Eça de Queiroz e os Amzalak

Por © Inacio Steinhardt

terça-feira, 27 de Junho de 2006

Numa manhã ensolarada de fins de Novembro de 1869, dois jovens intelectuais portugueses desembarcaram no porto de Jaffa, de um navio que os trouxera de Alexandria do Egipto.

Desembarcaram será talvez um eufemismo, pois Jaffa ainda não tinha cais de acostagem, e os navios ancoravam ao largo. O desembarque era sempre uma aventura arriscada, descendo os passageiros para pequenos botes, que os traziam para a muralha, e que, quando o mar estava agitado, por vezes se viravam, no encontro com as rochas.

Tiveram mais sorte José Maria Eça de Queiroz, e seu companheiro de aventuras e futuro cunhado, D. Luís de Castro Pamplona (Conde de Resende), pois deles se tratava. Segundo os apontamentos deixados pelo insigne escritor[i][2], o mar estava mais ou menos sereno, e o "desembarque" foi feito às costas dos carregadores árabes que os depositaram em terra firme

                 

"Avistámos Jafa como uma colina escura de casas; o sol aparecia por trás e dava à cidade um fundo de nuvens, colorindo-a violentamente. Jafa assenta à beira do mar; para o lado do Norte, ao longo da costa, começam logo os areais."

Nesses mesmos areais, começou a ser construída, 40 anos depois, a cidade de Tel Aviv.

Quem hoje se colocar no mesmo ponto de observação, e se voltar para o lado do Norte, onde Eça viu só areais, ao longo da costa, apreciará uma das mais lindas panorâmicas sobre a primeira cidade hebraica da Palestina, quem em 2009 vai celebrar o seu primeiro centenário.

Eça tinha então 24 anos e o seu companheiro andaria pela mesma ordem de idades.

Tinham embarcado em Lisboa, em fins de Outubro de 1869, rumo a Alexandria, com destino às festas da inauguração do Canal de Suez, a que assistiram efectivamente em 17 de Novembro.

Voltaram depois a Alexandria e daí embarcaram em princípios de Dezembro para Jaffa.

Na mesma tarde, seguiram a cavalo para Jerusalém, onde chegaram depois de acamparem durante a noite em Ramla.

Segundo todas as probabilidades, hospedaram-se em Jerusalém no Mediterranean Hotel, na Rua David, à Porta de Jaffa, na Cidade Velha, que, na altura, era toda a cidade de Jerusalém.

Eça não escreveu expressamente, em parte alguma, que foi aí que se alojaram. Mas datou um dos seus apontamentos de "Mediterranean Hotel no Acra – 1 de Dezembro de 1869".

E n' «A Relíquia» - o romance satírico, que foi fruto dessa curta viagem – ele descreve com muito pormenor as instalações do mesmo hotel, onde o seu herói, Teodorico Raposo, tenta em vão verrumar o tabique que separava o seu quarto daquele em que a bela inglesa Ruby, tomava o seu banho lascivo.

De resto, se não se hospedaram no "Mediterranean", a alternativa teria sido acamparem numa tenda nas proximidades, como era comum fazerem os turistas, ou nalguma casa particular.

O hotel era mesmo uma instituição relativamente recente, em Jerusalém. Pertencia a um judeu de Odessa, convertido ao cristianismo, Moses Hornstein, que alugou a casa aos herdeiros do seu proprietário, para ali estabelecer o hotel. Os baixos do prédio foram alugados a diversos comerciantes, que ali abriram lojas.

                               

 

Antes de Joseph Amzalak transformar a casa para seu uso

Das suas janelas podia apreciar-se o movimento da Porta de Jaffa, entrada principal para a Cidade Velha, assim chamada, porque dali saia o caminho que descia para o Mediterrâneo. No final do século 19, era uma corrente constante e pitoresca de carruagens, burros e camelos, que partilhavam a mesma rua com homens com as cabeças cobertas de keffiyes, streimels, turbantes, fez, chapéus de palha, safaris redondos, mulheres árabes com seus véus, e crianças nas ancas ou cestos à cabeça, mulheres europeias de longas saias protegendo-se com delicados chapéus-de-sol.

