Ao correr da pena
por Inácio Steinhardt, em Israel
 
:: Onde está a lógica? Data: Terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Não tenho a presunção de ser um especialista em política internacional e muito menos em conflitos armados.

Mas algum bom senso e sentido lógico creio que ainda tenho.

Tenho procurado acompanhar, comedidamente embora, porque o tempo não dá para tudo, as opiniões dos comentaristas dos meios de comunicação social de Israel e internacionais. Tenho lido com atenção os comentários e os "recortes" que os meus amigos me enviam.

Não consegui ainda compreender a lógica em que se baseia o Hamas.

Há três anos Israel saiu unilateralmente da Faixa de Gaza. Saiu totalmente - agricultores-colonos e soldados.

No âmbito das negociações israelo-palestinianas, num tentativa para chegar ao objectivo, quase impossível, de um acordo que concilie as condições mínimas de cada uma das partes, o governo israelita apresentou uma proposta, destinada, declaradamente a criar um ambiente de confiança: "Vamos começar por Gaza!".

Quizeram, com isto, criar a imagem de que os israelitas aceitavam retirar da maior parte dos territórios ocupados.

Não interessa, para o caso, determinar agora a viabilidade política, interna, dessa intenção.

Para Israel a proposta tinha dois aspectos: por um lado seria um ensaio para a parte mais difícil da concretização de qualquer acordo de paz que venha a ser assinado: a retirada e desmembramento dos colonatos.

O outro aspecto é que a Faixa de Gaza representa um ónus para quem quer que se veja obrigado a administrar esse território. Israel não tinha interesse nenhum em anexar esse território, nem sequer ideológico, pois a Faixa, a antiga terra dos Filisteus, nem sequer faz parte da "Terra de Israel" bíblica.

Até 1967 ("Guerra dos Seis Dias") a Faixa de Gaza estava anexada pelo Egipto. Não era independente nem palestiniana. Mas, quando do acordo de paz entre Israel e o Egipto, este último país recuperou todos os seus territórios ocupados por Israel, mas recusou-se terminantemente a que a Faixa de Gaza fosse incluida.

Também o governo da Autoridade Palestiniana se recusou a assumir essa responsabilidade no âmbito da proposta israelita de "começar por Gaza".

Os israelitas, por sua própria conveniência, decidiram retirar unilateralmente, mesmo sem acordo com os palestinianos..

Na minha, talvez pouco esclarecida, opinião, qualquer autoridade palestiniana, deve ter como interesse máximo, preparar os territórios e a sua população para o estabelecimento de um futuro estado independente, com bases económicas, sociais e políticas sólidas, para sobreviver. E, ao mesmo tempo, promover a sua integração económica e política no espaço geográfico de que faz parte.

A libertação da Faixa de Gaza iria permitir-lhes também um primeiro ensaio para essa missão vital.

Isto não quer dizer que desistissem da luta política e/ou armada para a libertação dos restantes territórios ocupados, ou - como é a ideologia declarada dos movimentos fundamentalistas, como o Hamas - expulsar os judeus de todo o território, até ao mar...  Mas, nas circunstâncias, o seu interesse era outro.

Também do lado israelita há movimentos extremistas cuja ideologia é expulsar os árabes para lá do rio Jordão.  Felizmente para os habitantes da região, de um e do outro lado, trata-se de pequenas minorias.

Parece-me que a lógica e o bom senso aconselhavam, pelo menos como táctica, aproveitar a retirada israelita para concentrar todos os esforços na reconstrução, criando até uma imagem positiva para a futura retirada israelita dos territórios da Cisjordânia.

Só depois, criadas que fossem as estruturas para assumir o ónus de uma "guerra de libertação", se fosse esse o desejo – e o interesse dúbio - dos dirigentes palestinianos, enveredar por esse caminho.

Enquanto isso, os israelitas mantiveram abertos os postos de fronteira, para a passagem de mercadorias, quer adquiridas em Israel, quer importadas e principalmente fornecidas por organismos internacionais de assistência. E também para a exportação de produtos locais.

Em vez disso, o Hamas, que, aproveitando o vácuo que se criou, assumiu o governo da Faixa, ignorou totalmente os interesses da população, iniciou imediatamente, logo no dia seguinte à retirada do último israelita, uma guerra de atrito, lançando diariamente dezenas de mísseis contra as povoações israelitas limítrofes.

