Ao correr da pena
por Inácio Steinhardt, em Israel
 
:: Ewa Data: Sábado, 05 de janeiro de 2008

Ewa P. é uma senhora polaca, com quem me correspondo, de vez em quando, por correio electrónico, desde que, há anos, em resposta a uma pergunta minha, num grupo de genealogia, se ofereceu muito gentilmente, e de forma espontânea, para obter uma informação na cidade onde nasceu o meu Pai.

Ewa tem uma preocupação na vida, que já se tornou quase numa obsessão: saber quem é.

Há muitos anos, quando era pequena, sua avó pediu-lhe que a acompanhasse num passeio e, sem a avisar previamente, levou ao antigo cemitério da cidade onde vivia a família.

Caminharam por entre as ruas estreitas do cemitério, sem dizer nada, até que Ewa não resistiu e perguntou à avó o motivo daquela estranha visita a um local tão inesperado

«Quis trazer-te aqui para ganhar coragem para te contar uma coisa, que ainda não contei a ninguém, nem sequer à tua Mãe. Sei que já não tenho muitos anos de vida, e não quero partir deste mundo, com este segredo na minha alma.»

Contou-lhe então que a mãe de Ewa, que sempre fora criada por ela e por seu falecido marido, como se fosse sua filha, na realidade não era sua filha. Durante a segunda Guerra Mundial, quando os alemães estavam a transportar todos os judeus para os campos da morte, uma vizinha judia veio a sua casa, às escondidas, com sua filha bebé nos braços, e pediu-lhe por tudo quanto tinha de mais sagrado, que salvasse a vida da criança. Ela, quando voltasse, viria buscá-la e lhe pagaria, como pudesse a sua boa acção.

Ela e o marido decidiram criar a criança como se fosse sua filha, para não despertar suspeitas. Mas a mãe da criança nunca mais voltou. Para a menina, ela e o marido sempre foram os pais, pois não conhecera outros. E nunca soube que era judia e tivera outros pais.

Para Ewa, foi um choque tremendo. Aquela mulher, que lhe revelou este segredo tão grande, por entre as campas do cemitério dos judeus, sempre fora para ela a verdadeira avô, a quem ela muito queria.

Pouco tempo depois, a avó faleceu. A mãe confirmou que não sabia de nada, e teve dificuldade em acreditar na história tão estranha. Na cidade há muito que não havia judeus, a quem fazer perguntas. Nunca soube sequer os nomes dos seus verdadeiros avós.

Ewa sentiu desde então qualquer coisa no sangue que a faz acreditar piedosamente na verdade da confissão da avó. 

Nunca mais teve sossego de alma, e não parou ainda de inquirir, de procurar informações sobre os acontecimentos daqueles anos terríveis do Holocausto. Alguém lhe disse que seu "avô" adoptivo participara na luta dos partisanos polacos pela liberdade do seu país. Nada mais.

Ela tem ainda dificuldade em se abrir com outras pessoas. Prefere perguntar, esclarecer-se, tirar as suas próprias conclusões, construir ela própria uma saga, sem nenhumas certezas.

Casou-se, tem filhos, e o peso do seu passado continua envolto em profunda neblina, mas não lhe dá descanso.

Por razões que desconheço, mas também não vêem ao caso, já mudou várias vezes de residência.

Em Varsóvia, frequentando lugares ligados ao judaísmo, teve outra surpresa, foi encontrar mais pessoas, polacos com ela, da sua geração, que contavam histórias como ela.

Quando visitei, no verão de 2001, a Galícia, região da Polónia onde vivia a família de meu Pai, surpreendi-me com o encontrar, por um lado, belas sinagogas antigas, reduzidas a ruínas, ao abandono, ou, pelo contrário, restauradas e transformadas em museus, escolas de arte e até repartições públicas. E ao mesmo tempo, testemunhos estilizados de uma presença judaica, que já não o era: restaurantes "de estilo judaico", com pratos tradicionais, "gefilte fish", "Cholent", "kishke", etc., que nem sequer eram cacher, evidentemente; muitos discos de canções em yiddish, e até "hazanut" cantados por cantores polacos, não judeus.