Ainda hoje, nos baixos da casa se encontram lojas de cambistas e de recordações para turistas, e por cima está ainda um hotel, o Petra, um magnete para jovens turistas e gente excêntrica. Pagando uma módica quantia pode também subir-se ao telhado e apreciar uma magnífica panorâmica sobre a Cidade Velha de Jerusalém e seus Lugares Santos para as três religiões.

Eça de Queiroz e seu companheiro não se demoraram em Jerusalém mais do que uns escassos dias.

E nós também não nos vamos demorar mais com o Eça e com o conde. Voltaremos a ele mais tarde.

Porque em vão buscámos na obra do escritor, e nos apontamentos meticulosos que escreveu durante a viagem, amorosamente publicados por sua filha sob o título "Folhas Soltas" qualquer referência aos donos do prédio onde estava instalado o hotel. Nem sequer se terá apercebido da sua relação com Portugal e com o que, mais tarde ele próprio iria escrever em Paris.

É deles que vamos tratar.



Os Amzalak de Gibraltar

Aquele prédio, de dimensões suficientes para nele funcionar mais tarde um hotel, pertencia à família Amzalak, originária de Gibraltar, precisamente a mesma um dos ramos da qual se estabeleceu em Portugal.

Quem visitava Jerusalém mais demoradamente tinha que conhecer os Amzalak, comerciantes abastados, levantinos com hábitos ocidentais, e anfitriões magnânimos. E tinha que os conhecer sobretudo se necessitava de cambiar dinheiro, ou de sacar alguma letra de câmbio sobre uma praça estrangeira. Era essa a sua principal ocupação, além da transacção de propriedades e sua administração.

Tal como existe agora em Lisboa uma rua, em Telheiras, com o nome do mais célebre dos seus munícipes, o professor Moses Bensabat Amzalak, também em Telavive, no bairro de Neveh Tsedek, às portas de Jaffa (agora já incorporada no município de Telavive), se encontra uma Rua Amzalak.

O rabino Isaac Amzalak, nascido em 1750 em Marrocos, teve ali dois filhos: Moses, nascido em 1768, e Joseph[i][3], nascido dez anos mais tarde.

Ambos foram viver para Gibraltar, provavelmente depois da morte do pai, mas não há fontes precisas sobre a data. Devem ter ido para Gibraltar nos anos de prosperidade e paz na colónia (1755-1777).

Ambos foram comerciantes e acumularam fortuna naquela colónia inglesa, onde adquiriram também a nova nacionalidade.

O futuro dos dois irmãos deveria então separar-se em dois ramos: um que foi para Portugal, o outro para a Palestina.

Cerca de 1804, Moses mudou-se para Lisboa, onde viveu na Rua Nova dos Sapateiros e mais tarde na Rua dos Fanqueiros. Foi dos primeiros judeus a virem viver para Portugal depois do enfraquecimento do poder da Inquisição.

De sua mulher Simy teve sete filhos.



O ramo da Palestina – Joseph Amzalak



Joseph, por sua vez, dedicou-se ao comércio internacional, foi armador de navios, que transportavam as suas mercadorias e as de outros, pelo Mediterrâneo, Norte de África e até às Caraíbas. Em 1813 foi viver para Malta.

Nesse mesmo ano houve uma epidemia de cólera na ilha. Como, entre outros negócios, Joseph Amzalak tratava também no comércio de escravos, um rabino advertiu-o de que só poderia escapar à terrível doença se se arrependesse dessa mancha no seu currículo e fosse viver para a Terra de Israel. Depois de uma demorada passagem por Constantinopla, sede do Império Otomano a que a Palestina estava sujeita, Joseph mudou-se para Akko (S. João de Accre, a cidade dos Cruzados), em 1816.



O ramo português – Moses Amzalak



Entretanto, depois da morte da mulher, em 1829, também seu irmão, Moses, decidiu mudar-se para a Palestina. Tinha então 60 anos, o que na altura era uma idade avançada. Moses Amzalak pretendia ser sepultado, quando falecesse, no Vale de Josephat em Jerusalém.

Akko não era considerada então parte de Erets Israel. Não havia cemitério judaico na cidade, porque todos os judeus que ali habitavam eram sepultados em cemitérios judaicos nas aldeias drusas fora da cidade, mas dentro dos limites da Terra Santa.

