Judeus Frustrados

Por © Inacio Steinhardt

terça-feira, 16 de Maio de 2006

Há judeus por nascimento que se declaram perfeitamente ateus, e há aqueles que se convertem ao cristianismo, ao islamismo, e até mesmo ao budismo e a outras religiões místicas do Oriente.

No fundo, nunca deixam de ser judeus. Parece ser uma marca indelével, que nalgum ponto da vida do indivíduo acabará sempre por aparecer à flor da pele.

Há muitos anos atrás, conversando com Mário Soares acerca de líderes políticos daquele tempo, perguntei a opinião dele sobre Bruno Kreisky, chanceler da Áustria (1970-1983), outro dos seus "mon ami" socialistas. Soares respondeu sem hesitar: "Um judeu frustrado".

Lembrei-me dessa conversa mais tarde, quando o meu saudoso amigo e colega, Shlomó Shamgar, do "Yedioth Aharonot", me contou de uma conversa íntima e inesperada, que tinha tido com o chanceler austríaco, quando se encontrou com ele, no palácio governamental de Viena, para uma entrevista política. Foi encontrar Kreisky num momento de exame de consciência e com necessidade de conversar com outro judeu, antes da entrevista, sobre si e sobre a sua família.

Vem isto a propósito de uma história contada por Yossef Haim Yerushalmi, no seu livro "Freud's Moses", citado numa recessão de Robert S. Wistrich, no suplemento cultural do «Haaretz», na passada sexta-feira:

Um casal judeu da West End Avenue, Manhattan, liberal e ateísta até à medula, inscreveu o filho numa das melhores escolas, a "Trinity School". Um dia o filho perguntou ao pai se sabia o significado de "Trinity" (Trindade). O pai olhou muito sério para o filho, e respondeu-lhe categoricamente: "Deus há só Um – e nós não acreditamos n'Ele".

Entre os judeus famosos que se converteram ao cristianismo, temos o Cardeal -Arcebispo de Paris, Aaron (Jean Marie) Lustiger e o Padre Daniel Rufeisen, do convento Carmelita de Haifa, onde faleceu. Ambos se consideram, de uma maneira ou de outra, "judeus de religião cristã". Ou o meu homónimo, talvez primo afastado, Nicolau "Nico" Steinhardt, sacerdote da igreja ortodoxa na Roménia, também já falecido, cuja irmã vivia em Israel.

Ou ainda Leopold Weiss, nascido em Lvov, na Polónia, neto de um rabino da Bessarábia. Visitou a Palestina, onde tinha dois tios famosos, dos primeiros médicos do "Yeshuv" judeu". Teve grandes altercações com Chaim Weizman, e opôs-se peremptoriamente às ideias dos sionistas. Frustrado no seu judaísmo, converteu-se ao Islão, divorciou-se de sua mulher judia e voltou a casar na Arábia Saudita, com uma mulher local. Adoptou o nome de Muhammad Assaf (Assaf e Leopold significam ambos "leão"). Foi um dos arquitectos da independência do Paquistão e representante deste país na ONU. Está sepultado no cemitério muçulmano de Granada... onde terminou uma vida... de judeu frustrado.

Em Portugal, tivemos o exemplo de outro "judeu frustrado", Eliezer Kamenezky, o folclórico pregador naturista das décadas de 1910-20. Nascido na Rússia, em 1888, quando chegou a Lisboa, em 1917, não acreditava em Deus: “Do nada, nada se pode fazer”. Mas dizia-se profundo admirador de Jesus Cristo, embora não acreditasse que tivesse sido concebido sendo Maria virgem. “Foi um homem superior e lutou, como eu luto agora, com a ignorância das multidões”.

Na sua vida de judeu errante, andou por Inglaterra, pela Argentina e Brasil. Durante meses foi notícia na imprensa desses países. Foi parar a Beirute, no Líbano, e desceu até Jerusalém, apoiado a um bordão. Testemunhou o nascimento de algumas das primeiras povoações judaicas da Palestina de então. Escreveu em yiddish um dos seus primeiros textos de poesia em prosa, à luz do luar, deitado nas areias de um dos primeiros laranjais da hoje cidade de Rishon-le-Sion.

Pese o que Fernando Pessoa escreveu sobre ele, nos últimos anos da sua vida, terá tido um “retorno” à religião, pois escreveu no poema em prosa “Deus” : “... No Universo... tudo se movimenta e vibra, nada se perde tudo se transforma... Então o Ente que medita, vivendo neste grão de areia que flutua no mar revolto da eternidade, faz a pergunta eterna, a dolorosa e enigmática pergunta sobre como e onde nasce tudo quanto nos rodeia... Depois de muito meditar e não querendo enlouquecer, cheguei a esta conclusão: o que não tem princípio nem fim, não pode ser feito por ninguém... Para nos considerarmos dignos de ser seus filhos, temos de cumprir fiel e escrupulosamente, os seus divinos mandamentos e só, mas só assim, no seio de toda a Humanidade reinará a Fraternidade e a Paz.”

E é ainda longa a lista dos "judeus frustrados" que enchem a história do Mundo.

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