A evacuação dos colonatos israelitas na Faixa de Gaza

Por © Inácio Steinhardt

segunda-feira, 22 de Agosto de 2005

Está feita a evacuação dos colonatos israelitas na Faixa de Gaza.

Sem dúvida, uma data e um acontecimento do maior relevo para os anais da história do conflito israelo-árabe.

Há quem o considere um grave erro histórico e político, pelo qual os israelitas ainda irão pagar um preço incomensurável. Na realidade, a acreditar nos profetas da ira, poderá mesmo colocar em perigo a própria sobrevivência do Estado de Israel.

E há quem pense que é um passo que se impõe, e quanto mais cedo melhor, não só no aspecto humano – primeiro passo para terminar uma ocupação condenável à luz do direito internacional e humano – mas também para salvaguardar essa mesma existência – que os outros vêem ameaçada – do Estado de Israel, como nação democrática, de maioria judaica.

Conto-me no número destes últimos.

Como monitor de um fórum de amigos, ex-membros da Associação "Hehaver", de Lisboa, tenho-me esforçado para que o mesmo não seja utilizado para propaganda das ideias políticas de cada um.

Contrariamente a este "site", em que tenciono publicar algumas das minhas reflexões, ensaios e historietas.

 

Há dias, porém, quando eu as imagens da evacuação ainda estavam demasiado frescas no meu espírito, um dos nossos amigos decidiu uma vez mais utilizar o fórum para expòr a sua visão do problema.

Porque sou realmente amigo dele, entendi que desta vez não podia calar, e senti necessidade de dar a conhecer aos restantes amigos a angústia que aquelas cenas me causaram.

Queixava-se o ******* de que membros do governo, do exército e da imprensa haviam caluniado os "defensores" de Kfar Darom, reunidos no telhado da sinagoga local, acusando-os de terem lançado ácido para cima dos polícias, quando afinal se tratava apenas de tinta e diluente.

Insurgia-se também por alguns desses polícias terem entrado histericamente na secção das senhoras, na sinagoga, e despido rapidamente as roupas. (Porque pensavam qu tinham sido atacados com ácido.

 

Eis o que lhe respondi:

 

*******, meu querido amigo,

 

Como certamente já deves ter notado, não tenho por costume distribuir pela Internet, nem sequer aos meus amigos, propaganda das minhas ideias políticas. Talvez até te tenhas ofendido quando, algumas vezes, no passado, te pedi e a alguns outros amigos, para não se servirem para isso do fórum "Hehaver",que se destina tão somente a servir de ponto de encontro e de boas recordações para os antigos membros da Comunidade de Lisboa, espalhados pelo mundo.

E tal como não costumo distribuir propaganda política, ou propaganda de quaisquer outras ideias, também me abstenho de responder a quem me envia material dessa natureza.

Desta vez sinto-me obrigado a afastar-me do caminho que escolhi seguir.

Não penso que queiras distribuir aos membros da tua lista a minha resposta e os pensamentos do meu coração. Mas, como mandaste a tua mensagem a todos os membros do nosso fórum, quero que a eles cheguem sim as minhas palavras.

Desta vez eu sou obrigado a responder, porque, como judeu que me orgulho de ser, possuído de uma fé muito firme em Deus, daqueles judeus a que provavelmente, no teu ponto de vista, classificas de "profano", sinto uma dor profunda pelos acontecimentos chocantes de profanação do Nome de Deus, a que assistimos nestes dias.

 

O que tu nos escreveste, é afinal, se resumirmos tudo em duas frases, que o governo, o exército, a polícia e os meios de comunicação nos mentiram. Calúnia sanguinária, difamação. Os insubordinados, em cima do telhado da sinagoga de Kfar Darom, não deitaram ácido para cima dos polícias, mas apenas tinta e material diluente (terebintina).

Será que devemos compreender, pelo que nos disseste, que deitar ácido é proibido, mas insurgir-se como selvagens contra os agentes da ordem que executavam as decisões do Governo e do Knesset, deitar para cima dos polícias tinta e terebintina (sabendo nós todos o que isso faz aos olhos e ao corpo), isso sim é permitido pela Halahah? Quererás ilustrar os nossos conhecimentos e indicar-nos a fonte dessa permissão?

Será que os tais "insubordinados" avisaram a tempo os polícias, que não tinham que se preocupar, ou de se despir o mais rapidamente possível, porque o produto não era ácido?

 

Milhares de judeus foram arrancados das suas casas e das suas terras de cultivo, das suas comunidades e de uma vida social exemplar, de uma qualidade de vida que eles criaram com o trabalho das suas mãos e com uma grande sensibilidade. Bastou a notícia de que isso iria acontecer para despertar em mim empatia e dor. Pois se até uma família que muda de um país para viver noutro, de uma cidade para outra, sofre sempre um choque muito duro, tal como as suas crianças. Tanto mais os evacuados das colónias judaicas na Faixa de Gaza. Tanto mais porque eles foram estabelecer-se lá por encorajamento dos líderes políticos de Israel, das direitas e das esquerdas, com justificações e promessas, facilmente captáveis na lógica dos colonos.

