A mesma rua, lugares diferentes

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Yaakov Raz

quinta-feira, 10 de Novembro de 2005

A força

Neste tempo, a força fala e já não se preocupa em justificar-se. Está aqui, e faz o que faz, como se assim fosse desde os tempos imemoriais da Criação, como um poder da Natureza, um tufão, por exemplo, devastador, mas compreensível.

 

Neste tempo, já não é preciso ver o outro. Dizem-nos: agora não há tempo. Porque "ele", o outro, não nos dá tempo para que o vejamos, para que o escutemos. Ele, o outro, sempre ele, é que nos trouxe para a situação de utilizarmos a força. Pois foi ele que começou. Nós só reagimos. Talvez um dia, quando ele compreender [à força e pela força, porque ele só compreende a força], talvez então falemos uns com os outros. Se houver então com quem falar.

 

Entretanto não se pode ver o outro nem escuta-lo. Tem sempre um nome genérico ' judeu, árabe, ortodoxo, colono, laico, "tsfoni" [habitante da zona exclusiva do norte de Telavive], russo..'.

 

O outro não pode ter uma história, nem nome próprio, nem passado, planos, brincadeiras, sonhos, dor, medos, amores, aflições. Quando é que alguma vez imaginámos o outro a cantar uma canção de embalar aos seus filhos, a tocar guitarra, a dizer parvoíces aos amigos, a ir ao cinema ou a divertir-se com um livro de ficção científica? Ele é sempre maldoso, intriguista, satânico, criminoso; levanta-se sempre da cama com a maldade no sangue, efervescente e pronto para destruir. Contra tanta maldade, não há remédio senão atacar com força.

 

 

Isto dizemos nós. Isto mesmo, exactamente, dizem "eles" também.

Porque se escutássemos a história dele, os amores e os receios da vida dele, se conhecessemos os seis planos e os seus sonhos, exactamente e com atenção, talvez, abrenuncio, descobríssemos que ele se parece tanto connosco, como um reflexo perfeito, e talvez não pudéssemos bater-lhe com força suficientemente efectiva. Talvez parássemos para beber com ele um café, abrenuncio, talvez mesmo para um abraço.

Mas não é possível que ele seja assim. Por isso é necessário bater, com força.

É assim que nós fazemos. É assim, exactamente, que "eles" fazem também.

A força bate com força. É forte, rápida. Age, mata, fere, ofende, destrui, perverte. Não tem misericórdia. Evidentemente que não tem dó. Pois não há tempo para um espaço de compaixão. A compaixão parece absurda, amaricada, invertebrada, traiçoeira, deprimente, humilhante, submetida,  derrotista. Os braços da força são palavras duras, tanques ou vírus.  Bruscos, rápidos, significativos. Como um golpe de Karate, sem hesitações.

É assim que nós fazemos. É exactamente assim que "eles" fazem também.

Imagem de espelho. Um espelho frente a outro, imagens que se reflectem sem fim.

A história

A força extrai a sua força da memória, da história. Todo o homem tem um nome, um passado, uma crónica. Cada povo cria para si um nome, uma crónica. Chama-se a isso a História. A força mística da História reside no exclusivismo que ela exige para si própria. Ela e mais nada. E não há, não pode haver, outra história. É isto, e isto não pode ser mais nada. Qualquer outra história é uma ameaça para a existência desta história, da nossa. Defendamo-la, mesmo por meio da guerra.

As guerras não sucedem por causa de espaço vital; pois se vivesse aqui gente "nossa", acharíamos o espaço vital necessário. As guerras rebentam por causa do argumento mitológico da exclusividade da "nossa" história, por causa da percepção messiânica de que não existe mais nenhuma história, além desta história, deste passado, desta memória. As guerras rebentam por causa da exclusividade tirânica, inebriante, que se afirma de origem divina, que exige eternidade cósmica, sem recurso. As guerras rebentam por causa de símbolos, que exigem determinação, que acumulam um potencial paralisante, ensurdecedor. Até ao ponto em que é impossível ouvir. E eles, os símbolos, tornam-se a essência da nossa vida, o rochedo do nosso ser, o significado da nossa existência, a força da nossa sobrevivência, a fonte da nossa violência.

