Prisioneiros em Damasco
Por © Inácio Steinhardt
quinta-feira, 31 de Agosto de 2000
Com a perspectiva da renovação das negociações de paz entre Israel e a Síria, volta âs paragonas a questão da soberania sobre o planalto do Golan.
Na época das guerras electrónicas e dos mísseis teleguiados de alcance cada vez mais longo, parece desconcertante a importància que Sírios e Israelitas atribuem a uma nesga de terra.
Quem percorre a antiga «linha das patrulhas» e observa lá de cima as povoações israelitas da encosta e do vale, não pode deixar de pensar que, a quem se encontre no planalto, bastará empurrar algumas das enormes rochas, para provocar lá em baixo um montão de ruínas.
Para a Iris e o Lazlo, um estranho e aparentemente díspar casal israelita, o Golan traz recordações inapagáveis de uma longa aventura, bem pouco própria dos seus temperamentos.
Lazlo, como o seu nome revela, nasceu na Hungria, mais propriamente em Budapeste. A sua vida foi uma sucessão de aventuras, em todas as quais ele desempenhou um papel forçado de anti-heroi.
Depois de libertado do campo de concentração de Bergen-Belzen, e de ter tentado em vão refazer a vida na sua cidade natal, Lazlo emigrou para Israel.
Instalou-se na cidade costeira de Nataniah.
Quando todos os jovens imigrantes da sua idade estavam a ser mobilizados para o exército, o seu nome, sem explicação aparente foi misteriosamente esquecido e ele pode dedicar-se inteiramente à conclusão dos seus estudos de engenharia, agora no Technion – Instituto de Tecnologia de Haifa.
Um dia, algures em 1964, bateu-lhe â porta um amigo de infância de Budapeste, que então vivia na Bélgica, e tinha vindo em viagem turística a Israel, com sua mulher.
No dia seguinte o casal amigo seguia para Tiberiades, junto ao lago do mesmo nome na Galileia, e insistiram com Lazlo para que largasse por um dia as suas fórmulas matemáticas para os acompanhar no passeio.
A pedido dos amigos, e para tornar a companhia mais completa, deveria trazer consigo a namorada.
Lazlo não tinha então namorada certa. Pensando um pouco, lembrou-se que pouco tempo antes se tinha mudado para o terceiro andar do prédio em que ele vivia, um médico romeno, com a esposa e a enteada.
A moça tinha 21 anos e era simpática e Lazlo, 12 anos mais velho, decidiu convidá-la para um dia no lago.
O dia estava bonito, quando chegaram a Tiberiades, e, depois de passearem um bocado, alugaram um barco e explorar as águas calmas do Kineret, como o lago se chama em hebraico.
A meteorologia, porém, parece que não estava muito de acordo com o programa dos passeantes.
Iam eles a meio do lago, quando as nuvens cobriram completamente o céu, que tomou a cor negra das tempestades, e em breve o vento começou de soprar com violência, o mar encheu-se de fúria, as ondas faziam saltar a pequena embarcação… e em breve o motor silenciou-se.
Os dois casais ficaram certos de que dali já não sairiam vivos.
Uma derradeira rajada, mais violenta, acabou por atirá-los na direcção da costa oriental, onde acabaram por ir parar, com a força das ondas.
Salvos? Sim… e não, porque logo apareceram soldados, de armas apontadas para eles e caras de poucos amigos.
Estavam na costa nordeste, até 1967 território sírio, e os soldados entenderam logo que eles eram “espiões sionistas”, que havia desembarcado ao abrigo do mau tempo.
Conduzidos sob prisão à presença do comandante, este tentou em vão obter deles uma confissão formal. Claro que não acreditou que Lazlo nunca for a soldado. Por outro lado, de Iris não desconfiaram muito, mas essa sim já tinha servido no exército.
Serviram, pois, os quatro “espiões” de cobaias para todos os instrumentos de tortura o comandante local dispunha no seu posto, e chegaram ao quartel-general em Damasco mais mortos do que vivos.
Ali, os belgas exigiram a presença do cônsul do seu país, e breve se viram libertos e repatriados.
Foram eles que alertaram as autoridades israelitas para os dois jóvens prisioneiros nas mãos dos sírios.
Durante três meses não falaram um com o outro, nem tiveram contacto com o mundo exterior.
Um dia, um guarda recém colocado na prisão onde Lazlo se encontrava, falou-lhe em húngaro. Tinha sido estudante em Budapeste. Foi uma réstia de sol na vida amargurada da cela.
Depois de se conhecerem um pouco, o tal guarda contou-lhe que Iris estava a trabalhar, sob prisão, num hospital. Se ele quisesse vê-la, que se queixasse de dores de dentes.
Mandaram-no à consulta no hospital e ele pode ver, por alguns momentos, a sua companheira de aventura.
Depois foram outra vez mais três meses de isolamento, até que, um dia, os guardas vieram buscar Lazlo à cela e o levaram para destino desconhecido.
Na ponte das “Filhas de Jacob”, que então servia de fronteira, encontraram-se com outros guardas, que traziam Iris.
Eram aguardados por representantes da Cruz Vermelha Internacional, que vinham proceder a uma troca de prisioneiros.
Em Tiberiades ainda estava o automóvel de Lazlo, com a bateria mais do que descarregada…
Amigos levaram-no para Nataniah e estiveram com ele até depois da meia-noite.
Quando eles se foram embora, Lazlo só pensou no que diria, no dia seguinte, aos pais de Iris, que nem sequer conhecia. Levara-lhes a filha para um passeio de um dia e devolvera-a passados seis meses…
Apesar da hora tardia, decidiu subir logo ao 3º. andar e tentar compor as coisas enquanto as emoções do regresso de Iris ainda estavam quentes.
Dois meses depois casaram!