Ao correr da pena
por Inácio Steinhardt, em Israel
 
:: Pode um homem ter duas pátrias? Data: Sexta-feira, 02 de janeiro de 2009

Perguntar-me-ão agora em que é que todo este arrazoado se aplica a uma pessoa como eu, cujo patriotismo português nunca foi posto em dúvida, e até foi reconhecido várias vezes, para optar por viver no Estado de Israel?

Os meus pais não foram propriamente refugiados em Portugal, mas encontraram abrigo e a hospitalidade tradicional do bom povo português, quando se acolheram à sua terra, levados pelas agruras dos países em que nasceram.

Por isso me ensinaram a ser patriota português, mas também a ser bom judeu; o que aprendi deles nunca me abandonou.

Porque ser judeu – um favor divino ou um estigma – é uma identidade que, se nós a esquecemos, mais tarde ou mais cedo nos será lembrada pelos outros.

Nunca na minha vida escondi o facto de ser judeu, não tinha de que me envergonhar, e, permitam-me, tinha e tenho muito de que me orgulhar.

Todos os meus amigos, que, graças a Deus, sempre tive muitos e bons, de todas as camadas sociais, sempre me respeitaram e respeitam como judeu.

Não pude deixar de notar que, entre os portugueses mais cultos, alguns, por serem meus amigos, intimamente tinham pena de mim – por ter nascido com esse estigma.

Os outros, os menos cultos, recusavam-se a acreditar, pensavam que eu estava brincar quando dizia ser judeu: eles bem viam que eu não tinha as marcas físicas da minha "raça", cornos e apêndice caudal! Era essa a crença popular, inculcada por um certo ensino.

Aqueles que compreendiam o significado da minha identidade de judeu português, faziam-me perguntas, sem qualquer má intenção: "Leste o que se passou ontem na tua terra? Como é se diz isto ou aquilo na tua língua?"

Eu considerava-me 100% português e os meus amigos nunca se terão apercebido que aquilo me fazia sentir excluído.

Não vou alongar-me em grande número de exemplos que poderia citar. Mas é muito difícil explicar o que é um indivíduo sentir-se, na sua terra, um hóspede, ainda que generosamente sempre bem recebido.

Limitar-me-ei a esta expressão inocente, que diz tudo: um amigo meu, judeu, nascido de quinta ou sexta geração em Portugal, foi um dia apresentado, certamente sem qualquer intenção recôndita, por um funcionário da empresa de seu falecido pai, da seguinte forma: «Este é o meu novo patrão, um estrangeiro português

Portugal não é anti-semita nem racista, o povo português é bom, por natureza, acolhedor e hospitaleiro, sobretudo para os estrangeiros, mais do que para os seus naturais. As imagens negativas do "judeu" e do "cigano" baseiam-se sobretudo numa certa educação, aprendida, mas que não encontra eco na alma do português comum. Por isso, ele não acredita quando um verdadeiro judeu se lhe apresenta como judeu.

Tem sido alvitrado que a definição negativa (aviltante?) do "judeu". nos dicionários da língua portuguesa, deveria ser retirada. Eu sou contra essa ideia, porque impediria os leitores de compreender a intenção dos autores que usaram o termo na acepção negativa e logo os textos não seriam compreendidos. O mesmo em relação a "alarve" (o árabe).

No entanto, há épocas, há circunstâncias, há excepções, e o que é assim hoje, nem sempre foi e nem sempre será. (ver transcrição de documentos à margem).  

Claro que haverá sempre, em qualquer parte do mundo, quem alegue que o direito de sobrevivência existencial não assiste ao judeu, porque é um proscrito, porque a sua identificação étnica e religiosa é um estigma que impende sobre ele como uma desgraça.

Contra isso, o Sionismo é a resposta, o seguro de vida.

 

Continuarei sempre a ser um patriota português,  do que ninguém me poderá impedir. 

Como continuam a sentir-se portugueses os sobreviventes da Inquisição espalhados pelo mundo, como os israelitas que não nasceram no Estado de Israel, e que mantêm os seus elos de dedicação e lealdade aos países onde cresceram, e nisso são seguidos, muitas vezes, pelos seus filhos e netos.

Mas não permitirei nunca que me retirem, a mim e ao povo judaico, o direito a uma pátria a que possamos sempre chamar nossa, onde não sejamos nunca estrangeiros.

 

 


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Um livro

"A invasão semítica, em Portugal, está definitivamente consumada. Quando um povo invade um outro povo, há a avalanche invasora e a aristocracia dessa avalanche: o judeu é a aristocracia da avalanche semítica que invadiu Portugal - como outra o tinham sido os suevos e os godos entre os bárbaros invasores da Península Hispânica" (Mário Saa - «A Invasão dos Judeus», 1924)

Um documento diplomático

Em 11 de Novembro de 1939, quando todo o mundo sabia que Hitler havia determinado a exterminação de todos os judeus, e se preparavam os transportes para os campos de extermínio, Luís de Sampayo, em nome do Ministro dos Negócios Estrangeiros, António Salazar, mandava uma circular aos Ministros de Portugal, nas capitais europeias, onde se lia o seguinte:

2 - Os cônsules de carreira não poderão conceder vistos consulares sem prévia consulta ao Ministério dos Negócios Estrangeiros:

..................

c) aos judeus expulsos dos países da sua nacionalidade ou de aqueles de onde provêm

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