A Paz Possível

Por © Inácio Steinhardt

domingo, 2 de Maio de 2004

Há 15 anos – ou talvez menos – eu ainda ia com uma certa frequência, com minha mulher, a Kalkília, uma cidade palestiniana, paredes meias com Kfar Saba, do lado israelita.

Percorríamos a pé o mercado local, adquirindo aqui e ali alguma fruta e hortaliças, mas sobretudo gozando o prazer de deambular num mercado como os de antigamente. Sentíamos que éramos bem-vindos

Em Telavive e Jerusalém, nos hotéis e nos cafés éramos atendidos muitas vezes por empregados palestinianos, sempre muito correctos, mais corteses do que os judeus.

Hoje, quem entra em Kalkilia, ainda que só para se sentar num café e "enxugar" o prato de humus com um velho amigo palestiniano, tem 90% de probabilidades de voltar num carro funerário.

Os primeiros tempos, que se seguiram à euforia da vitória na Guerra dos Seis Dias, em 1967, eram bem diferentes do que vivemos hoje.

Uma conversa que tive então em Gaza, ao almoço, com o filho de um rico "efendi", explicará melhor a situação pelo lado dos palestinianos. Perguntei-lhe como via o futuro:

"Vejo"– respondeu-me ele – "que vocês fizeram um grave erro. Antes de 1967 nós contávamos à população como se morria de fome, nas ruas de Telavive. Não por não sabermos a verdade. Minha irmã, que vive em Beirutre e tem um passaporte europeu, compra suas roupas na Rua Dizengoff em Telavive. Mas a eles contávamos da miséria, porque assim nos convinha. Depois em 67 vocês abriram a fronteira. Agora eles vêm a realidade. E agora vão lá trabalhar e ganham o que para vocês seria "ordenado de miséria", mas a eles permite comprar geladeira, televisão, e tudo o mais. O futuro? Quando vocês saírem, porque um dia vocês vão ter que sair, eles vão exigir de nós o mesmo, e como não temos para lhes dar, vão correr em Gaza rios de sangue."

E, depois de pensar mais uns momentos, acrescentou: "Por isso eu já comprei sete apartamentos em Londres, que alugo. Vou viver lá, pois não posso ver correr sangue."

Acho que ele já se mudou definitivamente para Londres.

Foi isso. Para os palestinianos, 20 anos depois da separação, o que então viram em Israel foi uma revelação e uma janela de oportunidades, que ambos os lados não hesitaram em aproveitar.

Tal como havia sucedido nas gerações anteriores, antes de 1948, a par dos ódios políticos, teceram-se novas amizades pessoais.  Israelenses e palestinianos visitavam-se mutuamente, participavam das festas familiares, trocavam presentes.

Surgiu nos territórios uma nova indústria, cujos proprietários árabes se abasteciam de matérias primas em Israel e voltavam para vender os seus produtos.

Desde então, foram imensos os casos do palestiniano que, para se justificar perante aqueles que, em casa, o acusavam de "colaboracionista", chegava ao seu lugar de trabalho, e cravava uma faca de cozinha nas costas do patrão, seu grande amigo da véspera. Assim mudaram as coisas, porque os responsáveis de ambas as partes não queriam diálogo, queriam "tudo".

Mesmo para os árabes, cidadãos de Israel, o contacto entre as duas populações criou novas oportunidades. Como me dizia um amigo árabe de Wadi Ara, empreiteiro naturalmente:

"No princípio, quando os judeus começaram a vir para cá, eles tinham orgulho de trabalhar na agricultura e na construção civil. Vieram tirar nosso trabalho e nós vivíamos sob regime de governo militar. Depois, quando levantaram o governo militar, esses judeus passaram a empreiteiros e nós, árabes de Israel, trabalhávamos para eles. Agora, desde 1967, os judeus são os proprietários, os árabes de Israel são os empreiteiros, e os palestinianos, os que trabalham".

Contudo, a situação que se vivia era apenas uma ilusão óptica. Não se pode privar um povo da sua identidade e do seu direito à auto-determinação.

Levi Eshkol, primeiro-ministro de 1967, entendeu isso e conseguiu fazer passar uma resolução no governo, segundo a qual os territórios estavam nas mãos de Israel apenas como um "depósito", até se determinar, por meio de negociações, a quem seriam entregues. Exceptuava a Cidade Velha de Jerusalém e "ligeiros acertos de fronteiras".

Em compensação ele esperava obter o reconhecimento mútuo e acordos de paz com todos os países vizinhos.

Em Khartoum (1967) os países árabes responderam os três famosos "nãos". Não a negociações com Israel, não a acordos de paz, não a reconhecimento do Estado sionista.

Perante essa atitude, Eshkol não resistiu mais às pressões de dentro, e ao apelo do seu próprio passado de colonizador, e autorizou a implantação dos primeiros colonatos, nos territórios, que uns chamavam de ocupados, outros de libertados.

Sempre na esperança ingénua de que estava a criar uma situação temporária, que serviria para pressionar a parte contrária a sentar-se à mesa das negociações.

Em vez disso, hoje há mais de 250 mil colonos enraizados nos territórios ocupados, que vai ser muito difícil desenraizar. Há actos criminosos, perpetrados por israelenses, contra palestinianos, que nem os crimes do lado contrário podem de longe justificar. Arrancar de oliveiras e árvores de fruto, destruição de propriedade, saque, agressão de crianças e mulheres.