Moses convenceu o seu irmão mais novo a irem viver ambos para Jerusalém. Joseph obteve do sultão um firman que o autorizava a embarcar para Jaffa, de onde seguiu para Jerusalém, e pouco depois em 1828 pediu novamente licença para trazer a família e os haveres, ficando a viver na Cidade Velha. Seu irmão juntou-se a ele em 1829.

A partir daí, por qualquer motivo e segundo a informação dos descendentes em Israel, de seu irmão, Moses deixou de ter contacto com a família em Lisboa[ii][4]. Certamente por isso, o professor Moses B. Amzalak tinha uma ideia muito distorcida sobre os nomes e a história dos seus parentes na Palestina[iii][5].

Ao que consta, casou mais duas vezes, a última das quais com a sua cozinheira, mas não teve mais filhos.

No entanto, pelos vistos tinha família, pois um turista cristão americano, descreveu-os da seguinte maneira:

"We were invited by one of their first families to visit them; they received us with much kindness, and showed us all over their house, which this week is arranged in their best order. Their rooms were comfortable and pleasant, with matting on the floors, divans with neat covers, beds, tables, and a few chairs, which they insisted on our using. Afterwards we sat a while with them in their tabernacle, which was enclosed at the sides with curtains, and covered above with canes, and a few pine branches, which had been brought from a great distance; a small table stood in the centre, upon which all their food must be eaten during this week of the feast; over it was suspended clusters of grapes, figs, and pomegranates. The aged father [Moses], with some difficulty, expressed that from sympathy he loved the stranger, especially Americans; that his people were free in their land, and he had known them in his intercourse of trade in the Mediterranean, while he resided a long time in Gibraltar. He invited us to come often to see him, saying that "we are all united in worshipping the same God, and in looking for his kingdom". The mother and daughters were gaily dressed in English style, and served us with coffee, sweetcakes, and preserved citron, and showed us much love at parting".

Como se vê, a visita foi durante Sucot, e o visitante foi recebido na sucá da família.

Entre outras coisas, Moses dedicava-se ao câmbio de moedas e desconto de letras.

Um missionário inglês, que se encontrou com pouco dinheiro em Jerusalém, obteve de um colega uma letra promissória sacada sobre o correspondente deste em Beirute, a quem ele deveria também devolver o dinheiro. Mas era necessário descontar essa letra em Jerusalém e receber o dinheiro em contado.

Levaram-no a casa de Moses Amzalak, que o recebeu fidalgamente e lhe disse que já estava retirado dos negócios. Mas mandou chamar outro judeu que lhe fez um câmbio 16% mais favorável do que o corrente.

De uma forma geral, tanto Moses como Joseph e seus descendentes eram conhecidos entre judeus e não-judeus com uma das famílias mais nobres do "velho Yishuv".

Uma lenda da família – e quase toda a história dos Amzalak, na geração de estamos a tratar, é baseada em muitas lendas e tradições da família – diz que ele faleceu com 108 anos. A realidade parece ser que faleceu com 91 anos, em 19 de Outubro de 1858 e foi sepultado no Monte das Oliveiras.



Novamente Joseph Amzalak e seus descendentes



Joseph era também uma pessoa extremamente bem relacionada em Jerusalém.

Eis uma descrição escrita por outro visitante estrangeiro, em 1843:

"The old man was richly dressed in the Eastern style, and wore, in addition, a light blue pelisse faced with fur, whose ample folds enveloped his neck and shoulders, while his bushy gray beard fell in rich luxuriance upon his breast. He had a fine hazel eye, quiet and penetrating, and his conversation was lively, with an air of importance and independence."

Quando se mudou de Akko, porto de mar, para o interior, em Jerusalém, Joseph Amzalak abandonou quase totalmente as suas actividades comerciais, para se dedicar sobretudo a operações financeiras, nomeadamente empréstimos a juros. Financiava assim muitos comerciantes, mas também instituições religiosas tanto cristãs, como judaicas. Dizem que em alguns casos cobrava juros muito altos, mas às instituições judaicas cobrava percentagens apenas simbólicas.

