Yasser Arafat troca "livros prisioneiros"

By Inácio Steinhardt

Tuesday, May 30, 2006

Eu gosto das histórias humanas, daquelas que passam à margem dos livros de história, mesmo em tempo de guerra.

Esta passou-se durante a guerra do Líbano, em 1982

Li-a por acaso, num suplemento de um jornal ortodoxo "HaMishpahá", de Outubro de 2005, que me foi oferecido pela redacção, por nela se publicar, logo na página seguinte, uma entrevista comigo.

Uma importante biblioteca de livros sagrados judaicos, que se encontrava em poder do Fatah, foi entregue aos soldados israelitas, por ordem do próprio Yasser Arafat, em troca de uma outra biblioteca de livros do Fatah. "Troca de prisioneiros".

A biblioteca vinha do tempo em que era costume os "hahamim" comprarem, ou mandarem copiar, obras sagradas importantes, e guarda-las em casa, para seu uso e para uso dos estudantes que vinham estudar em suas casas.

Esta pertenceu a Rabi Isaac Ben Moses Abulafia (1824 – 1910), que nasceu em Tibérias e foi rabino de Damasco a partir de 1877. Em 1896, o Haham Bashi de Constantinopla, sob cuja jurisdição estavam os judeus de todo o Império Otomano, nomeou  Rabi Solomon Eliezer Alfandari, para rabino de Damasco. Os dois rabinos serviram juntos algum tempo, até que Abufalia foi para Tiro, e depois para Jerusalém, tendo ido falecer em Tibérias. A biblioteca passou para rabi Alfandari e deste para o seu sucessor, Rabi Eliahu Zeituni, conhecido bibliófilo de literatura sagrada judaica, que fundou em 1967 um "Beit Midrash", com o nome de "Mishkan Avraham".

1967 foi, porém, o ano da Guerra dos Seis Dias, e todos os judeus tiveram que sair da Síria. Não puderam levar consigo a valiosa biblioteca, que contava muitos milhares de livros

Ironia da história, em 1975, Solomon Zeituni, filho primogénito do Haham, foi nomeado Vice-Ministro da Agricultura no então governo do Líbano. Decidiu então mandar encaixotar todos os livros da biblioteca do pai e esconde-los até que fosse possível salva-los para lugar seguro.

A oportunidade surgiu com a intervenção da família Safra, brasileiros de origem síria, que usaram de todas as suas influências junto dos governantes cristãos do Líbano, que autorizaram a vinda de um navio a Beirute, para carregar a maioria dos caixotes para Chipre, de onde depois chegaram a Haifa.

Mas nem todos os caixotes chegaram a tempo de embarcar nessa "operação de salvação". Caixotes com muitos livros foram para às mãos dos homens de Arafat, que entretanto se tinha estabelecido no que então se chamou "Fatahland".

Durante a guerra da "Paz da Galileia", os soldados israelitas, que invadiram o sul do Líbano, ocuparam um asilo de órfãos do Fatah, na aldeia de El-Uzai, no sul do Líbano. No mesmo edifício encontrava-se uma importante biblioteca do Fatah.

Nessa altura, Yasser Arafat, que se havia refugiado em Beirute Ocidental, invocou que aquela biblioteca era património mundial, e que, portanto, ao abrigo da Convenção de Genebra, os soldados israelitas estavam interditos de se apoderarem dos livros.

O exército israelita propôs então uma "troca de prisioneiros": os livros dos palestinianos seriam entregues em troca do que restava dos caixotes com os livros sagrados de rabi Zeituni. Arafat aceitou.

Com o cerimonial da praxe, os camiões palestinianos trouxeram de Behamdun os caixotes, que lá se encontravam escondidos, para Sidon, onde foram trocados por outros  caixotes com os livros da biblioteca do Fatah.

E assim os livros chegaram a Holon, cidade onde vivem muitos judeus do Líbano. Serviu de base para uma nova biblioteca, que tem vindo constantemente a aumentar.

                                       

Soldados israelitas orando na sinagoga "Maguen Avraham" de Beirute. Consta que a sinagoga vai ser restaurada a custas de um Fundo criado pelo Presidente do Líbano, Hariri, que foi assassinado a mando dos sírios.

 

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