Preso por ter cão
Por © Inácio Steinhardt
domingo, 6 de Novembro de 2005
Chamaram-me hoje a atenção para um pequeno comentário, publicado já em Setembro de 2003, no "blog" Terras do Nunca, com o título "Disto ninguém se queixa".
Assina-o o jornalista João Morgado Fernandes. (texto na caixa lateral)
Uma pequena busca na Internet deu-me a conhecer que este meu colega jornalista desempenha agora as funções de director-adjunto do «Diário de Notícias».
Não sei se na altura em que escreveu este interessante comentário já exercia aquelas funções, mas, para o caso é irrelevante.
O leitura do texto levou-me a algumas reflexões, que essas sim, julgo relevantes, pelo menos para minha ilustração, pois me explicam certos fenómenos subconscientes entre jornalistas e leitores.
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"Disto ninguém se queixa" – é o título. E eu também me não queixo da pequena referência ao meu modesto papel na imprensa portuguesa. É sinal de que alguém me ouve ou lê. Já é uma compensação.
Não me queixo, até porque na ética dos meus antepassados judeus aprendemos uma máxima que diz: "Não julgues o teu próximo antes de te achares no seu lugar".
Não posso, porém, impedir um sorriso irónico, íntimo, porque o comentário de Morgado Fernandes me lembra alguns factos e paradoxos, que, se ele os conhecesse, talvez lhe proporcionassem uma visão diferente do problema que enfoca.
É natural que JMF desconheça esses factos; nem sequer tem obrigação de os conhecer. Só que, quem não sabe é como quem não vê...
Não posso, nem devo, de forma alguma comparar-me profissionalmente a Henrique Cymerman, jornalista fora de série, consagrado e recentemente condecorado pelo Presidente da República Portuguesa com a Comenda da Ordem do Infante.
Por isso, como é de jus, de mim e da isenção profissional de que me orgulho, não falarei.
Por ironia do destino, o comentário de JMF chegou ao meu conhecimento quase ao mesmo tempo que o convite para o evento, em Telavive, para lançamento da versão hebraica do livro de Henrique Cymerman, "Entrevistas no Centro do Mundo".
Talvez que uma simples leitura da lista dos entrevistados bastasse para demonstrar o profissionalismo com que HC reporta os factos de ambos os lados do conflito: Yitshak Rabin, Yasser Arafat, Shimon Peres, Ahmed Yassin, Mordechai Vanuno, Raed Salah, Marwan Barguti, Ariel Sharon, Mahmud Abbas (Abu Mazen), Siilvan Shalom, Ahmed Qureia (Abu Ala), são apenas alguns dos 35 entrevistados, alguns várias vezes, nos momentos mais cruciais das suas intervenções no conflito.
O facto de HC ter entrevistado estas personagens, se testemunha a sua vasta rede de relações em ambas as partes, não seria suficiente para provar a sua isenção profissional, que lhe não permite reportar os factos apenas "pelos olhos, pela voz, pela interpretação de pessoas que vivem em Israel, que nos dão a visão de Israel, que são Israel".
A lista dos convidados que aceitaram estar presentes no acto do lançamento do interessantíssimo documento, que HC proporcionou aos públicos de língua portuguesa, espanhola e hebraica, responde peremptoriamente a essa dúvida.
Bastará salientar de entre aqueles que vão usar na palavra para falar de HC e do seu livro: Nabil Sha'at (pela primeira vez a falar em público em Telavive), Imad Shakur, líder do Fatah, ao lado de Xavier Solana, do professor Shelomo Ben-Ami, e dos embaixadores de Portugal e da Espanha. Artistas palestinianos juntos na parte musical, dois apresentadores de renome, o israelita Itai Engel e o palestiniano Ziad Darwish.
Todas as entidades palestinianas, ao mais alto nível, não teriam aceite prestar as suas homenagens ao jornalista, se não estivessem certos de que ele transmite fielmente os pontos de vista pelos olhos e pela voz dos seus entrevistados.
Que a imprensa portuguesa contrata principalmente os serviços de correspondentes lusófonos, residentes em Israel, é um facto que se baseia em razões práticas, e só é possível porque os órgãos de informação, que cada um de nós representa, acredita na nossa isenção. E todos temos os nossos contactos e as nossas fontes de informação.
Aliás há órgãos de informação portugueses que utilizam, quando assim o entendem, os serviços de jornalistas baseados nos territórios da Autoridade Palestiniana, ou de agências noticiosas que têm os seus escritórios em Ramallah ou em Gaza.
Infelizmente, esses jornalistas, credenciados pelos serviços de imprensa da AP, estão submetidos - esperemos que por tempo limitado - a um controlo cerrado dos trabalhos que produzem, e quantas vezes são raptados e maltratados porque um ou outro dos seus textos não agradou aos representantes de qualquer das organizações palestinianas, que actuam à revelia das suas autoridades.
Outro paradoxo, que me faz sorrir tristemente é que, por comentários que me chegam de Portugal, somos muitas vezes acusados, os irmãos Henrique e Carlos Cymerman, eu, e outros colegas, de "sermos demasiado parciais contra os interesses de Israel".
Isto faz-me lembrar uma história que me contou um colega brasileiro, veterano e muito conceituado, que trabalhou no Médio Oriente para os mais importantes periódicos brasileiros.
Por muito que um jornalista se esforce por manter a imparcialidade a todo o custo, ninguém pode resistir a uma auto-censura, revendo todos os seus textos para não deixar transparecer qualquer influência subjectiva, que aos olhos do leitor poderá justificar o estigma de um nome que soa a judeu.
"Primeiro foram os Steinhardt, agora são os Cymerman" –como aponta o dedo acusador de João Morgado Fernandes.
Pois com o meu amigo sucedeu que, de acordo com a redacção com que trabalhava, no Brasil, passou a escrever também para outro jornal, pelo que foi obrigado a usar de um pseudónimo, que soava a 100% brasileiro – ou português.
Aí, inconscientemente o efeito psicológico do nome judaico deixou de ter a sua influência sub-reptícia.
Os seus artigos sob pseudónimo eram escritos com muito mais liberdade para por em destaque a posição israelita, quando era esse o caso.
E o que sucedeu então? A redacção do segundo jornal começou a receber cartas de leitores que manifestavam o seu apreço pela isenção do correspondente no Médio Oriente. "Finalmente podemos ler notícias escritas com objectividade, que não são assinadas por um judeu inimigo de Israel".
Preso por ter cão... preso por não o ter.