Em 1833 cedeu a casa em que vivia, junto à Cidadela, para uma missão missionária inglesa, e mudou para a tal residência, a que já nos referimos, muito maior e muito próxima daanterior.

 

                                              

                                                                                  A casa que foi dos Amzalak – hoje

Tinha uma sinagoga dentro dessa casa, onde todos os membros varões da família se encontravam três vezes ao dia, para cumprirem shaharit, minhá e arbit.

A casa de Amzalak era, naturalmente, o ponto de encontro da melhor sociedade de Jerusalém, judeus e cristãos, missionários, representantes consulares estrangeiros, governantes locais.

Quando algum visitante ilustre vinha à Terra Santa, quase sempre se hospedava na casa dos Amzalak. Pois já vimos que hotéis não havia.

Entre eles Sir Moses Montefiori e Lady Judith, quando visitaram pela primeira vez a Palestina

Era, de resto, extremamente religioso e caridoso.

Além de profundamente conhecedor da Tora, do Talmud e da Cabala, era também mohel, para o que recebeu formação em Londres. Gostava muito de se encontrar com eruditos cristãos e discutir religião com eles.

Conta-se um incidente curioso, passado com Joseph Amzalak, em casa do missionário Joseph Wolf. A dona da casa ofereceu-lhe um bolo, que ele se recusou terminantemente a aceitar. Então, sem que ele reparasse, a senhora comeu ela o bolo e deitou na lareira o papel que o embrulhava. Amzalak só viu o fumo, pensou que tivesse sido um acto de "feitiçaria". Saiu muito zangado e foi-se mergulhar no mikve.

Joseph Amzalak casou três vezes. Da primeira mulher, Roza de Benjamin, teve uma filha, Esther, que casou com Eliahu Navon, descendente do Haham-Bashi (grão-rabino) Yehuda Navon. Desta filha teve um neto, Joseph Navon, que viria a ser o braço direito e principal colaborador de seu tio, Haim Nissim Amzalak. De ambos vamos ainda saber muitas coisas.

Haim Nissim, nascido em 1828, era o segundo filho varão de Joseph Amzalak. O primeiro, Yitshak David, morreu em 1838, com a idade de 13 anos. O pai sofreu um choque terrível e moveu influências para conseguir uma autorização especial para violar a quarentena em Jaffo e abandonar o país. Não chegou a faze-lo.

Os outros filhos foram Soloman e Rafael. Este casou com uma descendente de outro grão.rabino, Yonah Moshe Navon.

Solomon morreu novo e o irmão, Haim Nissim, decidiu adoptar o filho que Solomon deixou, chamado Ben-Zion.

Joseph morreu em 1845, 13 anos antes do irmão mais velho e foi dos dois o primeiro a ser sepultado no Monte das Oliveiras.

 

Haim Nissim Amzalak – Cônsul da Nação Portuguesa

 

                                                                                          

                                                            O cônsul Haim Amzalak

Depois da morte do pai, na década de 1850, Haim Nissim mudou-se para Jaffa, onde se desenrolava a vida económica da Palestina.

Não abandonou, porém, totalmente a cidade de Jerusalém.

Alugou a mansão da família, onde, como já vimos, a Moses Hornstein, o dono do Hotel Mediterranean.

Em Jaffa, viveram primeiro na área próxima do mar. Pouco depois saiu da área mais ruidosa de Jaffa, para Neveh Tsedek, o bairro a que os árabes chamavam Manshiya, e foi viver para uma casa de três pisos, pertencente a um dos seus sobrinhos.

A casa ainda lá está, na Rua Amzalak, mas já foi toda reconstruída, segundo a traça antiga, e agora está alugada por apartamentos. Uma placa metálica identifica-a ainda com "Casa Amzalak"

Trabalhou como banqueiro, tal como seu pai, de sociedade com Jacob Valero, de outra importante família sefardita. Mas interessou-se sobretudo pela compra e venda de propriedades. Tinha terras em Jerusalém, que administrava através de agentes na cidade.

Parte vendeu e outra parte tinha arrendado com grandes lucros. Foi dos primeiros judeus a comprar terras nos arredores de Jaffa. Também em nome de sua mulher Esther comprou terras, que tinham plantado com pomares e laranjais e que lhes serviam de casa de verão.

