Os Figos de Piteira

Por © Inácio Steinhardt

terça-feira, 17 de Setembro de 1996

Com algum atraso, motivado por falta de tempo, venho hoje comentar o artigo de Morais Fonseca, publicado na coluna "Bom Dia", do JN de 18/8/96,que li quando me encontrava de férias em Portugal. Acredito que o vosso jornalista teve a pouca sorte de ser objecto de uma sucessão de experiências desagradáveis, durante a sua estadia em Israel.

Não é essa a impresso da maioria dos portugueses (ou nacionais de outros países), que visitam ou vivem em Israel. Poder também ter sido qualquer acontecimento traumático, precedendo a sua chegada, ou no momento desta, que o tenha predisposto como observador demasiado crítico, obumbrado para as realidades de um país incontestavelmente mais democrático, pela índole congénita da sua população, do que muitos países europeus que conhecemos e que, no seu comportamento intelectual, social, cultural e tecnológico é justamente considerado plenamente integrado no mundo ocidental.

Quem estiver a pensar em visitar Israel, como sugere MF - e o mesmo será verdade em relação a qualquer outra região do Mundo, incluindo os países que MF aponta como exemplos: os Estados Unidos, o Canadá, a Alemanha, a França ou a Espanha - terá sim que se prevenir com a ideia de que irá encontrar pessoas com vivências diferentes e diferentes passados geo-históricos.

O turista que chega a Portugal, por exemplo, é sempre agradavelmente surpreendido pela rara afabilidade do português, pela sua hospitalidade, altruísmo e quase culto do estrangeiro, e até pelas expressões pueris do seu falar, quase deslocadas no mundo de hoje: o "obrigadinho",o "cafezinho", o "coitadinho".

O israelita, esse abre-se facilmente perante os estranhos, sejam eles compatriotas ou estrangeiros.  conversador e curioso até ao extremo. Não hesita em contar episódios da sua vida, em fazer perguntas e até em voluntarisar conselhos, que ninguém lhe pede.

Experimente-se tomar um taxi em Jerusalém ou em Telavive, e fazer a viagem em silêncio, como no Porto ou em Lisboa. Só se o taxista for mudo ... e em geral não são.

A hospitalidade do israelita não tem, porém, nada de servil. Classes ou hierarquias tem pouco significado para ele. Uma das razões para isso será talvez porque, não sendo Israel um país militarista, as circunstâncias forçaram cada cidadão a ser soldado. Até aos 50 anos, todos fazem um período

anual de serviço activo de reservas (o que explica o porte de armas que MF estranhou).

Durante esse período, não é raro o coronel ser um serralheiro, em cujo regimento serve também, como primeiro-sargento, um engenheiro, que, na vida civil, trabalha na mesma empresa. Isto cria não só intimidades e amizades, que perduram, mas elimina também o srvilismo paternalista. Não caracterizará este facto um certo grau de democracia?

Outro aspecto que não podemos ignorar é que o israelita, que encontramos na rua, nas repartições, no correio, no bar, na discoteca ou na recepção do hotel, quase sempre, se não for ele próprio, é filho ou neto de um sobrevivente dos campos de concentração e das câmaras de gás.

Desde os 18 anos de idade, já participaram em uma, duas, três ou mais guerras, e viram dezenas de vezes a morte perante os olhos. Acompanharam à sepultura camaradas, que dois ou três anos antes, se sentavam ao seu lado nos bancos do liceu. Não nos admiremos pois da sua forma directa de encarar a vida e da sua incapacidade total para encobrir ou ignorar realidades e fingir sentimentos, que caracterizam a sua maneira de falar.

Quem tiver tempo de os conhecer melhor, verificará que, debaixo daquela capa de duros, os israelitas são extremamente sensíveis e humanos. Essas crianças, forçadas a disparar sobre o inimigo, sofrem, interiormente mais do que se possa pensar. Recusando-se, embora, a confessar a si próprios, eles têm momentos de fraqueza, quando encaram os olhos do inimigo, e quantas vezes põem em perigo toda a coluna, por um momento de reflexão como esse.

Quanto maior o grau de instrução, maior a sensibilidade. Por isso tem que aprender a vencer o seu próprio intelecto. Por isso, aos filhos nascidos cá, lhes chamam "sabra" (figos de piteira). Como os figos de piteira, eles são cobertos de espinhos por fora e doces por dentro.

Em abono da verdade, a sociedade israelita sofreu um processo de desmotivação

e desmoralização nos últimos 33 anos. Para os jovens soldados, servir nos territórios ocupados e não na frente de batalha, perante soldados inimigos, foi trauma moral íntimo, que levará muitos anos a cicatrizar.

Evidentemente que, em Israel como em toda a parte, existe uma certa percentagem de gente mal educada, de jovens do tipo "Rambo", influenciados pela cultura da televisão e do cinema, de alcoólicos, drogados, etc. Mais do que no resto do Mundo ocidental?  Um observador imparcial concluirá facilmente que não.

Durante as minhas férias em Portugal, saindo da Brasileira do Chiado, um jovem, que transportava uma câmara de televisão, empurrou um amigo meu, octogenário. Não foi de propósito, evidentemente, mas, em vez de pedir desculpa, o jovem ainda ofendeu o meu amigo.

Em Carcavelos, fui abordado na rua por um homem que se me apresentou como "segurança" e me pediu um "empréstimo", que no dia seguinte me devolveria.

Tudo isto pode acontecer em qualquer parte do mundo e não podemos generalizar.

Por último, analisemos a situação extremamente desagradável que MF diz ter encontrado no aeroporto de Ben Gurion, à saída de Israel.

Rir-se-á o leitor se lhe revelar que eu próprio me senti muito perturbado, no aeroporto de Lisboa, porque, no check-in dos TAP NINGUÉM ME FEZ PERGUNTAS DE SEGURANÇA, NINGUÉM ABRIU AS MINHAS MALAS NA MINHA PRESENÇA. Não me senti seguro. Em Londres, por exemplo, foram muito mais rigorosos e eficientes do que em Telavive. E isso confere uma confiança muito maior ao passageiro.

Porque talvez MF não saiba como sucedem os atentados terroristas, não só em Israel, mas também nos Estados Unidos, no Japão, na Grã Bretanha, em França.

Talvez não saiba quantas dezenas, se não centenas, de atentados desse género já foram evitados pelas verificações de segurança.

Os responsáveis por esse serviço são treinados para ser atenciosos com os passageiros e para lhes explicar e pedir desculpa pelo incómodo.

Haverá excepções? Sem dúvida. Muito depende das pressões do tráfego no momento. Muito depende também da observação das reacções do passageiro.

Se este já vem com uma carga de observações negativas, durante a sua estadia, e reage de forma a causar suspeitas, sujeita-se a que o inquérito seja levado até às últimas consequências, PARA GARANTIR A SUA SEGURANA E A DOS OUTROS PASSAGEIROS.

Quatro horas de interrogatório e perda do voo é realmente escandaloso, exagerado e injustificado. Não conhecendo as circunstâncias exactas será difícil a qualquer pessoa julgar de quem foi a culpa.  À distância em tempo dos acontecimentos, só o próprio MF poder reflectir e julgar se o seu comportamento terá influenciado a atitude dos responsáveis pela segurança.

Tudo quanto escrevi não é mais do que uma tentativa para explicar factos que, naturalmente, poderão escapar ao visitante por curto período. Portugueses e israelitas visitam-se mutuamente em grande número e as relações entre os dois povos são excelentes.

  

 Inácio Steinhardt,    

jornalista e presidente da Liga de Amizade Israel-Portugal, Telavive

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