Ao mesmo tempo desenvolveu um mecanismo de ataques suicidas, aproveitando a miséria da população, a qual, pelos mesmos motivos óbvios, se viu impedida de se deslocar para Israel, a sua principal fonte de trabalho, que outros, vindos de países longínquos, logo aproveitaram.

Não terá sido, tudo isto, uma táctica errada?

A primeira sanção israelita, que logo se fez sentir, foi um controlo mais rigoroso das entradas e saídas de mercadorias e de pessoas. Um crime contra a humanidade! – dizem alguns.  Se os galegos começassem agora a disparar mísseis contra as povoações do Minho e de Trás-os-Montes, não me parece que os portugueses respondessem com auxílio humanitário à população de Vigo e da Corunha. E talvez não esperassem três anos – nem três dias! - para mandar para lá a Força Aérea.

 

Agora os israelitas decidiram FINALMENTE agir!

Dizem eles, e eu acredito, que os alvos foram escolhidos pormenorizadamente, foi utilizado armamento de precisão, para evitar, tanto quanto possível, vítimas civis.

Acredito, sem ser obrigado, porque os comunicados israelitas, tendenciosos ou não, têm uma posição e uma imagem a defender.

Mas são os comunicados palestinianos, que leio e ouço directamente, que anunciaram ontem que já havia mais de 300 mortos, na sua grande maioria homens fardados. Os civis são, mesmo assim, muito poucos, embora sempre demais.

Parece "brincar às guerras", mas os planos da ofensiva israelita foram preparados tão minuciosamente, que ontem aconteceu o seguinte:

Num prédio de habitação em Gaza, no andar térreo, tinha sido identificado um armazém com centenas de mísseis. No andar de cima vivia uma família civil, com crianças. Novamente onde está a sensabilidade e a humanidade de quem decidiu colocar ali o arsenal? O telefone tocou na residência particular no primeiro andar. (Até sabiam o número!). Uma voz, falando em árabe, avisou-os de que o prédio ia ser bombardeado, dando-lhes poucos minutos para abandonar o local. A família fugiu imediatamente. O prédio foi bombardeado, os mísseis foram destruidos e não houve vítimas. Pouco depois, chegou um camion para "salvar" os mísseis que haviam escapado.  O camion foi bombardeado e o motorista morreu. Será este o procedimento habitual de um exército em guerra? Desumano? Genocida?

Durante os bombardeamentos, os postos fronteiriços estão abertos para a passagem de abastecimento e ajuda humanitária dos organismos internacionais.

 

Que é preciso para fazer parar os bombardeamentos israelitas? Para que que as forças blindadas israelitas e os reservistas, concentrados junto à fronteira com Gaza não iniciem a invasão por terra?

Os israelitas não têm o mínimo interesse em enterrar os seus tanques na lama de Gaza, onde iriam certamente morrer muitos soldados israelitas? Não há dúvida nenhuma que não pretendem, nem vão  ocupar a mínima parcela de território, pois já vimos que isso seria contrário a todos os seus interesses.

Tudo quanto Israel pretende, para parar imediatamente os ataques, é um acordo pelo qual o Hamas garanta o fim absoluto dos seus bombardeamentos!

O Hamas apela desesperadamente para os países árabes, para o mundo inteiro, para que ponha fim ao que eles chamam de "genocídio".

Mas não está isso nas mãos do Hamas? Sem o auxílio de ninguém e mais do que ninguém? Parar o lançamento de "kassams" e de morteiros contra a população civil dos seus vizinhos e comprometer-se a tanto?  Só isso.

Em vez disso, há três dias e duas noites, que o Hamas está a fustigar toda a área, agora já num raio de 40 kms., com morteiros, mísseis Kassam e agora já com katiushas, que receberam do Hizbollah.

Uma destas atingiu a cidade de Ashdod, a 30 kms apenas a sul de Tel Aviv, matando uma mulher que estava na paragem do autocarro. Dois homens ficaram gravemente feridos. Mais dois mortos, para o norte e para o sul de Gaza. As populações retidas em casa; não se pode sair para o trabalho nem para as escolas.

Não vale a pena parar com isto para "aceitar" o fim da destruição e do morticínio?

Os comunicados do Hamas não me explicam a lógica do que eles estão a fazer.

 

 

 

 

 

 


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