O negócio de propriedades viria a servir-lhe para, sem quaisquer lucros, ajudar os activistas sionistas a adquirir terras para o futuro yeshuv judaico.

Para se fazer uma ideia da dimensão dessa actividade, bastará mencionar que foi Haim Amzalak quem comprou em seu nome, mas para Zalman Haim Levontin, os terrenos onde este viria a iniciar a construção do que é hoje a cidade de Rishon LeZion.

Havia, porém, um óbice muito grande ao exercício dessa actividade. O Sultão não permitia que cidadãos locais, sobretudo judeus, adquirissem terras.

Os únicos que podiam faze-lo eram os que gozavam do estatuto de estrangeiros, sobretudo os representantes consulares de países estrangeiros.

Estes gozavam de um estatuto de extraterritorialidade excepcional, quer em relação às leis e à justiça, quer em relação aos impostos.

Muitos residentes locais se ofereciam gratuitamente aos países estrangeiros, para exercer as funções de cônsules, vice-cônsules e até de intérpretes, apenas para usufruírem dessas importantes regalias.

Haim Amzalak era cidadão britânico, como seu pai, que adquiria a nacionalidade em Gibraltar.

A Inglaterra já possuía um cônsul em Jerusalém, Noel Temple Moore, por tal sinal grande amigo pessoal de Haim Amzalak, que não escondia a sua grande devoção por aquele país.

Em Jaffa havia também um vice-cônsul britânico, que, por qualquer razão, não dependia do Cônsul em Jerusalém, mas sim do seu homólogo em Beirute.

A solução encontrou-a nas relações que ficaram do seu falecido tio Moses, ou de seus primos em Portugal[i][6]. Graças a influência dessas relações, em 18 de Janeiro de 1871, Haim Amzalak foi nomeado "Cônsul da Nação Portuguesa em Jerusalém, Turquia". Portanto um ano depois de estadia de Eça na que fora a casa dos Amzalak,

Não era um cargo que lhe desse muito trabalho e ele exercia-o gratuitamente. Mas não deixou de cumprir com inteira dedicação as obrigações a que o título o obrigava. Embora já vivesse em Jaffa, abriu um consulado em Jerusalém, que visitava regularmente, mas era sobretudo o sobrinho, Joseph Navon, que tomava conta das actividades consulares. E quando este não se encontrava na chancelaria, havia lá pelo menos um "dragoman" para atender o público.

Quem parece não ter levado muito a sério a ideia de um consulado português em Jerusalém foi o governador otomano.

Todos os pedidos de Amzalak para que fosse colocado um "kavass" (sentinela) à porta do consulado foram ignorados. Alegou o governador que o cônsul raramente lá se encontrava.

Em 1882, a embaixada da Itália em Constantinopla foi encarregada de defender os interesses portugueses no império. E logo o cônsul em Jerusalém se dirigiu ao embaixador de Itália solicitando a sua intervenção junto do palácio, não só para corrigir esse desrespeito pela Nação Portuguesa, mas sobretudo por o governador não ter mandado hastear a bandeira na Cidadela, no dia do aniversário do Rei D. Luís. Ele, cônsul, tinha-o avisado por escrito e por portador, na véspera, como era o costume de todos os cônsules estrangeiros.

O governador alegou que a comunicação lhe chegara na sexta-feira, dia de descanso dos muçulmanos, e por isso no dia seguinte já se esquecera.

Além disso, logo que foi conhecida a abertura de um consulado português, apareceram doze judeus de Jerusalém para o felicitar e para lhe pedir que lhes reconhecesse a nacionalidade portuguesa, que lhes cabia de direito por seus antepassados. Haim Amzalak consultou o Ministério, mas a resposta foi negativa. E pouco mais.

Em 9 de Dezembro de 1886, foi "exonerado por conveniência de serviço das funções de Cônsul de Portugal em Jerusalém, conservando-lhe as honras e nomeado vice-cônsul de Portugal em Jaffa". Em 1892 foi substituído por outro vice-cônsul.

