Shema Yisrael na igreja de Águeda

By Inácio Steinhardt

Saturday, January 22, 2011

Na semana passada, estive como convidado em uma reunião de amigos, em casa de um casal de escritores, em Tel Aviv.

Uma das senhoras presentes, sabendo que eu era de Portugal, perguntou-me se eu sabia a explicação para um fenómeno fora de comum, que ela testemunhara, através de um clip de vídeo, que alguém lhe enviará pela Internet: numa igreja em Portugal, o padre e a assembleia, constituída só por crianças, cantavam em coro, a oração judaica "Shemá Yisrael, Adonai Elohenu, Adonai Ehad", na língua original, em hebraico.

De boa vontade, transmiti a explicação que eu conheço, embora eu próprio ainda me não dê por satisfeito com o que sei sobre o evento.

Tudo começou para mim, há sete anos, quando li, na Internet, uma notícia, proveniente de Águeda, segundo a qual, a ANATA – Associação dos Naturais e Amigos de Águeda, havia atribuído o galardão "Judeu de Ouro" desse ano à delegação local da Cruz Vermelha Portuguesa.

Curioso (ou abelhudo) como sou, eu não podia ficar indiferente a esta notícia.

Escrevi logo pedindo que me explicassem

A resposta foi pronta e amável: "O Judeu de Ouro" é um galardão atribuído anualmente pela ANATA a um individuo ou uma instituição que se distinguiu nesse ano, por serviços prestados à comunidade.

E porquê "Judeu"? Nunca me tinha constado qualquer tradição de ter havido judeus (ou cristãos-novos) em Águeda.

Fiz papel de ignorante! "Judeu" é a designação popular dos aguedenses. Os lisboetas são alfacinhas? os portuenses - tripeiros? Pois os de Águeda são judeus.

Para quem não se lembre, ou não viva em Portugal, Águeda é uma cidadezinha de cerca de 15 mil habitantes, no concelho de Aveiro.

"Aprender até morrer" – diz-se em Portugal. Aprendi mais uma expressão da língua portuguesa.

Quando o senhor Humberto Almeida escreve no seu blogue "Águeda do Alto da Torre": "Judeu há 30 anos (sou natural de Recardães) ", isso não significa que há 30 anos, se converteu ao judaísmo. Não senhor. Significa que nasceu em Recardães, freguesia do concelho de Águeda, viveu em Moçambique, e há 30 anos que vive em Águeda. Por isso é "judeu".

Mais não souberam explicar os meus informadores, que me sugeriram que me dirigisse ao sacerdote católico local, que talvez me pudesse esclarecer a minha "estranha" ignorância.

O padre Júlio Grangeia, além de muito simpático, é uma pessoa muito activa na sua paróquia, e um pastor "freek" fervoroso da Internet, que utiliza intensamente para manter o contacto com as suas ovelhas.

Foi ele quem me explicou, o que eu depois pude esgravatar um pouco mais. A origem do apelido provém de uma festa popular, que se realiza há muitos séculos, na freguesia de Travassô, no sábado de Aleluia (sábado antes do Domingo de Páscoa). Como parte dessa celebração, faz-se uma representação teatral, a "Queima do Judas", em que participam os vizinhos de Águeda. Os de Travassô fazem de "pilatos", isto é romanos, e os de Águeda, de "judeus".

É uma festa meio-cristã, meio-pagã, com muitos risos e muitas paródias, no decorrer da qual a rapaziada solteira conta, uns sobre os outros, histórias da vida deles, que muitas vezes só eles conhecem. Quem estiver interessado, pode ler neste site http://www.travasso.net/?m=html&src=queimadojudas/queimadojudas  

Fiquei, pois, inteirado sobre a origem do apodo dos habitantes de Águeda.

Mas não acabaram aqui as surpresas.

Pouco tempo depois, um amigo mandou-me um link para um clip de vídeo, no site do Padre Júlio, onde ele fazia uma pequena preleção na sua igreja, a uma assembleia de crianças, no final da qual um coro cantava o "Shemá Yisrael", acompanhado por todos os assistentes.

E agora? Isto também não tem que ver com os judeus?

O amável sacerdote católico explicou-me uma vez mais, que nada tinha que ver com os "judeus" de Águeda.

Muito simplesmente, ele, Padre Júlio Grangeia, tinha ido em peregrinação à Terra Santa. Entre outras canções, ouviu cantar o "Shemá Yisrael" e gostou. Perguntou o que era. Explicaram-lhe o significado judaico da oração. Ele achou que também se enquadrava na religião dele. Então, como todos os meses realiza na igreja uma missa especial só para crianças, na qual participa também um coro infantil, decidiu ensinar-lhes essa profissão de fé no Deus único, que aprendeu dos judeus de Israel.

Nada de extraordinário, pois não?

Passados que são sete anos, desde o meu primeiro contacto com este sacerdote português, o clip do Padre Júlio ainda circula e causa admiração a judeus de todo o mundo. Continuo a recebe-lo de amigos surpreendidos, acompanhado de muitas perguntas compreensivas.

Podem ver o site oficial do Padre Júlio em http://www.padrejulio.net

O "Canal do Padre Júlio" no YouTube http://www.youtube.com/juliograngeia#g/u

E o clip do Shema Yisrael http://www.youtube.com/juliograngeia#p/search/0/hWDn4jDUYso

 

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