Em Varsóvia, na véspera do regresso a Israel, levaram-nos a um teatro yiddish, muito frequentado, segundo me disseram. Perguntei se os actores eram judeus? Claro que não, mas representavam na língua familiar dos meus antepassados e havia tradução sumultânea, para polaco e para inglês.

Com tudo isso, compreendi que os polacos da nova geração, que nasceram depois do Holocausto, têm dificuldade em formar uma opinião concreta perante o povo judaico. Têm dificuldade em conciliar a história da presença milenar dos judeus na Polónia, com o estigma de anti-semitas, que se apegou ao povo polaco, e com a presença agora dos turistas judeus, muitos dos quais nasceram ali.

Durante a visita ao teatro judeu, em Varsóvia, perguntei ao nosso solícito e simpático guia local, se ainda havia muitos judeus na Polónia. «Os que há vieram na sua maioria nos últimos anos, sobretudo para fazer negócios. Veja Varsóvia, cidade que foi quase totalmente destruída pelos alemães, como está agora em reconstrução. Muitos destes edifícios com tantos andares são prédios de apartamentos, construídos por empreiteiros israelitas. E muitos desses apartamentos são comprados por cidadãos de Israel, para alugar, como investimento.»

«Por outro lado, fala-se de um número de polacos, que se alegam de origens judaicas. Mas, na opinião de muitos, trata-se de oportunistas, que pensam poder herdar um dia alguns dos bens deixados pelos judeus.»

Pouco depois, vim a saber que não era tanto a sim. Tive ocasião de ouvir um padre de Varsóvia, com uma história semelhante a Ewa. Romuald Waskinel já exercia o sacerdócio católico, há 12 anos, quando a mulher que ele pensava ser sua mãe, no leito de morte, lhe confessou que ele lhe fora entregue por uma mulher judia, que lhe pediu que, se acreditva no outro judeu, que fora Jesus, que salvasse o seu filho.

Dividido entre a sua devoção religiosa, e a nova consciência da origem judaica, o homem sofre, e até chorou. Na sua casa, num pequeno altar improvisado, ao lado da cruz, ele tem agora uma menorah. Mas continua cristão devoto. «Já não sei quem sou» - disse ele.

O mesmo me escreveu Ewa. «Pode parecer a alguns que não tem importância. Mas eu quero saber quem sou, para transmitir aos meus filhos, para que eles saibam também quem são.»

Com as pessoas que encontrou em Varsóvia, em condições semelhantes, criou um grupo de acção, a que decidiram chamar, estranhamente ou talvez não, "Cholent"!

Fez parte de uma representação do seu grupo que veio a Israel, visitaram o "Yad Vashem", e outros organismos, tentaram obter informações sobre os seus verdadeiros pais e os seus pais adoptivos. Existem organizações que conseguiram, apesar de tudo, reunir testemunhos e ajudar algumas dessas pessoas a localizar-se na história do Holocausto.

Ewa não conseguiu. Não nos encontrámos, porque ela estava com uma agenda tão preenchida, que nem sequer me telefonou. Ou talvez porque eu já tenha feito perguntas a mais, a que ela não quer responder...

A sua organização "Cholent" já tem ramificações em diversos pontos da Polónia.

Ewa vive agora em Cracóvia, onde existe uma pequena comunidade judaica, sobretudo de recém-chegados, e de activistas americanos do Chabad. Funciona na velha sinagoga do famoso rabino Moshe Isserles, o Rama.

A minha amiga Ewa pertence à direcção do "Cholent" local, e num dos seus últimos emails contou-me que continua a estudar judaísmo, agora com o rabino de Varsóvia, chefe espiritual da sinagoga do Rama, o meu querido amigo Rabino Boaz Pash, que foi durante alguns anos, rabino da Comunidade Israelita de Lisboa.

O Mundo está cada vez mais pequeno.

 


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"Foi como ter nascido segunda vez"-

Padre Romuald Waskinel

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