Na realidade, o cargo já representava um ónus para Amzalak, pois em 1869, demitiu-se o então vice-cônsul da Grã-Bretanha, e o nome de Haim Amzalak foi sugerido para o cargo. Não foi fácil, pois a primeira recomendação foi recusada. O seu amigo Moore conseguiu que Londres remediasse a anomalia de sujeição do cargo a Beirute, alegando que Jaffa era, na realidade, o porto marítimo que servia Jerusalém. Finalmente em 1872 Amzalak foi nomeado vice-cônsul com sujeição ao cônsul em Jerusalém. Igualmente exerceu o cargo gratuitamente, recusando o vencimento que lhe propunham, sob a alegação de que não era próprio. E agora exerceu o cargo com muito mais trabalho e não menor zelo.

Haim Amzalak havia sido agente dos Lloyds de Londres em Jaffa. Ao cabo de alguns anos desistiu do cargo, recomendando um seu filho para o substituir, o que efectivamente sucedeu depois da direcção em Londres lhe ter atestado os maiores louvores, no desempenho do cargo.

Essa actividade tinha-lhe granjeado muita experiência na recolha e compilação de dados sobre as actividades económicas locais.

Assim, em compensação das importantes vantagens que o estatuto consular lhe concedia, Amzalak preparava e enviava para Londres, com regularidade e frequência, relatórios detalhados, que incluíam não só o movimento de entrada e saída de navios, estatísticas de importação e exportação e preços praticados no mercado, mas também previsões futuras, sobretudo sobre as colheitas de cítricos e outros produtos agrícolas.

O sobrinho, Joseph Navon, era o seu braço direito.

Era a época em que toda a região tinha principiado um novo período de modernização, que os súbditos estrangeiros e os seus representantes aproveitaram para a realização de grandes lucros.

Joseph Navon estava bem colocado para isso, quer pelo grande prestígio da sua família paterna, descendente de rabinos famosos no Império Otomano e também em Jerusalém, quer pela experiência adquirida no trabalho com os seus tios Amzalak.

Terceiro filho de Eliahu Navon e de Esther Amzalak, nasceu em 1852, e foi circuncidado por seu tio Haim Amzalak.

Estudou numa yeshivá em Jerusalém, e foi depois completar os estudos em Paris, onde se inteirou de tudo quanto era moderno na Europa.

Falava árabe, francês, italiano, alemão, alemão e ... yiddish, sim yiddish, e dizem que quando falava nesta língua ninguém diria que não era ashkenazi.

De regresso à Palestina, Navon contraiu matrimónio precisamente com uma ashkenazi: Gisha Frumkin. Gisha foi muito bem recebida pelos Navon e Amzalak. Só que lá em casa nunca ninguém lhe chamava pelo seu nome. Passou a ser a Bolissa, um puro nome "sefardita" e pronto...  Foi um dos primeiros "casamentos mistos" entre sefardim e ashkenazim!

Gisha-Bolissa tinha um irmão, Dov Frumkin, dono de um dos primeiros jornais hebraicos, o «Havatselet". Isso abriu a Navon as portas para um órgão de informação importante para a propagação das suas ideias e seus projectos.

Não vamos entrar em detalhes sobre a imensa actividade comercial e pública de Joseph Navon. Bastará salientar que também se dedicou à compra de terrenos e construção de novos bairros em Jerusalém, fora das muralhas, para serem habitados pelos judeus que começavam a chegar ao país. Também entre Jerusalém e Jaffa, em Ramla, etc, comprou terrenos e fundou povoações judaicas.



A primeira linha de caminho de ferro



Empreendedor por natureza, em 1885 começou a germinar nele a ideia da construção de uma primeira linha de caminho de ferro de Jaffo para Jerusalém. Um engenheiro fez o estudo da viabilidade do projecto. Conseguiu alguns sócios, empréstimos, endividou-se com altos juros, conseguiu o apoio do nosso já conhecido Noel Temple Moore, cônsul de Sua Majestade Britânica e outros cônsules estrangeiros, e também do Pashá governador de Jerusalém. Foi a Constantinopla e conseguiu da "Sublime Porta" um firman para a construção e exploração durante 71 anos, de uma linha de caminho de ferro de Jaffa para Jerusalém, com opção de futuros ramais para Gaza e Nablus.

