7.º Centenário da antiga Sinagoga de Lisboa

Por ©

Inácio Steinhardt

 

terça-feira, 5 de Setembro de 2006

Faz agora dois anos – entre 7 e 12 de Setembro de 2004 – que a Comunidade Israelita de Lisboa comemorou, com a devida solenidade, o primeiro centenário da inauguração da Sinagoga Portuguesa "Shaaré Tikvá".

Talvez não venha a despropósito assinalar agora, ainda que apenas de forma simbólica, a outra efeméride – o sétimo centenário da inauguração da primeira grande sinagoga de Lisboa, em 10 de Setembro de 1306, que foi nesse ano o primeiro dia de Rosh Hashaná, do ano de 5067.

Rosh Hashaná, ou primeiro de Tishri, foi também o dia em que, segundo a tradição, terminou a construção do Templo do rei Salomão.

Talvez que essa outra efeméride estivesse também na intenção do Arrabi-Mor Dom Judah Ben Yahia, neto do primeiro arrabi-mor do Reino, Yahia Ibn-Yaish, ao escolher esse dia para inaugurar a sua opulenta sinagoga.

A placa, já bastante danificada, dessa sinagoga, ainda hoje se conserva no Museu Abraham Zacuto em Tomar.

 

 

Nela se lê, pela leitura erudita de Samuel Schwarz:

"Esta é a porta do Senhor pela qual os justos entrarão. Entrai pelas suas portas com graças e em seus átrios com louvor.

Vós que ides no caminho do Senhor acorrei à casa do culto. Três vezes por dia vinde às suas portas em acção de graças.

E tomai nas vossas mãos cítaras e cantai um cântico de graças.

Edifício formoso e belo construiu o opulento rabi Iahuda filho de Guedaliah que tem o seu assento nas assembleias dos justos e da congregação.

Ao nome do Senhor levantou e construiu esta obra magnífica.

E acabou a obra do nosso Deus no primeiro dia do nosso famoso mês de Eitanim, no ano de cinco mil e sessenta e sete do nosso cômputo.

Deus que dispôs o coração do rabino para aformosear a casa do nosso Deus e o nosso Templo, Ele reunirá o Seu povo no Seu santuário[ em Jerusalém], e nos fará ver a sua reconstrução em companhia dos nossos filhos.

Bem-aventurado o homem que me obedece, velando às minhas portas todos os dias, guardando as ombreiras das minhas dos meus pórticos."

 

"Eitanim" (os firmes) é outro nome dado ao mês de Tishri, porque, segundo a tradição, foi nesse mês que nasceram os três patriarcas da nação de Israel.

Devia ser realmente sumptuosa, em termos da época em que foi construída, essa sinagoga, situada na então Judiaria Grande de Lisboa, no ponto mais próximo da igreja da Madalena, que ficava então frente à cerca da Judiaria.

E talvez tivesse sido intencional a presença de um templo cristão, dedicado à judia arrependida Miriam de Migdal, junto ao bairro dos "cafres" judeus.

A única descrição visual que temos da sinagoga grande de Lisboa foi deixada pelo médico alemão, Jeronimus Muenzer, que visitou a Espanha e Portugal em 1494, num itinerário em latim, de que possuo a tradução em espanhol, de Júlio Puyol (Boletim da Biblioteca da Real Academia de la Historia):

 

"El sábado, vigilia de San Andrés, visité su sinagoga. No había estado nunca en uno de estos templos. En un patio que hay delante de ella, crece una parra gigantesca, cuyo tronco mide cuatro palmos de circunferencia. El interior, arreglado con extremada pulcritud, tiene una cátedra o púlpito para predicar, por el estilo del de las mezquitas; ardían diez enormes candelabros con cincuenta o sesenta luces cada uno, además de otras muchas lámparas, y las mujeres colócanse en lugar separado del de los hombres, alumbrado, de igual modo, con profusión de luces."

Que a sinagoga tinha, pelo menos, três naves sabemos pelo inventário dos bens apreendidos a Dom Isaac Abrabanel, quando este fugiu para Castela, por ter sido acusado de implicação na tentativa de subversão do Duque de Bragança:

"hum lugar de sseda["cadeira" na interpretação de Elias Lipiner] na esnoga grande de Lisboa, na nave do meo em que see assentava Yuda Abrabanel seu padre"

 

Os judeus pagavam à Comuna uma pensão anual pelos lugares reservados, que mantinham na sinagoga. Mas tinham o direito de os transmitir por venda ou por herança. Assim se explica que D. João II se tenha apropriado dos três lugares pertencentes a Isaac Abrabanel, de um dos quais fez doação, em 1486, a Mousem Zarco, seu alfaiate.

 

Em 1497, quando da conversão forçada dos judeus de Portugal, todas as sinagogas do reino passaram para a posse do rei.

Mais tarde D. Manuel I fez doação do edifício da sinagoga grande de Lisboa aos frades da Ordem de Cristo, em troca do convento que estes mantinham no Restelo, onde viria a ser construído o Mosteiro dos Jerónimos.

O edifício da sinagoga foi transformado pelos frades, devidamente autorizados pelo Papa, na Igreja da Conceição (Velha), que o terramoto de 1755 destruiu totalmente.

© Inacio Steinhardt, 2006

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