As guerras acontecem por causa da consciência de exclusividade e da separação. Elas são a luta entre histórias que pretendem, cada qual, ser ela a verdadeira e que não pode haver outra. As guerras acontecem por causa da força inebriante das palavras e do fascínio que trazem às nossas vidas. As palavras dão forma, sem coração, às nossas alegrias, às nossas tristezas, aos nossos medos e às nossas esperanças, à nossa própria realidade. As palavras geram realidades e transportam exércitos. Nós lutamos contra "quadrilhas", eles lutam contra "ocupantes". Nós tivemos "motins". Eles tiveram "revolta". Nós tivemos a "libertação", eles tiveram a "catástrofe". Nós defendemos a casa. Eles defendem a casa. Nós empurramos os maus. Eles revoltam-se contra os maus. Eles merecem a morte. Nós merecemos a morte.

Nesta consciência de exclusividade, toda a história que seja diferente da minha história representa mesmo uma ameaça para a minha existência. Por isso temos que nos antecipar e destrui-la. É preciso silenciar essa história. É preciso destrui-la, a ela e àqueles que a contam.

A força é o outro lado do medo, da ameaça. Armado com a força do mito, aparentemente único, com a força da determinação cósmica, da História sobre a qual não há dúvidas, armado com palavras simples, com um só significado, nas quais não há hesitação, a força espezinha a casa do outro, o seu coração, os seus filhos, os seus sonhos, e destrui; e não há nela arrependimento; só justificações ['segurança', 'libertação]. E depois, quando já está ébrio de si próprio, já não necessita de justificações.  Pois ele tem que defender o que alcançou. Pela força.

É assim que nós fazemos. É assim, exactamente, que "eles" fazem.

Acontece, porém, que, por vezes, a história se encontra de-repente assombrada, perante a imaginação e não acredita. Pois não é possível. A história encontra-se perante o adversário e esfrega os olhos. Não acredita na outra história. Não acredita mesmo que haja outra. Tem medo dela. Também lá, na outra história, há medo, esperança e luto, e planos, e crianças e canções de embalar, e tristeza infinita. De quem é ela, essa outra história?

Aparentemente diferente, mas tão parecida. Um reflexo exacto.

O lugar

Um lugar torna-se lugar, quando existe alguém que conta sobre ele.

Um lugar passa a se-lo, quando existe no coração desse alguém, como história, como relação.

Pedras, casas, ruas, lagos, que não tenham quem conte alguma coisa sobre eles, não são lugares. São pedras, casas, ruas, lagos, e muitas vezes nem isso, se não houver quem lhes chame "pedras", "casas", "ruas".

Eu vejo uma rua. Tu vês uma rua. Eu conto a história dessa rua. Tu contas a história dessa rua. E temos, por obra de prodígio, dois lugares diferentes. Até o nome da rua é diferente, na minha língua e na tua.

Se fosse possível perguntar à rua, ela contaria a minha história. Como atravessei a rua com um certo receio, como comprei rebuçados na mercearia, como receei os tiros, como gostei do aroma do café, como passeou por aqui o meu avô, passando as contas de um rosário de contas atrás das costas, e apontou com a mão o outro lado da rua, como se fosse além-mar, e contou coisas estranhas sobre as pessoas que lá moravam. Como aprendi aqui a minha língua da boca de vendedores ambulantes, de caixeiros, de homens sentados nos cantos da rua, bebendo café, de rabinos, de amigos, de carregadores.

Se fosse possível perguntar à rua, ela contaria a tua história, como atravessaste a rua com um certo receio, como lambias o mel na loja dos doces, como festejaste no pátio do santuário ao som dos instrumentos de corda, como tinhas medo das orações, como te apontaram para a minha casa e te contaram coisas estranhas sobre mim e sobre a minha família, como aprendeste a tua língua dos vendedores ambulantes, dos carregadores, dos homens sentados nos cantos, a fumar a "narguila", dos livros de histórias do Haj, dos amigos.

A mesma rua, lugares diferentes.

Lugar é a relação entre uma pessoa e as pedras e as ruas e os jardins e as rochas e o agregado de todas as histórias, que contaram os seus antepassados e a sua família e os seus amigos, e da história que ele contou apenas a si próprio, e ninguém mais a sabe, e cada lugar carrega em si as histórias, a cultura, os odores e as vistas das pessoas que contam sobre ele. E ele também tem uma face oculta, o lugar, que não revela a ninguém, senão por graça especial.

