Ao correr da pena
por Inácio Steinhardt, em Israel
 
:: O direito histórico, mas de quem? Data: Sexta-feira, 02 de janeiro de 2009

: "Mas com que direito vieram os judeus da Europa arrancar as pedras do chão da Palestina, secar os pântanos e plantar laranjas, nas terras dos árabes?"

Ao tentar responder a esta pergunta, de acordo com a minha lógica e a minha consciência, sei de antemão que vou irritar muitos meus amigos judeus e israelitas.

Paciência, é um preço que temos que pagar se queremos ser honestos com nós próprios.

Facto: os dois povos, judeu e árabe, reclamam-se do direito exclusivo à soberania sobre o território entre o rio Jordão e o Mar Mediterrâneo. Os mais comedidos, de um e do outro lado, dizem que o direito não é uma obrigação, e portanto podem dar mão de parte desse direito, em favor de um compromisso de paz e de partilha com a outra parte. Para colocarmos a questão nas devidas proporções, consideremos que se trata, no total, de um território de apenas cerca de 40 mil quilómetros quadrados, ou seja metade da superfície de Portugal. No total, e sem fronteiras determinadas, pois, ao longo da história, elas nunca pararam de se deslocar...

Os argumentos, que uns e outros apresentam, situam-se normalmente em duas vertentes: direito histórico e direito religioso.

Alegam os judeus que foi neste território que se formou e consolidou o Povo Judaico, há cerca de 3 500 anos, e que desde então até à destruição do Segundo Templo de Jerusalém, pelos Romanos, em 70 d.C., sempre tiveram a soberania sobre o território, com excepção apenas do curto período do Cativeiro da Babilónia,

Uma soberania ininterrupta de mais de 1 500 anos, até serem forçados a uma Diáspora que durou cerca de 2 000 anos.

Respondem os árabes que eles vivem nesta terra ininterruptamente há 1 400 anos e ninguém pode vir agora reclamar direitos que cessaram há dois milénios.

O argumento histórico é, em ambos os casos, muito frágil e discutível.

Não existe no globo nenhuma parcela de terra que não tenha sido teatro de sucessivas conquistas e reconquistas por diferentes povos, povos que chegam e povos que são absorvidos ou expulsos..

De isso somos testemunhas, em menor grau, ainda nos nossos dias. Na Antiguidade, porém, quando o conceito de estado-nação ainda não existia, isso é ainda mais evidente.

Quando Yoshua Ben Nun conduziu o povo israelita através do Rio  Jordão, eles tiveram que conquistar a terra às diversas tribos canaanitas que a habitavam, e que, parte delas, continuaram a viver a seu lado, sob soberania israelita.

Se compararmos com a história de Portugal e de toda a Península Ibérica, e já não não me refiro aos primeiros povos que sucessivamente ocuparam e absorveram ou expulsaram os anteriores habitantes, mas que sucederia agora se os árabes reclamassem o seu direito histórico ao Andaluz?

Os árabes, por seu lado, quando os primeiros judeus começaram a regressar à Palestina, no século XIX, apresentaram o argumento de que já habitavam o território há 1400 anos.         É verdade que a invasão árabe da Palestina se deu no século VII. Nessa altura todos os habitantes da Palestina, de diferentes etnias, incluindo descendentes dos antigos canaanitas e um pequeno número de judeus, foram convertidos pela força ao Islão. A partir de então passaram a ser chamados todos "árabes". Todos eles são hoje palestinianos. (Quem sabe se alguns deles não terão ascendentes judeus?).

Vamos continuar a conversar no próximo post?

 


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