O judeu que engolia espadas

Por © Inacio Steinhardt

domingo, 4 de Junho de 2006

"Aarão d'Oliveira, nasceu em 1.2.1894, em Lisboa. Foi circuncidado a 8-2-1894, pelas 9 horas, na Sinagoga «Es-Haim 1.ª», Travessa do Ferregial, 12~1.º, em Lisboa, pelo Rev. Isaac J. Wolfinsohn e Moysés D. Benchimol, tendo sido seus padrinhos Elias Anahory e Carlota Guelam".

A citação é da valiosa obra de José Maria Abecassis «Genealogia Hebraica – Portugal e Gibraltar".

A sinagoga «Es-Haim 1.ª» é a mesma onde, muitos anos mais tarde, em 1946, eu viria a fazer a minha Bar-Mitsvá.

Claro que não conheci o Aarão de Oliveira, e duvido que ainda haja alguém na Comunidade de Lisboa, a quem o seu nome ainda diga qualquer coisa.

A que propósito venho eu agora falar-vos deste homem?

Em 1969 li no «Diário de Lisboa» uma estranha entrevista com "o judeu que engolia espadas". E guardei as duas folhas do jornal. Hoje, ao tentar mais uma vez, quase ingloriamente, arrumar alguns papéis dos meus arquivos, e deitar fora tudo quanto possível (para fazer lugar para outros que se vão acumulando!), dei com o jornal. Se eu não vos contasse agora a história do Aarão, ela iria irrevogavelmente para o "arquivo grande" e talvez caísse para sempre no esquecimento. Acho que ele merece um pouco mais.

Quando o Joaquim Letria o entrevistou, o nosso homem estava há 16 anos internado no Asilo das Irmãzinhas dos Pobres, em Campolide, convertido por necessidade, e chamavam-lhe então "José Maria".

[Olá, Joaquim Letria. Onde está ele agora? Ainda na RTP? Lembras-te do José Maria? Podes dar mais alguma achega de memória?]

Na entrevista, o Arão disse que era filho de Sarah de Oliveira e de Benjamim de Oliveira. Segundo os registos da Comunidade Israelita, reproduzidos por Abecassis, o pai chamava-se Jacob Jesalias Benjamim d'Oliveira e a mãe Sarah Bat-Abraham, uma indicação de que teria sido convertida ao judaísmo. Moravam na rua de S.Paulo, o bairro onde residiam, naquela época, muitos judeus, que nós ainda conhecemos. O pai nascera em Copenhagen, na Dinamarca, assim como o avô, Aaron Jesurum d'Oliveira, de quem terá herdado o nome, e o bisavô Jacob d'Oliveira.

A família Jesurum d'Oliveira é conhecida entre os cristãos-novos portugueses que foram, depois da conversão forçada de 1497, procurar o regresso ao Judaísmo por outras terras. Houve uma Rachel Jesurum d'Oliveira presa no Brasil pela inquisição. Rachel é um nome próprio que se repete na família do nosso homem. Quem sabe se o Arão não terá ainda parentes espalhados por esse mundo fora. Ele até tinha um irmão mais novo, nascido também em Lisboa, de nome Judah.

O pai era professor de música e pianista. Um dia partiu para o estrangeiro, desapareceu e nunca mais deu sinal de vida.

Sarah mandou o filho aprender diversos ofícios: marceneiro, carpinteiro, sapateiro... só não o de estofador, que era o que ele tinha na vontade.

Depois a mãe casou segunda vez, agora com um saltimbanco, que dava espectáculos na rua por esse Portugal fora. O pequeno Arão passou a acompanhá-lo, pelo Alentejo e pelo Algarve, tocando tambor.

O padrasto tinha um "número sensacional" com que ganhava muito dinheiro: engolia espadas. Arão pediu-lhe muito que o ensinasse também, mas o padrasto recusou-se sempre, porque era muito perigoso, poderia morrer.

Ele insistiu, mandou fazer um estilete de aço e fechava-se no quarto, com um copo de água para refrescar a garganta, experimentando sozinho, até que um dia o osso, a "maçã de Adão"deu um estalido, e estava "aberto o caminho" para uma carreira que havia de durar ainda muitos anos.

Entretanto conhecera no Alentejo uma viúva com um filho e passou a viver com ela. Não se casaram, porque ele se queria manter na religião de seus pais, e ela era católica. Não conhecia ninguém que o ajudasse a fazer a conversão da mulher (como o pai fizera com a mãe).

Arão actuava em Algés, nas praias, na província, em Espanha (sete anos) e ganhou muito dinheiro. Mas assim como ganhava, gastava. Nunca soube juntar um tostão de seu.

Teve filhos, e por isso recusou um contracto com o Coliseu, porque o obrigavam a deslocar-se ao estrangeiro sem a família. Deixou-se ficar por Portugal. O que ganhava dava para comprarem boas roupas e boa comida.

Até que os filhos morreram todos. Ficaram só com o enteado. A mulher adoeceu e começou a cegar. O encargo com o tratamento era muito grande ele não podia sustenta-lo. Então, como a família dela tinha meios, ele abandonou-a, para que família se ocupasse dela. Nunca mais a viu...

Aos 62 anos viu-se só, sem um tostão, sem um lugar onde cair morto.

Foi então que lhe falaram no asilo em Campolide. Era uma "coisa religiosa", mas que havia de fazer. Já não podia trabalhar. (Naquela altura a comunidade israelita também tinha um hospital, que também servia de abrigo para a terceira idade. Mas ele não saberia, pois não conhecia ninguém.)

As freiras insistiam sempre com ele para que se convertesse. Não teve outro remédio. Passou a ser o José Maria. Reparo agora na estraga coincidência: Aaron Lustiger, filho de judeus polacos, é agora Jean-Marie Lustiger, Arcebispo de Paris. Quase os mesmos nomes próprios!

"Quando saí da capela, depois de ter sido baptizado e crismado cheguei à porta e disse, bem alto: Aron morreu. Já não sou mais Aron. Agora sou o José Maria. Não me casei eu com a minha companheira para não mudarmos de religião..."

Não sei o que sucedeu depois ao Aron-José Maria. Se fosse vivo teria hoje 112 anos, o que é pouco provável, embora os judeus digam que se pode viver até aos 120, como Moisés!

Joaquim Letria escreve que, ao despedir-se dele, o velho engolidor de espadas, judeu-cristão, chorou comovidamente. Depois de 16 anos de asilo, o jornalista era a sua primeira visita.

No último comentário do jornalista, no jornal que tenho na minha frente, ele pensa que alguma coisa mudou naquele dia de Agosto de 1969:

"Mas no 16.º ano, Aron de Oliveira, o judeu, ressuscitou. Foi ele que nos ficou para trás de lágrimas a desenhar-lhe as rugas. O José Maria tinha desaparecido respeitosamente."

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