E eles mandam os terroristas-suicidas, sob a cegueira do falso mandamento religioso, assassinar civis inocentes nas cidades de Israel.

Como eles, começamos também a perder a nossa imagem humana. E isso alastra aos soldados, também.

Pior do que isso, reflecte-se cada vez mais na vida civil. Hoje, quem conduz um carro na rua e é ultrapassado ilegalmente, ou tem o seu caminho tapado por outro veículo, não se atreve a dizer uma palavra, pois se sujeita a ser agredido. Hoje mata-se por um lugar de estacionamento, ou por desentendimento conjugal. Hoje cometem-se crimes sexuais, com adultos e com crianças, quase todos os dias. Tudo se tornou "legal", para quem faz o seu serviço de reservas perante a população palestiniana, e para quem vê como esses militares se comportam na vida civil. Não estou acusando os soldados, estou a apontar para uma forma violenta de conviver, entre judeus, como consequência do desgaste causado pelo domínio sobre outro povo.

Também do lado palestiniano há violência, há imoralidade, há corrupção, há abuso das classes mais pobres, há doutrinação para a cegueira religiosa, e há miséria, muita miséria.

Isto, ao mesmo tempo em que, de ambos os lados, há afinal pessoas pragmáticas que pretendem honestamente chegar a um compromisso, conviver como vizinhos, sujeitos a um destino histórico comum. Serão uma minoria? Serão maioria? Hoje ninguém sabe, pois são poucos os que têm a coragem de falar em voz alta. Mas quantos sejam, vale a pena começar...

O recente acordo de Genebra é uma prova de que existem essas pessoas. Não sei se o acordo tem qualquer validade prática. Mas, pelo menos é uma prova de que existem pessoas disponíveis para um diálogo.

Haverá uns 10 anos, pouco mais ou menos, assisti em Lisboa a um encontro entre israelenses e palestinianos, sob a tutela de um qualquer organismo da ONU. Retive na memória um diálogo importante.

Estava na sala o conhecido jornalista palestiniano Hana Seniora, que lançou a seguinte pergunta: "Vocês falam em negociações de paz. Mas comecemos por isto: Estão dispostos a entregar Jerusalém? Porque se não estão, para que começar a negociar?".

Respondeu-lhe Abraham Burg, nessa altura um político principiante: "Hana, nós dois não nos conhecemos nem de hoje, nem de ontem. Já conversámos muito um com o outro. Ambos nascemos em Jerusalém. Entre a rua onde tu nasceste e aquela em que eu nasci, não vão mais do que poucas centenas de metros. Algum de nós cederá de vontade a cidade em que nasceu para outra nação? Com certeza que não.

Mas entre nós, israelenses e palestinianos, há pelo menos 100 problemas para resolver, uns mais fáceis outros mais difíceis. Comecemos por negociar os mais fáceis, mas comecemos. A pouco e pouco iremos chegando a acordo sobre alguns deles. Avançaremos para problemas cada vez mais difíceis. Acredita que, quando tivermos chegado a acordo sobre a solução de 99 problemas, e ficar só o 100º. Já teremos suficiente confiança um no outro para encontrar um compromisso aceitável para ambos também sobre Jerusalém.".

 O conflito do Médio-Oriente é uma sucessão de decisões erradas, de ambas as partes, que cada vez causam mais vítimas e mais sofrimento.

E, sobretudo, protelam uma possível solução, tornando o seu custo bem mais doloroso.

Apesar do resultado da recente consulta interna de Ariel Sharon aos membros do seu partido Licud, ainda estamos longe da certeza de que haverá tão cedo uma retirada israelense da Faixa de Gaza, a chamada "separação".

E mesmo essa "separação", sendo unilateral, e não consequente de um acordo entre ambas as partes, seria, quanto muito, o primeiro passo "coxo" para uma solução.

No recém-passado dia da Independência de Israel, o diário «Haaretz» publicou um suplemento com os resultados de concurso de sátira, que promoveu.

As sátiras são sempre pungentes, quando se baseiam nos acontecimentos dramáticos da nossa vida. É essa, porém, uma das características conhecidas do povo judaico: fazer humor das suas próprias desgraças. Até nos campos de extermínio nazistas eles conseguiram fazer esse humor macabro.

De uma das sátiras, publicados naquele suplemento do «Haaretz», extraí esta pequena prova de um imaginário exame de matemática:

"Dado que Mitsna sugeriu sair de Gaza há X meses e Y mortos, e que

Arik (Sharon) sugere separar-se de Gaza daqui a Z meses e W mortos,

Calcule: quando irá Bibi (Netanyahu) sugerir que se fuja de Gaza?

Tente determinar o número de mortos."

Quanto mais vezes se adiar um compromisso mais doloroso será o preço que ambos os povos irão pagar pela solução que restar.

Se Moshé Dayan, em 1967, tivesse aceite limitar-se a Jerusalém e aos tais "acertos ligeiros de fronteira", e entregar o resto do território que, com tanto orgulho conquistou haveria hoje mais alguns milhares de israelenses e de palestinianos vivos. E haveria mais moralidade e menos problemas sociais em Israel.

E talvez já tivesse surgido o "Novo Oriente Médio" de que se fala ainda como de uma quimera.

 

Inácio Steinhardt

Jornalista e escritor

Israel

inacio@steinhardts.com

www.steinhardts.com

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