Ao correr da pena
por Inácio Steinhardt, em Israel
 
:: Geminação entre Lisboa e Gaza Data: Quinta-feira, 15 de maio de 2008

Nos últimos tempos, quase não há dia em que não encontre, na minha caixa de correio electrónico um pedido, endossado por um amigo, para que subscreva esta ou aquela petição em linha.

Se uma pessoa amiga me envia um pedido dessa natureza, é natural que o faça na certeza de que considera a causa justa. Por isso, eu lia com atenção o assunto da petição, e quase sempre concordava e, se estava realmente convencido de que se tratava de uma causa justa, acreditava que o número de assinaturas poderia realmente contribuir para a sua boa solução... E juntava o meu nome aos dos restantes peticionários.

Até que a frequência de tais petições, e o facto de que o assunto de algumas delas não tinha tido qualquer seguimento, me fez desconfiar da fartura, e então verifiquei facilmente que se tratava de um novo trend, e até se havia constituído um site especializado em "petições", sustentado por publicidade.

A partir de então, achei que não devia mais desperdiçar o meu tempo na leitura desses textos, reservando-o para ocupações que, na minha opinião pelo menos, serão mais úteis.

Três boas razões me assistiram hoje para me desviar desta decisão: o pedido vinha endossado por uma pessoa que considero amiga, esclarecida e isenta, que muito aprecio também profissionalmente, o título da petição alentou em mim a esperança de que alguém estaria a promover uma solução possível para o sofrimento das populações civis da Faixa de Gaza (palestinianos) e das povoações israelitas das proximidades, e, em terceiro lugar, porque a geminação de cidades me parece sempre útil, e Lisboa e Gaza, porque não?

Li, pois, o texto da petição.

O endereço, que me era indicado, era o do tal site, que produz petições em cadeia automática constante – www.petitiononline.com , "como serviço público", para o caso de alguém ter pretensões a ver o seu nome figurar. junto com outros crédulos, nalgumas dezenas de petições provavelmente justas e inocentes – e, para cúmulo da ironia, apresentava o patrocínio publicitário de uma conhecida empresa israelita "Clal-Forex".

Talvez mais do que algumas das pessoas, que já subscreveram a petição para o estabelecimento de uma geminação entre as cidades de Lisboa e de Gaza, eu tenho consciência e conhecimento directo e próximo das "múltiplas privações e violências, de que sofrem os palestinianos de Gaza."   Considero que a minha integridade moral e o meu respeito pelos direitos humanos universais e pela sua defesa não são em nada menores do que os desses subscritores. E certamente que anseio por uma solução justa para esse problema, pelo qual eu, como judeu e israelita, também estou a pagar um preço muito elevado, que esses subscritores ignoram ou fingem ignorar, talvez com as melhores intenções – aquelas de que o inferno está cheio.

Tentei em vão resistir à natural tentação de apontar para os factos, que foram (talvez inocentemente, talvez não) omissos na redacção da petição. Quis resistir, porque normalmente a minha voz dificilmente tem o condão de se fazer ouvir acima do barulho das turbas agitadas na praça pública, por vozes mais potentes que a minha.  O trend  é atacar os judeus e defender os palestinianos. E tudo quanto eu disser será visto como anti-trend.

Acabei por ceder, com um desejo apenas: que os meus amigos, e mesmo aqueles que o não são (inimigos não conheço e não creio que os tenha), depois de lerem isto, analisem estes factos, e, se entenderem que estou errado, me façam a graça de me apontar onde é que estou errado. Pois nada aprecio mais do que a oportunidade de me emendar.

"A cidade palestiniana de Gaza, de 1,5 milhões de pessoas encerradas entre muros israelitas e egípcios, é vítima de um cerco asfixiante."  É verdade!

Mas porque não se diz por quê? Se se dissesse por quê, talvez se pudesse assinar uma petição (o outro instrumento mais útil) para por fim à causa desta situação desumana.

Conheci Gaza, pela primeira vez, há cerca de 30 anos. Quando a cidade estava ocupada pelos israelitas. Conheci muitos palestinianos de Gaza que circulavam a meu lado nas cidades e vilas de Israel, onde vinham trabalhar e fazer os seus negócios. Falei com eles na sua própria terra. Não vos peço que acreditem se vos disser que me confessavam que nunca tinham sentido mais prosperidade económica, sobretudo em contraste com a época em que estiveram ocupados pelo Egipto, e antes pelos ingleses, pelos turcos otomanos.  Sei que é pedir muito que façam fé nas minhas palavras, pois, por definição, eu sou suspeito. Por isso, não peço. Não tendo outro remédio, aceito que haja amigos meus que me consideram suspeito. Paciência.

Sei, sobretudo, que ocupação é ocupação, é ocupação...  A ocupação foi o resultado de uma guerra, em que Israel foi o atacado e não o atacante (antes de o negarem, verifiquem bem os factos!) e pela qual, tendo vencido, pagou e continua a pagar um preço insustentável!!! Não cabe aqui explicar como.

Há extremistas em Israel, como os há também entre os palestinianos e no mundo árabe. Mas os representantes esclarecidos de ambos os lados tentaram desde logo chegar a um acordo de paz, aproveitar o preço pago por ambos os povos pela guerra, para alcançar a paz e, se possível, uma cooperação útil entre os dois povos. (Essa cooperação existiu e produziu excelentes resultados, para ambos os povos, durante o período da ocupação, acreditem!). Há quem entenda impedir isso, por razões que todos conhecemos, mesmo quando fingimos ignorar.

