Saudades do tempo em que dava boleias

Por © Inácio Steinhardt

domingo, 25 de Dezembro de 2005

Tenho saudades do tempo em que eu dava boleias.

Sobretudo quando trabalhava em Hadera, na fábrica de papel.

Para mim, pouco habituado a conduzir longas distâncias, os 50 quilómetros que separavam a minha casa do escritório, cansavam-me muito mais se tinha que os fazer sozinho ao volante.

À ida e no regresso, espreitava sempre para as "trempiadas", as paragens destinadas especialmente aos soldados, mas não só, que esperavam um carro que parasse e os levasse ao seu destino, ou pelo menos os fizesse aproximar mais deste.

O meu pequeno "Fiat" , "made in Portugal", cópia fiel do antigo "Seat" enchia-se facilmente, à frente e atrás.

Eram os meus primeiros anos de imigrante em Israel. Conheci assim muita gente interessante, ouvi conversas, e isso contribuiu bastante para eu me familiarizar mais rapidamente com os vários tipos de israelis, e com as realidades do viver quotidianoneste país.

Sobretudo quando só levava um passageiro a meu lado, e fazíamos no bate-papo todo o percurso, que assim passava num ápice.

Ele era o iemenita, funcionário do tribunal, que já fazia 40 anos no país, e que à força queria que falássemos em yiddish, que ele dominava à perfeição… e eu não.

A rapariga-soldado, "muito novinha" como se definiu, e muito bonita, acrescento eu, que fazia o seu serviço militar como professora de soldados necessitados de melhorar o seu nível de escolaridade. Para ela, o "emigrante" é que era o tipo exótico, com cujo viver quotidiano ela aproveitava para se familariazar.

Eram os soldados que seguiam à risca as instruções de nunca dizer ao condutor que lhes dava boleia, para onde iam. "O senhor, por acaso, vai até Beit-Lid? E quando estávamos a chegar a Beit-Lid: "Por acaso não passa por Raanana?". Quando finalmente eu lhe consegui arrancar o destino final, ele vinha mesmo para Petah Tikva, a dois quilómetros da minha casa. Foi um pequeno desvio apenas para o deixar na rua onde morava com os pais. Coitado, via-se mesmo que estava estoirado de uma semana de serviço militar. Agradeceu com um comentário: "É a primeira vez que apanho uma boleia quase da base até à porta de casa!".

Ou aquele polícia da "guarda da fronteira" que, no cruzamento de Beit Lid, quando parei no semáforo, me perguntou se podia sair ali, apesar da proibição. E eu, tão distraído como ele, respondi com um tom condescendente: "Vá lá, mas olhe primeiro se não está nenhum polícia à vista". E ele olhou para todos os lados, agradeceu, abriu a porta e saiu. Mas logo voltou para trás, com um amplo sorriso do seu bem desenvolvido bigode: "Mas afinal polícia sou eu!",

Poucos anos depois, tudo mudou. Primeiro, foi a atitude dos soldados que mudou. Vinham tão cansados, que adormeciam logo, sem me dar oportunidade para conversar. Pelo contrário, eu vinha até com mais cuidado para não os acordar… Faziam-me pena, os miúdos. Depois, sem qualquer cerimónia acendiam um cigarro, e quanto muito abriam a janela. Tentei educá-los. "Está bem, eu dou-te licença para abrires a janela e fumares!". Olhavam para mim com um ar muito espantado, como se eu fosse um lunático, a dizer frases sem sentido!

Pouco depois, quando eu parava na "trempiada", abriam a porta e sentavam-se sem dizer uma palavra. Eu esperava um minuto. Olhavam para mim sem perceber porque é que eu não seguia o caminho. Eles estavam ansiosos para chegar a casa, ao meio-dia de sexta-feira, ou à base, nas manhãs de domingo. "Por acaso saiu ultimamente alguma Ordem do Dia do Quartel-General, proibindo dizer 'Shalom'?" Quanto muito um sorriso encavacado: "Não, desculpa, Shalom. Vais para ….?"

Comecei a perder a motivação e a parar só em casos muito especiais.

 

Um caso especial, aconteceu logo num dos primeiros anos das minhas viagens diárias para Hadera. Eu tinha passado já o cruzamento de Morashá, sem ter achado nenhum "trempista" e isso não me agradava. Fora de qualquer "trempiada", vi um garoto, muito novo na aparência, simplório a julgar pelas suas roupas, que estava, na margem da estrada, manifestamente à espera de boleia. Parei o carro e abri a porta. O miúdo hesitou, olhou para mim, não entrou. "Entra", disse-lhe-eu, "para onde vais?". Olhou para todos os lados, e acabou por entrar, mas a medo. Tentei abrir conversa com ele. Repeti a pergunta: "Para onde queres ir?". Apontou para a frente, disse qualquer coisa que não entendi. Só então percebi que era um árabe, palestiniano, provavelmente de Gaza, dirigindo-se para o trabalho algures em Israel. Fazendo apelo às poucas palavras de árabe que conseguia dizer, perguntei-lhe quantos anos tinha. "Catorze" – respondeu também em árabe. Catorze anos, e já a trabalhar. E tão longe de casa.

Pouco depois de Kfar Saba, tocou-me no braço, fazendo sinal que queria sair. Parei o carro e ele, antes de abrir a porta, tirou do bolso uma nota de 20 libras israelitas, de então, muito dobrada, e estendeu-me. Tive dificuldade em lhe explicar que eu não queria que ele me pagasse a boleia. Abriu a porta e à laia de despedida, ou de agradecimento, disse-me algo em árabe que não só não compreendi, como me deixou preocupado: "Inte coêss". "Inte" eu sabia que é o pronome pessoal "tu". Mas "coêss", em hebraico é "zangado". Seria o mesmo em árabe? Porque havia eu de estar zangado?

Quando cheguei ao escritório perguntei ao recepcionista, o Max Brudo, nascido no Egipto, o que significava em árabe "Inte coêss"? "Tu és bom!". Como se ser bom fosse uma qualidade inesperada num ser humano.

Contei-lhe a história do garoto. Explicou-me que eles estão habitados a esperar longe das "trempiadas" pelos taxis árabes de Gaza, que fazem serviço de recovagem, transportando os trabalhadores palestinianos de e para Israel, e nos pequenos percursos interiores, mediante pagamento. Porque esses passageiros não se atrevem a tomar um transporte público israelita.

"Mas que história é essa de dar boleia a um palestiniano. Não tens juízo?"

Tentei em vão que me explicasse qual a diferença entre dar boleia a um soldado israelita ou a um trabalhador palestiniano. O Max foi mais um que ficou a pensar que eu era lunático.

Depois chegou o tempo em que se tornou altamente perigoso parar nas "trempiadas" e dar boleia. Até um soldado fardado nunca se sabe se não é um terrorista disfarçado. Foi isso que me ensinaram. E eu passei a viajar sempre sozinho, ou com algum colega de trabalho.

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