhos na noite de Shabath?

Esclarece o autor de Otsar Hatefilot, que a explicação está no facto de que, durante a semana, os pais, por vezes se aborrecem com coisas que os filhos fazem, ralham com eles, e dizem palavras que se arrependem de dizer. A bênção aos filhos, na noite de Shabbat, vem anular todas as zangas e todos os ralhos da semana que passou.

 

 

 

 

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