O envelope de Ben-Gurion

Por © Inácio Steinhardt

quarta-feira, 14 de Março de 2007

Poucos anos depois de ter mudado a minha residência para Israel, aconteceu-me estar de passagem em Lisboa, e participar num programa em directo na Rádio Comercial.

Quando sai do estúdio, os meus colegas na redacção entregaram-me um papel com um número de telefone. Alguém tinha ligado para mim e pedira para eu comunicar quando estivesse livre.

Liguei. Do outro lado do fio respondeu-me um senhor que me disse ter ouvido o programa, concluindo portanto que eu me encontrava em Lisboa, e me convidou para visitar a sua loja de alfarrabista, pois tinha algo, que deveria interessar-me.

Despertada a minha curiosidade, fui dias depois à Rua da Misericórdia, onde o senhor me entregou um pequeno envelope, em papel pardo, escrito à mão, com tinta verde, com a minha morada em Lisboa, na década de 50, como destinatário.  No remetente três letras em hebraico D.B.G., Sde Boker, Israel.

Apenas um envelope, sem qualquer conteúdo, que o senhor havia encontrado dentro de um livro que adquiriu, já não se lembrava qual.

Reparou no envelope, reconheceu o meu nome, e guardou-o. Também insistiu amavelmente em oferecer-mo, recusando qualquer pagamento.

Naquela altura, David Ben Gurion vivia efectivamente no Kibuts Sde Boker, depois de ter abandonado temporariamente a política, por dissidências com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Moshe Sharett.

Mas não consigo pensar na razão que terá levado o legendário fundador do Estado de Israel a escrever-me.

Naquela altura eu era bastante jovem. Talvez tenha escrito qualquer coisa a Ben Gurion. Não me lembro. O que é extraordinário é que ele me tenha respondido.

Ou talvez não seja tão extraordinário como isso.

Mesmo nos momentos mais críticos da sua governação, era frequente aparecerem cartas de Ben Gurion nas secções de "Cartas ao Director" da imprensa de Israel.

Quase sempre reagindo a um ou outro artigo ou notícia, sem nada que ver com a política, quantas vezes para expressar discordância sobre o uso de uma palavra hebraica, ou sobre a sua ortografia. Citava com frequência exemplos bíblicos, pois conhecia bem o Livro, mantendo um fórum particular de estudo da Bíblia, em sua casa.

Naquele tempo Israel era um país diferente, como eram diferentes os seus governantes.

Com alguns deles tive oportunidade de me encontrar, quando, entre 1950 e 1952, passei dois anos em Israel, e, depois de ter trabalhado num kibuts, e mais tarde como aprendiz numa oficina de aparelhos eléctricos, me empreguei num hotel de Haifa.

Trabalhava na contabilidade, mas, quando havia grande afluxo de turistas, como eu falava diversas línguas, pediam-me para ajudar na recepção.

Ben Gurion, e sua mulher Pola, hospedavam-se nesse hotel, quando vinham a Haifa. Havia uma diferença notória no protocolo entre as visitas oficiais, e as visitas particulares ou de natureza política.

Uma vez, Ben Gurion veio ao balcão da recepção e disse-me: "Eu queria falar com a minha mulher, em Jerusalém. Ligas-me para minha casa."

E dito isto foi sentar-se com alguns acompanhantes junto a uma mesa do lobby.

Eu não sabia o número. Mas pensei que não haveria dificuldade em obtê-lo através das "Informações".  Pois não só não foi fácil, como foi impossível. "O número é reservado" – respondeu-me a telefonista – "não o podemos revelar".

Expliquei que era o próprio primeiro-ministro que pretendia a chamada, mas ela não acreditou em mim.

Não tive outro remédio, senão dirigir-me à mesa, interromper a conversa, e perguntar ao cliente o número.

Ben Gurion olhou para mim e riu-se; "Queres crer que não me lembro. O da nossa casa de Tel Aviv lembro-me, mas o de Jerusalém não."

Valeu-nos a ambos Yigael Yadin, o chefe do Estado Maior, que estava ali sentado, em conversa com o D.B.G.  Abriu a agenda, procurou o número e deu-mo.

Poucos minutos depois eu estava a chamar o primeiro-ministro, pois tinha Pola do outro lado da linha.

 

 

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