Os Donme de Salónica

By prepared by Inacio Steinhardt

Tuesday, December 26, 2006

Quem quer que se interesse pelos modernos movimentos de retorno dos "bnei anussim" ao judaísmo convencional conhece com certeza, o grupo "Saudades", conduzido na Internet pela sua extraordinária paladina, Rufina da Silva Mausenbaum.

Aqui há anos, apareceu a participar nesse fórum um senhor, que se assinava "Kemal Bei", fosse qual fosse o seu verdadeiro nome, que talvez até fosse esse mesmo, posto que era de origem turca, embora vivesse noutro país, já não me recordo qual.

Recordo-me apenas que foi recebido pela comunidade "Saudades" com uma certa dose de desconfiança, natural da parte de quem se encontra com frequência sujeito à propaganda de organizações ditas "messiânicas".

Kemal acabou por desaparecer, não sem tentar explicar que os seus propósitos eram honestos, que pertencia a um agrupamento religioso originalmente de Salónica, que entre si se designavam por "ma'aminim". E mais, que o apelido dos seus antepassados era Silva.  Ele considerava-se, portanto, de certa forma um "marrano", descendente não de judeus forçados a converter-se ao cristianismo, mas ao islamismo. E procurava averiguar das origens portuguesas da sua família, não só pelo apelido, como pelo facto conhecido de em Salónica terem existido três comunidades de judeus portugueses, desde o século XV, o da conversão forçada.

Kemal era pois um "donme", palavra que significa "renegado", afinal com a mesma intenção do castelhano "marrano", falso converso, que continuava a praticar secretamente o judaísmo.

Os "donme" resultaram do movimento místico criado por Sabbatai Sevi (Shabtai Tsvi), um falso messias, nascido em Esmirna, na Turquia, em 1626, que conquistou muitos milhares de adeptos em todo o mundo judaico da sua época, mas sobretudo em Salónica, que como se sabe era não só uma das mais importantes comunidades judaicas da época, como eram judeus cerca de metade da sua população, ao ponto do comércio e até o porto da cidade fecharam no Shabbat e nos feriados religiosos judaicos.  Salónica pertencia então ao Império Otomano.

Sem entrar em pormenores, que aqui não têm lugar, sobre a vida e a acção de Sabbatai Sevi, lembremos apenas que o principal conflito entre ele e o judaísmo institucionalizado, foi o facto de ele pretender que, uma vez que era chegado o messias prometido, ficava anulada a "Halahá", o código das leis judaicas, abrindo o caminho à assimilação.

Confundido pelas suas próprias convicções e pela inesperada reacção do povo judaico, Sabbatai Sevi acabou por se converter formalmente ao islamismo. Esse acto, por sua vez criou uma maior convicção ainda entre os seus seguidores. Uma parte separou-se para seguir outro suposto falso messias, Jacob Frank (os franquistaso), acabando por se converter ao cristianismo; outros, em Salónica, seguiram o exemplo do seu líder, convertendo-se também ao Islão, mas continuando a seguir, no segredo dos seus lares, uma parte do ritual judaico. Entre si, tal como os convertidos de 1497 ao cristianismo, em Portugal, se chamavam "anussim" (forçados), os convertidos ao islamismo, em Salónica, chamavam-se "ma'aminim" (crentes), porque continuavam a crer na lei de Moisés.

Quando, em 1913, o exército grego ocupou Salónica e expulsou da cidade os cidadãos turcos, os "donme" tentaram subtrair-se ao exílio, afirmando que não eram turcos, mas sim judeus forçados a converter-se ao Islão.

Não lhes valeu o subterfúgio, como não valeu, no sentido contrário, a alguns judeus holandeses, quando da invasão da Holanda pelas tropas de Hitler, alegar que não eram de raça judaica, mas sim cristãos portugueses convertidos ao judaísmo.

 

Segundo consta, ainda existem núcleos de "donme", praticantes de um certo judaísmo secreto, em alguns pontos da Turquia, e quiçá espalhados pelo mundo.

 

Alguns desses serão descendentes de membros das comunidades portuguesas de Salónica.

 

Como será o Kemal Bei, aliás Silva, a que acima me referi.

 

 

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