Ao correr da pena
por Inácio Steinhardt, em Israel
 
:: Misvah - A Arte de Bem Fazer Data: Sábado, 08 de fevereiro de 2003

«Misvah» - a transcrição mais semelhante em português deveria ser Mitsvá, mas eu prefiro usar aqui a dicção que sempre ouvi aos meus amigos sefarditas em Lisboa – significa literalmente “comando, ordem, mandamento”.

Na tradição judaica, porém, a palavra envolve um conceito muito mais vasto, que tem que ver com toda uma forma de viver, de relacionamento com Deus e com os homens.

Um exemplo? Aqui vai. Uma festa de casamento hassídico é uma experiência a não perder. O número de participantes é impressionante, porque recusar o convite é uma desfeita, e alegrar os noivos com a nossa presença é uma «misvah».

A sala é normalmente dividida por uma cortina, separando as mulheres dos homens, e em cada um dos sectores se come, se coscuvilha e se dança com alegria mística e contagiante.

Um dos fenómenos que sempre me impressionou nestas bodas é o número elevado de “pedintes” sempre presente, passando de mesa em mesa, insistentes, com um pseudo livro de recibos na mão, pedindo para o  dote de uma noiva pobre, para a operação urgente de uma criança, para o pão dos oito filhos de uma viuva indigente.

Nunca vi que algum dos convidados , alguns com aspecto aparente de pessoas de poucos haveres, não abrisse mão de uma moeda, de cada vez que é abordado, colocando-a no saco das esmolas que lhe apresentam. Isto sem fazer perguntas, sem um olhar inquiridor.

Mais tarde compreendi que, além da prenda para os noivos, os convidados preparam de antemão grande número de moedas, todas do mesmo valor.

Atrevi-me um dia a perguntar aos meus companheiros de mesa, se eles conheciam os “pedintes”, se sabiam ser a causa verdadeira e não pedincha profissional.

A resposta foi-me dada colectivamente, sem hesitações: “dar esmola é uma «misvah». Se quem a recebe lhe dá mau destino, a «averah» (pecado) não tem que ver com quem dá”.

Vem isto a propósito de uma desventurada família portuguesa, que o destino irado atirou para esta terra de judeus.

Não vem ao caso alargarmo-nos em pormenores. Basta que saibamos que a mulher nasceu em Portugal, de pais cristãos, e foi entregue à nascença, por adopção, a um indivíduo, também cristão, que mais tarde a trouxe para Israel. Nunca conheceu os pais biológicos.

Por morte do pai adoptivo, andou aos empurrões da vida, e acabou por casar com um operário de construção português, que por aqui moureja o seu pão. Têm um filho cuja doença grave de nascença impede a mãe de trabalhar for a de casa. Vivem nos estaleiros de construção com muitas dificuldades.

Ela pediu auxílio de emergência às instituições cristãs. Não a atenderam. A colónia portuguesa em Israel pouco pode fazer por esta família.

Até que o marido mudou de patrão e a família teve que ir com ele viver para outro estaleiro, longe do hospital onde a criança está a ser tratada.

Foi aí que conheceram a Roni.

Roni é uma mãe de família, ortodoxa, filha de um rabino americano, e vive na mesma pequena cidade onde vivem agora estes pobres portugueses.

Muito do seu tempo e  das suas posses ela dedica a obras sociais e religiosas.

O marido contou-lhe um dia a história desta família de «goim» (gentios), que tinha ouvido a um colega de trabalho.

Foram procurar o estaleiro e constataram os múltiplos problemas com que a família se debate. O marido de Roni abriu a carteira para contribuir com algum dinheiro.

Roni fez-lhe sinal que não e depois de saírem explicou-lhe por quê.

“Dinheiro é um dos problemas, mas não é o principal que aflige esta pobre gente. Eles têm necessidade sobretudo de calor humano, de sentir que alguém nesta terra os acompanha como seres humanos, e não vê neles apenas estrangeiros, cujos problemas não são seus.”

No dia seguinte, Roni veio visitar acompanhada de sua própria filha. "A minha garota está de férias eu vou leva-la a um parque de diversões aqui perto. Não quer vestir o seu filho e vir connosco?”.

Enquanto tomavam conta dos miúdos no parque, Roni foi-se inteirando das dificuldades mais críticas da família. Depois convidou-a a vir um dia tomar chá com ela em sua casa.

Havia um problema de óculos. Roni falou com o dono do estabelecimento onde é cliente habitual. “Nunca lhe pedi um desconto para mim. Agora vou dar-lhe a oportunidade de cumprir uma «misvah».” O optometrista não só atendeu a nova «cliente» gratuitamente, como lhe detectou um problema clínico e a recomendou a um médico oftalmologista, a quem pediu idêntico tratamento.

Roni foi depois falar com a empresa de taxis de que é cliente e conseguiu condições especiais para os transportes de mãe e filho para as consultas no hospital.