Até hoje isso não foi possível. Foi possível alcançar um acordo de paz e de colaboração com o Egipto. E outro com a Jordânia. Ambos estão a produzir os seus frutos! Mas com os palestinianos, não!

A Faixa de Gaza era o maior obstáculo. Israel não tinha nem tem nenhumas reivindicações territoriais em Gaza. Quando das negociações com o Egipto, o primeiro-ministro israelita Menahem Begin, propôs ao presidente egípcio entregar àquele país a faixa de Gaza, juntamente com o Sinai. Anwar Sadat não só se recusou a aceitar essa oferta, como, ao que parece, chegou a pôr em questão o prosseguimento das negociações, se os israelitas insistissem nesse ponto.

Os governantes israelitas, conscientes de que não tinham interesse nenhum em manter a ocupação de Gaza, e sem encontrar nenhum parceiro para negociar uma retirada, decidiram desmantelar os colonatos judaicos na faixa e retirar unilateralmente, sem condições.

Isto ignora-se na petição em causa. Há três anos que não existem, na Faixa de Gaza, nem um colono judeu, nem um soldado israelita.

Israel continuou a exercer o controlo sobre as entradas e saídas em Gaza, porque dali provinha a maioria dos autores de atentados, que faziam explodir autocarros e restaurantes nas cidades de Israel. (Sei que não é trendy  chamar-lhes terroristas).

Mas os postos de controlo continuaram abertos para a passagem de abastecimentos, de alimentos, de combustível para os automóveis e para a produção de electricidade, de medicamentos para os hospitais e para a população.

No sentido contrário, continuaram a passar de Gaza para Israel crianças e doentes graves que são tratados nos hospitais de Israel, tão bem como os cidadãos de Israel. E não só palestinianos. Cidadãos de vários países árabes, que não reconheceram nem têm relações diplomáticas com Israel,  chegam aqui e são tratados nos hospitais de Israel.

Seria de esperar que, depois da retirada total dos israelitas, houvesse do lado dos palestinianos um esforço honesto para normalizar as relações? Parece-me que sim, mas, se estou errado, corrijam-me, por favor, com factos e argumentos.

Em vez disso, os movimentos que hoje dominam a Faixa de Gaza, à revelia do governo palestiniano eleito, disparam diariamente dezenas de mísseis balísticos e morteiros contra as povoações civis israelitas, até onde a capacidade das suas armas alcança, cada vez mais longe.

Diariamente casas são destruídas, homens, mulheres e crianças morrem, ficam feridos, perdem braços e pernas. Em Israel. Não tem sossego, não se podem concentrar nas suas actividades diárias, as crianças têm medo de ir para as escolas e os pais também de os mandar. Em Israel.

Pensem agora, honestamente, para convosco, o que faria qualquer país normal, atacado dessa maneira, e com o potencial bélico, que todos sabemos que Israel possui. Pensem, mas não digam em voz alta, para não serem acusados de simpatizarem com "violadores dos direitos humanos".  Não agindo assim, será Israel um país normal?

Mas tudo quanto pensarem, Israel ainda não o fez até hoje. Apesar de cada vez mais provocado para que aja dessa maneira em que vocês estão a pensar. Digo "ainda" porque eu próprio ainda não compreendo como se pode "encaixar" durante tanto tempo, tantos mortos, tantos prejuízos materiais.

Em vez disso, paliativos.

Escreve o autor da "petição": "assassínios selectivos".

Entendamo-nos (esclareçam-me): deve o exército de Israel fazer o mesmo que fazem os guerrilheiros de Gaza? Disparar mísseis e morteiros contra as povoações civis? Não, porque é um exército regular, não um bando de terroristas.

Usar das tecnologias que lhe permitem atingir pontualmente um transporte de "mísseis" ou um operador reconhecido dessas armas mortíferas? Não porque isso é um "assassínio selectivo".

Fechar as passagens de fronteira e impedir a transferência de mercadorias gerais e de gasolina para a Faixa, tentando fazer a população compreender que só tem a perder com a continuação dos ataques por parte dos seus dirigentes? Não, porque isso é "um cerco asfixiante" anti-humanitário.

Enquanto tudo isto se passa a população da Faixa de Gaza sofre horrivelmente, e vive em condições económicas asfixiantes, porque não há trabalho em Gaza, e não pode vir trabalhar em Israel, por causa da infiltração de terroristas. Em vez deles vêm tailandeses, filipinos, romenos, chineses, etc.

Para cúmulo, e por razões que não tenho capacidade para compreender, embora os períodos de "castigo" sejam muito curtos, de cada vez que as autoridades reabrem as passagens "por motivos humanitários", logo os morteiros palestinianos são disparados contra essas passagens e sobre os camiões que trazem os abastecimentos. Alguém me saberá explicar onde está a lógica disto? Talvez quem tenha relações com quem manda fazer isso.

A fronteira entre a Faixa de Gaza e o Egipto está fechada, é verdade. Mas continuam a abrir-se túneis por baixo dessa fronteira, e por eles entram abastecimentos, não de alimentos, não de medicamentos, mas de armas e munições, que permitem chegar cada vez mais longe nos ataques contra as povoações israelitas.

Não há solução? Dizem que sim, que há, os israelitas poderiam abandonar as povoações (dentro das suas fronteiras de antes das guerras!) e recuar cada vez mais, à medida que aumentar o alcance das armas palestinianas aumentar, sempre em direcção ao mar... e, depois, de novo a Diáspora, o exílio e a dispersão. Viveram assim durante dois mil anos, sem pátria? Pois que voltem para lá.

Meus amigos, por muito que haja quem pense que esse é o trend, essa solução nunca os israelitas a aceitarão.

 


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