Por isso há de haver sempre duas pessoas que venham à mesma colina e construam para si lugares diferentes, sem ligação entre si.

Não há?

Os lugares

Em vez de decidir qual a que está certa, há que ver honestamente: todas as histórias são certas. Quando desaparecer a paixão por uma verdade única, violenta, imposta, exclusivista, poderá ver-se o mundo na variedade dos seus tons, e escutar o outro lugar, que é aqui neste mesmo lugar. E então o outro já não ameaça.

Uma só colina. Lugares diferentes. Histórias diferentes, antagónicas por vezes. As sentenças e as leis não são válidas aqui. Os argumentos das histórias são alegres ou duros, para o contador ou para o ouvinte. Exílio, guerras, expulsão, matança, piedade, beleza, horas de pôr-do-sol, chuva, oliveiras, o cheiro da terra, pedra da mó, brinquedo.

A natureza do mundo é que numa mesma colina, um homem, uma mulher e seus filhos, e outro homem, e sua mulher e seus filhos, construam as suas casas e contem as suas histórias diferentes.

Um homem determina um lugar, e o lugar determina para quem o habita a forma como irá construir a sua casa, e de que materiais a irá construir, o corte das suas roupas e os tecidos de que as irá costurar, as histórias que irá contar aos seus filhos, as suas orações, as danças que irá dançar aos seus deuses, as máscaras que irá talhar, as lendas que irá engendrar sobre os seus antepassados, os versos que irá compor para a sua amada, os gestos do seu corpo, as cores da sua casa, dos seus fatos e as suas comidas, os seus condimentos, os pratos e os talheres, os quadros, os filmes de cinema, a sua forma de negociar, a sua maneira de fazer as pazes, a linguagem da sua conversa, os remédios com que cura as suas doenças, as suas maneiras de fazer a corte e de casamento, os boicotes, os funerais, os seus instrumentos musicais e o eco que eles produzem na sua cabeça, os seus pensamentos, a forma de fazer a guerra e as suas orações de paz. O esconderijo dos pensamentos. E as memórias do lugar.

E o outro lado, ouve, mas não compreende. Pois não é o mesmo "lugar"!

Mas o que nós pretendemos dizer é: sim, a natureza do mundo é haver nele histórias diferentes e opostas, na mesma colina. A natureza do mundo é ele criar um lugar consoante o tempo, as circunstâncias e a origem do homem e consoante a história pessoal e colectiva do contador.

Por isso deve ser a natureza do mundo que as diversas histórias coexistam, umas ao lado das outras, e que uma não seja melhor, definitiva, superior, mais bela, mais verdadeira do que a outra. Precisamente a construção das histórias pode fazer com que se encontrem os inimigos, que pretendem ter direitos de propriedade sobre o lugar, num encontro doloroso de imaginação. Os meus pesadelos são, por vezes, os teus sonhos. Os meus sonhos - os teus pesadelos.

Nós pretendemos dizer: Pode-se contar, pode-se escutar as histórias diferentes, sem que haja nelas lemas, amotinações, presunções, rejeições, fingimentos, ignorância, ameaça, ilusão de exclusividade.

É difícil de suportar. Como se não houvesse solução para a contradição. Só que pode ser talvez que aí mesmo esteja oculta uma fonte de graça, a lição que o lugar dá aos que contam as suas histórias: vivam uns com os outros com as vossas histórias diferentes. Escutem o outro lugar que está exactamente neste mesmo lugar. Não há solução para a contradição, senão no conhecimento de que todos estão aqui.

Nós pretendemos dizer: na faculdade infinita de escutar, que existe em todos nós, pode-se dar mais força aos contadores das histórias, e tornar as comunidades, que vivem no lugar, mais ricas, mais sólidas, mais diversas, mais nobres.

Pode ver-se a graça: uma colina é uma pluralidade de lugares, abre-se como um útero para todos os lugares que contem.

traduzido da revista "Haim Aherim", de 14/5/2003

devidamente autorizado pelo autor, professor Yaakov Raz

da Universidade de Tel Aviv

ooooooooooooo

em minha opinião, este artigo deveria ser traduzido e distribuido no maior número de línguas possível, onde quer que existam problemas semelhantes

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