Como era de esperar, o projecto revelou-se desde logo como muito mais dispendioso do que inicialmente os seus promotores pensavam. Navon estava já quase falido e as obras nem sequer tinham começado.

Então foi a Paris e cedeu a concessão, por um milhão de francos, a uma companhia que então se formou, a "Companhia do Caminho de Ferro Otomano Jaffa-Jerusalém e seus ramais". Joseph Navon ficou com uma pequena parte das acções. E também com dois títulos honoríficos. O sultão Abudl Hamid II deu-lhe o título de Bey – Yussuf Navon Bey - e o governo francês condecorou-o com a Legião de Honra.



O exílio



Em 1914 foi decretado que todos os cidadãos estrangeiros teriam que se naturalizar otomanos ou abandonar a Palestina. Haim Amzalak morreu em Alexandria em 1916. Joseph Navon faleceu em Paris em 1934.

O primeiro comboio partiu de Jaffa para Jerusalém em 26 de Setembro de 1892.

 

 

      

      

                         Estação de Jaffa em 1895

 

Nalgumas ruas velhas de Tel Aviv, junto a Jaffa, ainda se vêem aqui e ali pequenos troços de linha férrea semi-enterrados. A "gloriosa" estação de Jaffa ainda se encontra em ruínas, escondida entre silvados por detrás da Rua Eilat, cercada de arame farpado, aguardando que um dia alguém na Câmara Municipal decida a sua conservação histórica.



Fradique Mendes e o comboio na Terra Santa



Prometemos voltar ao nosso Eça? Pois vamos terminar com ele analisou o projecto do comboio.

Em 1891 começa Eça de Queiroz a escrever a sua "Correspondência de Fradique Mendes", esse quase heterónimo colectivo, fruto da criação de um grupo de escritores: Antero de Quental, Ramalho Ortigão, Eça de Queiroz, pois cada um deles escreveu sob a personalidade fictícia desse indivíduo.

Ao chegar-lhe a notícia do caminho-de-ferro na Palestina, Eça redige a carta de Fradique a "Mr. Bertrand B., engenheiro na Palestina"[i][7], datada de Paris, Abril, mas como todas as outras sem indicação do ano..

",,,

Decerto, à porta de Damasco, com as botas fortes enterradas no pó de Josafat, o guarda-sol pousado sobre uma pedra tumular do profeta, o lápis ainda errante sobre o papel, sorris, todo te dilatas, e através das lunetas defumadas, contemplas, marcada por bandeirinhas, a 'linha' onde em breve, fumegando e guinchando, rolará da velha Jepo para a velha Sião o negro comboio da tua negra obra!

....

É em Jafa, na antiquíssima Jepo, já heróica e santificada antes do Dilúvio, que a tua primeira estação com os alpendres, e a carvoeira, e as balanças, e a sineta, e o chefe de boné agaloado, se ergue entre esses laranjais, gabados pelo Evangelho, onde S. Pedro, correndo aos brados das mulheres, ressuscitou Dorcas, a boa tecedeira, e a ajudou a sair do seu sepulcro. Dai a locomotiva, com a sua primeira classe forrada de chita, rola descaradamente pela planície de Saaron, tão amada do céu, que, mesmo sob o bruto pisar das hordas filistinas, nunca nela murchavam anémonas e rosas. Corta através de Beth-Dagon, e mistura o pó do seu carvão de Cardiff ao vetusto pó do Templo de Baal, que Sansão, mudo e repassado de tristeza, derrocou movendo os ombros. Corre por sobre Lida[ii][8], e atroa com guinchos o grande S. Jorge, que ainda couraçado, emplumado, e o guante sobre a espada, ali dorme o seu sono terrestre. Toma água por um tubo de couro, do poço santo de onde a Virgem na fugida para o Egipto, repousou sob o figueiral, deu de beber ao Menino. Pára em Ramleh, que é a velha Arimateia («Arimateia, quinze minutos de demora!»), a aldeia dos doces hortos e do homem doce que enterrou o Senhor. Fura, por túneis fumarentos, as colinas de Judá, onde choram os profetas. Rompe, por entre ruínas que foram a cidadela e depois a sepultura dos Macabeus. Galga, numa ponte de ferro, a torrente em que David errante escolhia as pedras para a sua funda derrubadora de monstros. Coleia e arqueja pelo vale melancólico que habitou Jeremias. Suja ainda Emaús, vara o Cédron, e estaca enfim, suada, azeitada, sórdida de felugem, no vale de Hennon, término de Jerusalém!"

