A visita do primo russo
Por © Inácio Steinhardt
sexta-feira, 30 de Junho de 2006
Yitshak Edelstein é um comerciante de 56 anos de idade, dono de uma loja de artigos para presentes, em Ramat Hasharon.
Há cerca de duas semanas recebeu um telefonema inesperado de Moscovo. Do outro lado da linha estava um judeu do «Habad» (movimento ortodoxo judaico) que lhe perguntou se ele seria por acaso parente de um tal Wolf Edelstein,
"Respondi-lhe que era meu tio, já falecido"
O homem de Moscovo pediu-lhe que lhe mandasse uma fotografia do tio e pormenores sobre o seu falecimento e lugar da sepultura. Explicou que tinham recebido a consulta de um homem chamado Vladimir, que talvez fosse seu parente.
Intrigado, Edelstein, mandou logo pelo correio o que lhe pediram,
No dia seguinte, novo telefonema, informando que Vladimir estava a caminho de Israel. E logo a seguir um telefonema do próprio Vladimir, pedindo-lhe que o esperasse no aeroporto, e se identificasse com um cartaz com os nomes "Vladimir e Issakof"
É o meu nome em russo, explicou. Issakof, como se sabe, é um patronímico, O outro continuou a não revelar o nome de família.
Na quinta-feira da semana passada encontraram-se efectivamente no aeroporto, Edelstein, Vladimir e mais quatro pessoas que o acompanhavam. Pediram-lhe que os acompanhasse directamente do aeroporto para o cemitério de Holon, onde o tio estava sepultado.
Junto à sepultura, o russo explicou que o homem que ali estava enterrado era seu pai, cujo paradeiro ele procurava há muitos anos, por todo o Mundo. Mas nunca tinha pensado em Israel.
Colocou um ramo de flores sobre a pedra tumular. Acendeu uma vela. E com uma caneta-marcador escreveu por baixo dos nomes em caracteres hebraicos e latinos do finado, o nome de seu pai em russo:
Sentou-se numa cadeira, que trazia um dos acompanhantes – que depois se averiguou ser um guarda-costas – e ficou mais alguns minutos a meditar, manifestamente comovido e mexendo os lábios, como se estivesse a rezar ou a dizer qualquer coisa para o túmulo.
Foi então que um funcionário da embaixada russa em Telavive, que os acompanhava, perguntou a Edelstein se sabia quem era aquele seu parente.
-Vladimir Jironovski, vice-presidente do Duma, chefe do Partido Liberal-Democrata, ultra-nacionalista, anti-bolchevista, e que não raro se pronuncia publicamente como anti-semita e admirador de Hitler.
Yossi Melman, o jornalista do diário «Haaretz" que assistiu ao acto e publicou hoje uma extensa notícia, comentou que, no passado, a imprensa russa pediu a Jironovski que confirmasse os boatos que corriam de ser ele filho de um judeu.
Ele sempre o negou e atribuiu os boatos a invenção dos jornalistas, sempre em busca de notícias sensacionais.
Vladimir Jironovski nasceu em 1946 no Kazakistão.
A mãe era uma viúva russa, não judia, mãe de 5 filhos, e com a idade de 34 anos casou com o judeu Wolf Edelstein.
Desse casamento nasceu Vladimir Wolfovitz. Quando tinha apenas 2 meses, Stalin expulsou da Rússia todos os polacos que ali se haviam refugiado durante a guerra.
Desde então, só uma vez tiveram contacto, quando, tendo ele dois anos, a mãe foi a Varsóvia encontrar-se com o marido.
Ainda trocaram algumas cartas depois disso, mas acabaram por perder o contacto.
Vladimir sabia, por sua mãe, que o pai era judeu.
Com a idade de 16 anos decidiu adoptar o nome de família, que usavam os seus irmãos, filhos do primeiro marido de sua mãe, que falecera, no ano em que ele nasceu, num desastre de automóvel.
Num prospecto publicado em Londres, pelo seu partido, está escrito que o pai de Vladimir Jironovski foi um advogado chamado Wolf Andreiwitz Jironovski.
A informação foi inventada e o pai nem foi advogado nem se chamava assim.
Há algum tempo ele começou, em completo sigilo,a procurar localizar o pai, até nos Estados Unidos. Em Israel não pensou.
Há três meses foi procurado por um jornalista russo, que lhe disse ter uma prenda de lhe dar no 60º. aniversário: "Parece-me que encontrei a sepultura do seu pai".
No princípio não queria acreditar.
Mas contactou com a embaixada do seu país em Israel. O cônsul conseguiu do Ministério do Interior uma certidão de óbito, encontrou o cemitério e localizou também o sobrinho.
Vladimir soube agora que o pai e um tio, o pai de Yitshak Edelstein, o primo que agora conheceu, emigraram juntos da Polónia para Israel.
O pai voltou a casar, mas não teve mais filhos.
Além do guarda-costas, Vladimir Jironovski trazia na sua comitiva outro membro da Duma e o seu próprio filho, Igor, jurista como ele e também deputado.
Perguntado se a revelação da sua origem judaica o prejudicaria na carreira política, Vladimir respondeu veemente que não, que importa se um homem é russo ou israelita, branco ou preto.
"Na Rússia precisamos de um homem que tenha inteligência judaica, coração russo, minuciosidade alemã, espírito de empreendimento americano e fantasia asiática. E sabe quem tem essas qualidades? Eu!"
O jornalista terminou o seu artigo no «Haaretz» com uma afirmação espontânea do político russo: "Digam ao povo judeu que, se eu for eleito presidente ou for membro do governo, não terão nenhuns problemas em Israel. Nem com as armas nucleares do Irão, nem com os terroristas do Hamas. Eu saberei tratar deles. Pois não está o meu sepultado aqui na vossa terra?"