Samuel Schwarz

Por © Inácio Steinhardt

quarta-feira, 31 de Agosto de 2005

Completam-se este ano 90 anos desde a chegada a Portugal do engenheiro judeu polaco Samuel Schwarz.
Foi Schwarz quem descobriu e revelou a todo o mundo judaico a existência de uma comunidade secreta cripto-judaica, em Belmonte.
Nascido em Zgierg, na Polónia, em 1880, Samuel Schwarz era filho de um erudito hebraista, que tomou parte como delegado, no 1º. Congresso Sionista, convocado por Teodor Herzl.
Com a idade de 18 anos, Samuel deixou a casa dos pais para ir estudar engenharia mineira em Paris. Trabalhou depois na Espanha, na Suissa, na Costa do Marfim e na Rússia, onde conheceu sua futura esposa e se casou.
No princípio da 1.ª guerra mundial, o casal foi viver para Orense, em Espanha, e em 1915 estabeleceram-se definitivamente em Portugal.
O seu primeiro trabalho profissional foi nas minas de estanho de Belmonte.
Aí, quando comprava aprovisionamentos para o seu escritório, um comerciante local aconselhou-o confidencialmente a que deixasse de comprar na loja de um seu concorrente.
"Basta que lhe diga que ele é judeu".
Vindo da Polónia, onde existia uma vida judaica pujante, para Portugal, onde a comunidade judaica reconhecida não excedia algumas centenas de membros, a confidência do comerciante de Belmonte causou-lhe obviamente enorme surpresa.
O problema imediato foi que, tanto como os vizinhos cristãos apontavam a dedo os habitantes "cristãos-novos" de Belmonte, estes escondiam as suas práticas religiosas e negavam veementemente serem judeus.
Schwarz necessitou de muita paciência, muitos conhecimentos da liturgia judaica, e de muito poder de persuasão, para ser reconhecido pelos cristãos-novos de Belmonte como seu correligionário.
Revelou então a sua descoberta em inúmeros artigos e entrevistas na imprensa judaica de todo o Mundo, que, por sua vez, deram lugar a visitas de individualidades importantes e novos relatos em livros e jornais. Excelente poliglota, Schwarz dominava nove línguas.
A sua principal obra "Cristãos-Novos em Portugal no Século XX" foi publicada em 1925, como separata da revista "Arqueologia e História", da Associação dos Arqueólogos Portugueses, de que era membro.
Este livro é considerado ainda hoje um clássico e fonte primária de todos os investigadores da história dos cripto-judeus em Portugal moderno.
Traduzido duas vezes em inglês, o livro foi traduzido recentemente também em hebraico e encontra-se no prelo, por iniciativa do Instituto Dinur, da Universidade Hebraica de Jerusalém.
No espólio da sua biblioteca pessoal, uma pequena parte do qual se encontra na Universidade Nova de Lisboa, existe um manuscrito de uma tradução em francês, aparentemente ainda inédita.
Samuel Schwarz foi também um investigador emérito da cultura judaica em Portugal. Entre os trabalhos que publicou, encontra-se a revelação de um documento hebraico, até então inédito, sobre a conquista de Lisboa aos Mouros, vista pelos habitantes judeus de dentro da cidade.
Devem-se-lhe também estudos importantes sobre a localização das judiarias medievais de Lisboa, e uma história da Moderna Comunidade Israelita de Lisboa.
Foi Samuel Schwarz que identificou em Tomar um edifício, que servia de armazém de batatas, e anteriormente de prisão, como tendo sido originalmente uma sinagoga do século XV.
Schwarz adquiriu e recuperou o edifício a suas custas, reuniu nele a maioria das inscrições hebraicas encontradas em território português. Ofereceu-o depois para o acervo cultural português, sob o nome de Museu Abraão Zacuto.
Actualmente a "Sinagoga de Tomar" é um importante atractivo turístico da cidade.
Samuel Schwarz faleceu em Lisboa em 1953.
Este ano foi inaugurado em Belmonte - cuja comunidade cripto-judaica regressou entretanto ao judaísmo normativo - um Museu Judaico, que esclarece aos turistas e visitantes nacionais a história incrível daquela comunidade.
Lamentavelmente, os responsáveis por aquele espaço museológico parece terem esquecido dedicar um sector do museu à figura e história de Samuel Schwarz, a cuja descoberta e obra de investigação Belmonte ficou a dever a divulgação no mundo da sua comunidade judaica.
É uma lacuna imperdoável, que os responsáveis certamente quererão reparar, na altura em que se comemora o 80.º aniversário da chegada de Samuel Schwarz a Belmonte.

Jornalista e escritor, correspondente em Israel da Agência Lusa

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