Que belo texto para se ler durante a pachorrenta e hoje quase inútil viagem no moderno comboio de Tel Aviv para Jerusalém!

E continua o profético Fradique/Eça:

"Ora, locomotivas manobrando pela Judeia e Galileia, com a sua materialidade de carvão e ferro, o seu desenvolvimento inevitável de hotéis, ónibus, bilhares e bicos de gás, destroem irremediavelmente o poder emotivo da Terra dos Milagres, poque a modernizam, a industrializam, a banalizam. "

© 2006 Inácio Steinhardt

Ganei Tikva, Junho de 2006

 



 

 

 



1]  Para a elaboração destes apontamentos servi-me de diversas fontes dispersas, mas sobretudo do livro "Sephardic Entrepreneurs in Eretz Israel – The Amzalak Family 1816-1918", de Ruth Kark e Joseph B. Glass (Magnes Press, Jerusalém, 1991) e alguns artigos dispersos dos mesmos investigadores

Em menor grau, da obra "Genealogia Hebraica – Portugal e Gibraltar – Sécs. XVII a XX", de José Maria Abecassis.

[2] Editados e publicados por sua filha, Maria de Eça de Queiroz, no volumezinho «Folhas Soltas» (Lello & Irmão, Porto, 1966)

[3]  JM Abecassis, por informação do prof. Moses B. Amzalak, pensou que este filho se chamava Leon, Aliás é assim que figura numa árvore genealógica, que pertenceu aos arquivos do professor, e de que me foi gentilmente cedida cópia pelo seu sobrinho, Isaac Amzalak Levy. Amzalak baseou esta opinião no facto de se ter encontrado uma nota relativa ao falecimento de Leon Amzalak, filho de Moses Amzalak, chamando-o Leon Amzalak Jr., o que o levou a presumir a existência de um Leon Amzalak Sr., que poderia ser seu tio. Inclino-me a pensar que Isaac Amzalak também tenha tido de facto,  outro filho, chamado Leon, talvez falecido jovem, cujo nome foi dado ao sobrinho. Este segundo Leon  (Judah) Amzalak, foi o avô do Leão Amzalak, um dos fundadores da CIL e da sinagoga "Shaaré Tikva", e pai de Moses B. Amzalak.

O Joseph Amzalak que viveu em Jerusalém vem referido no livro de Abecassis, na nota 10, do título Amzalak, referenciando o seu casamento em Gibraltar, em 1808, com Roza de Binjamin. Abecassis provavelmente não relacionou. 

Portanto, o rabino Isaac Amzalak terá tido Moses, Joseph, eventualmente Leon e talvez até mais filhos, de que não há conhecimento.

[4] Esta informação parece-me duvidosa, pois Haim Amzalak recebeu a nomeação para cônsul de Portugal em 1871, obviamente em consequência de relações da família com Portugal. Ora seu tio Moses já tinha falecido em 1858. De todos os seus primos o mais provável para dispor de tais influências seria Leão (Judah) Amzalak. Mas este faleceu ainda antes do pai, em 1856. Talvez um filho deste, Moses Abudarham Amzalak. Mas tudo isto são hipóteses, que levam a crer que, até certa altura, existiram relações entre os dois ramos da família.

[5] Há algum tempo conheci numa viagem de autocarro para a Jerusalém, um senhor que é Amzalak pelo lado da mãe, e que me contou que quando o professor Amzalak cá esteve, a mãe do meu informador o procurou e chegou à conclusão de que os dois ramos da família pouco sabiam um do outro.

[6]  Ver nota n.º3

[7]  Havia um M. H. De Bertrand, entre os directores da Companhia. Teria ou não qualquer relação com o nome escolhido por "Fradique Mendes"? Provavelmente nunca o saberemos. O engenheiro que traçou os primeiros planos para o empreendimento chamava-se George Franjei.

[8] Onde agora está o aeroporto de Ben Gurion!

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