O novo cenário político em Israel

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Inácio Steinhardt

quinta-feira, 10 de Novembro de 2005

 

Reversão é a palavra chave que resulta das eleições primárias de quarta-feira, 9 de Novembro de 2005, no Partido Trabalhista.

Shimon Peres, veterano e octogenário, foi vencido na votação para a chefia do partido (e candidato trabalhista para primeiro-ministro) pelo mais jovem, em idade e em experiência política, Amir Perez, actual secretário-geral da união sindical Histadruth.

Há anos, dizia um analista israelita que em Israel existem demasiados políticos e apenas um estadista – Shimon Peres.

Se aceitarmos esse axioma, temos, pois, que o estadista foi vencido pelo político.

Na complicada conjuntura do momento, e sobretudo porque a diferença de votos entre os dois candidatos foi apenas de 3%, o resultado anunciado esta madrugada, depois de finalizada a contagem, foi efectivamente uma reversão.

A partir de hoje a composição do cenário político de Israel vai mudar completamente.

Os profetas da ira começaram já ontem a pintar imagens tenebrosas do que vai acontecer agora em Israel. E, como não podia deixar de ser, definem esta votação como resultante do "demónio étnico": o "segundo Israel sefardita", de feição paternalista, contra a "elite ashkenazita" ideologicamente socialista.

Não se pode negar que esse fenómeno existe e que determinados círculos políticos o alimentam, na intenção de colher dele juros eleitorais.

Mas o "demónio" já não tem os contornos tão claros como pode parecer.

É certo que o Partido Trabalhista, o "Mapai", partido dos trabalhadores de Ben-Gurion, nasceu "em pecado", da hegemonia dos proletários ashkenazis, que entretanto se tornaram numa elite centrista, em detrimento e discriminação dos sefarditas e judeus orientais, que no mesmo tempo se tornaram na classe mais pobre e habita nas periferias menos beneficiadas.

À medida que a história evolui, porém, essa diferenciação vai perdendo a nitidez dos contornos. Dois elementos contribuem essencialmente para isso: os casamentos "mistos" entre as diversas etnias, e a igualdade de acesso à educação.

Esse esbatimento de fronteiras sociais tem sido lento mas é inequívoco se atendermos ao acesso acelerado de membros da comunidade supostamente menos favorecida à investigação e ao professorado académico, ao alto funcionalismo e à diplomacia e sobretudo às cimeiras políticas.

Um dos blocos políticos que mais soube capitalizar no "demónio étnico" foi o Licud. Hoje o partido revisionista, das direitas, é considerado como uma das "casas políticas" do dito "segundo Israel". A outra "casa política", apostando na tendência religiosa dessas camadas, é o partido ortodoxo sefardita "Shas".

A reversão deu-se com a ascensão de um israelita de origem marroquina, nascido numa cidade do "segundo Israel" no Negev, primeiro para chefiar a poderosa organização sindical, e hoje para líder do Partido Trabalhista.

Como vejo, neste momento, a transformação da cena política em Israel?

O primeiro passo será a dissolução da coligação governamental dos Trabalhistas com Ariel Sharon. Shimon Peres trabalhou de mãos dadas com Sharon, líder das direitas. Para Peres, apostado em levar a bom termo, o mais rapidamente possível, o conflito com os palestinianos e realizar o seu sonho de "um novo Médio Oriente", a justificação era simples: "Que me importa que ele seja das direitas, se está a realizar aquilo que nós, trabalhistas, pretendemos".

O governo, porém, através da sua política liberal e capitalista, é acusado de ter abandonado totalmente as classes menos protegidas e ter acelerado o aumento da pobreza. E Peres é acusado de o ter permitido em troca da realização dos seus projectos de paz.

Amir Perez anunciou claramente que o PT vai sair imediatamente da coligação. Perante a "revolta" dos opositores de Sharon, no Licud, isto significará a queda do governo de Sharon e a antecipação das eleições, que só deveriam ter lugar daqui a um ano, já para a próxima primavera.

O PT poderá beneficiar de um aumento das suas hostes à custa do Shas, mas, por sua vez, verá um grande número dos seus votantes a procurar uma saída para um partido menos à esquerda do que Perez, e mais colocado no centro liberal.

A única alternativa que se lhes apresenta actualmente é o Shinui, o bastião da classe média, cujo chefe, Yossef "Tommy" Lapid não inspira muita confiança, pelas suas posições de intolerância anti-religiosa.

À direita do leque político, a tendência à vista é a maior aproximação dos oponentes de Sharon no Licud com a extrema-direita, onde irão já encontrar também os nacional-religiosos, Mafdal, que de partido do centro liberal religioso, se tornaram no partido dos colonos na Cisjordânia.

Ariel Sharon ver-se-à a muito curto prazo na posição de líder político muito carismático, muito bem colocado nas sondagens, mas sem partido.

Muito se tem falado ultimamente na tendência de Sharon para formar um novo partido do centro, o que ele tem negado.

Mas agora poderá ser essa a sua única alternativa. A não ser que tanto ele como Shimon Peres, ambos octogenários, decidam retirar-se da política e escrever as suas memórias. Não o farão de vontade...

Um novo partido do centro, com Sharon à frente, com Peres ou não, poderá atrair os novos dissidentes do PT, algumas forças do Shinui, e provavelmente os seus seguidores na cisão do Licud, embora alguns destes apostem em se juntar ao partido que continuar a chamar-se Licud.

Ariel Sharon teria tido vontade de mudar o sistema eleitoral ainda antes do fim do seu mandato. Entre as várias ideias fala-se em voltar à eleição do primeiro-ministro por sufrágio directo e até, menos viável, um sistema presidencial.

Num sufrágio directo Ariel Sharon tem, neste momento, nítidas vantagens, e isso não obrigaria a tantas modificações no leque dos partidos.

Mas poderá já ser tarde.

O novo processo poderá promover para já uma maior atenção aos problemas económicos e sociais, em detrimento do avanço das negociações com os palestinianos.

Resta saber o que vai suceder à campanha que o novo Controlador do Estado está a desenvolver contra a corrupção política. Ele diz que Israel não é um país corrupto, mas que há muitos políticos corruptos, o que aliás é bastante visível. É o primeiro Controlador do Estado a exigir poderes para combater essa "praga".

Se o conseguir, são previsíveis mais reversões no cenário político...

 

E não posso deixar de me perguntar, a mim próprio, se Amir Perez, cuja subida fulgurante foi conseguida com a ajuda militante das comissões de trabalhadores das grandes empresas, se vai manter por muito tempo "no alto lugar a que subiu..."

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