Vendo que a mulher tinha jeito para trabalhos manuais e pintura, está a organizar uma oportunidade para ela expor e vender nas reuniões de um grupo de amigas.

Depois também a ajudou com algum dinheiro para cobrir um déficit imediato.

“Mas a ajuda principal” – diz a sua protegida – “é sentirmos que temos amigos”.

Esta faceta da ortodoxia judaica nada tem com o condenável fundamentalismo por que é mais conhecido.

“O salário da «misvah»” – diz o Talmud – “é outra «misvah». E o salário do pecado, é outro pecado.”

 

 


:.

«A oração, o arrependimento e a esmola

anulam a parte nociva da sentença»

(Livro de Orações para o Dia de Kipur)

::
:: MENU :.
Quem é Inácio Steinhardt?
Benvindo ao  meu sítio
Pode um homem ter duas pátrias?
Uma em que é cidadão por direito, outra em que é cidadão.tolerado.
O direito de sobrevivência na aflição existencial
Moral ou imoral, todo o homem tem o direito fundamental a um lar
O Direito Religioso
Direito bíblico ou direito corânico?
Direito, mas de quem?
Uma tentativa para analisar os argumentos de árabes e israelitas
O direito histórico, mas de quem?
A história é uma sucessão de conquistas e reconquistas,
Eu, o ursupador
Serei eu um ursupador de terra alheia?
Um Profeta de Gaza
Há trinta anos já tinha uma explicação para o que iria acontecer.
Onde está a lógica?
Quem compreender que levante a mão e me explique
A «Lucidez» de José Saramago
uma leitura de um conteúdo dos «Cadernos de José Saramago»
Geminação entre Lisboa e Gaza
acerca de uma petição
Eliezer Kamenezky
O judeu errante sedentarizado em Lisboa
Ewa
Uma polaca em busca da sua identidade
O escritor que ficou no "Outro Planeta"
K. Zetnik, o escritor que "morreu" em Auschwitz e voltou a nascer dentro de um barril de carvão
O libelo contra Amzalak
O livro que lança a segunda pedra...
A profanação do cemitério judeu de Lisboa
Uma visão diferente do descalabro
Muçulmano frustrado: Judeu frustrado
A história de um judeu da Galicia, heroi muçulmano
Mimuna, a deusa da sorte
A origem de uma tradição dos judeus de Marrocos
O avô e os netos
Como Jacob abençoou os netos que não conhecia
O "marrano" Ataturk
Seria de origem portuguesa?
Os Donme de Salónica
Os judeus secretos de Salónica
7.º Centenário da antiga Sinagoga de Lisboa
Em Rosh Hashaná do ano de 5067, 10 de Setembro de 1306, foi inaugurada a primeira grande sinagoga de Lisboa 
A visita do primo russo
Um antisemita russo encontra o túmulo do pai em Israel
Eça de Queiroz e os Amzalak
Uma família de Gibraltar em Lisboa e Jerusalém
O judeu que engolia espadas
Uma história do passado dos judeus de Lisboa
Yasser Arafat troca "livros prisioneiros"
A história esquecida de um troca de "prisioneiros" no Líbano
Judeus Frustrados
Judeus que se convertem a outras religiões, para, no fim do caminho, se voltarem a encontrar, consciente ou inconscientemente, no ponto de partida
A Dama das Papoilas
Um tributo à diva da canção hebraica, falecida nesta data
Saudades do tempo em que dava boleias
Tanta coisa que se deteriorou na vivência israelita
A mesma rua, lugares diferentes
A fraqueza da força e a força da fraqueza - um artigo do Prof. Yaakov Raz, traduzido do hebraico.
Samuel Schwarz
O engenheiro polaco que revelou ao Mundo os judeus de Belmonte (Distribuido pela Agência Lusa)
A Paz Possível
Erros pagam-se
Misvah - A Arte de Bem Fazer
A arte de benfazer
O 5.º centenário do Mosteiro dos Jerónimos e os judeus
Onde era a igreja da Conceição Velha construída no edificio da antiga Sinagoga Grande de Lisboa (Noticia distribuida pela Agência Lusa e publicada com autorização da DI, no bolerim da Comunidade Israelita de Lisboa - CIL - "TIKVA)
Moisés Abrantes - um humanista do Fundão
Moisés Abrantes - um humanista do Fundão
Prisioneiros em Damasco
Um passeio no lago, que levou à prisão e ao casamento

Bibliografia: (para ver mais detalhes clique na linha azul com o nome do livro)

A Philosophy of Mizvot The Religious-Ethical Concepts ...
Autor: Rabbi Gersion Appel

Philosophy of Mizvot
Auhor: Gersion Appel

Le Chat du Rabbin, tome 1
Autor: Joann Sfar

El gato del rabino, Vol. 1
Autor: Joann Sfar

 

© Todos os direitos reservados por Inácio Steinhardt
Reprodução proibida sem autorização por escrito
CONTACTO: inacio@steinhardts.com