Estou convencido que não havia nenhum cidadão de Israel que não tenha participado dessa empatia.

Tratando-se, na sua maioria, de pessoas religiosas, supostamente tementes a Deus, eu esperava que aproveitassem a oportunidade tão crítica, para transmitir a todo o povo judaico, e sobretudo aos filhos deles e aos filhos de todo o povo de Israel, um exemplo da grandeza dos valores e da moral da Torah. Esperava eu que os não-crentes entre nós aprendessem deles em que é que a nossa religião é diferente das outras. Que encobrissem, até onde fosse possível, a sua dor e achassem o consolo na sua fé.

Em vez disso apresentaram perante nós um aproveitamento desleal, para não dizer outra coisa, de uma terrível tribulação humana, digna de toda a compreensão, para lutarem por convicções políticas. Serviram-se de armas de destruição psicológica, cujos efeitos os jovens soldados judeus, homens e mulheres, vão sofrer por muito tempo nas suas vidas.

Posso compreender as posições políticas de quem defende uma colonização judaica e o domínio do Estado de Israel em "Eretz Israel inteira". Também eu o desejaria, se isso fosse moral e humanamente possível. Mas não estou convencido que a realidade permita tal coisa. Não estou convencido de que ocupação e sujeição de outro povo sejam compatíveis, quer com os valores da Torah, quer com os interesses do Povo de Israel.

Mas respeito as ideias daqueles que pensam diferentemente e espero dos outros que respeitem as minhas ideias.

O Governo de Israel, e o Parlamento de Israel, decidiram que o bem do Estado exige que não assumamos a responsabilidade sobre as vidas de outro povo, que não sacrifiquemos mais as vidas dos nossos soldados para defender os que vivem em partes da Terra que não pertencem ao Estado, e que nos devemos defender do perigo de nos tornarmos num estado bi-nacional, com maioria não judaica.

Os colonos foram, por isso, as vítimas dessa realidade.

Compete-nos abraçar os evacuados, acompanha-los na sua dor, e ajuda-los até ao limite das nossas possibilidades a ultrapassar o trauma mais facilmente e a reintegrar-se dentro das nossas fronteiras...

Compete aos colonos aceitar a decisão das autoridades e mobilizar toda a força e o poder, que a religião e a fé lhes concedem, mais do que a ninguém, e a dar-nos o exemplo. Foi isso que fez grande parte dos colonos. Seja dito em seu abono.

Mas outros, e com eles jovens marginais que vieram supostamente defende-los, transmitiram-nos um quadro vergonhoso que, na minha opinião, é contrário a todos os valores da Torah. Atribuir essas acções à vontade de Deus, o mesmo Deus, criador do Mundo, a Quem sirvo, com todo o meu coração, com toda a minha alma e com todas as minhas possibilidades, não é, a meu ver, uma difamação, é uma profanação do Nome divino.

Como se tivesse sido o Criador a querer que se opusessem fisicamente aos polícias e aos soldados. Ou terão, no ardor da luta, tapado os ouvidos para a palavra de Deus? Como se, para além da violência física, Deus exigisse deles que infligissem a esses soldados uma deformidade mental. E serviram-se o mais cruelmente possível dos seus filhos, e sobretudo das suas filhas, para fazerem frente aos jovens soldados e polícias.

Ai dos olhos que viram o que eles fizeram. Ai dos ouvidos que ouviram o que eles disseram. A modéstia e a virtude da mulher judia foram esquecidos. Às crianças ensinaram a odiar, em vez de amar.

É a isso que eu chamo profanação do Nome divino.

Eles não só foram separados da Faixa de Gaza, separaram-se pela sua atitude da maioria do Povo, que ainda acredita nos valores que eles supostamente representam. E isso causa-me uma grande dor. Tenho que mobilizar todas as forças da minha alma, e toda a minha fé, para não me deixar arrastar para a separação que essas pessoas nos impõem.

 

Quem protegeu, sim, a honra do Judaísmo, nesta ocasião, quem merece todo o respeito e os louvores, são os soldados do nosso Exército de Defesa de Israel, e os guardas da nossa Polícia de Israel, em todas as suas patentes. São esses soldados que fortalecem em nós a crença na eternidade de Israel.

 

É devido que aqueles que fracassaram e pecaram perante eles, lhes peçam agora desculpa e perdão, antes de pedirem perdão e expiação ao Tribunal Celeste.

 

Com o meu apreço pessoal por ti, como amigo

 

Inácio Steinhardt

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