O libelo contra Amzalak

Por © Inácio Steinhardt

quinta-feira, 29 de Novembro de 2007

Alguns amigos chamaram a minha atenção para o livro «O Segredo da Rua d' O Século», da autoria de António Louçã e Isabelle Paccaud (Lisboa, 2007) e pediram-me para me pronunciar sobre o seu conteúdo.

Porquê eu? Talvez por ter sido testemunha, ainda que como criança, da época dos refugiados em Lisboa, e da assistência que quase todos os judeus de Lisboa, entre eles os meus Pais, procuraram dar-lhes; e, por mais tarde, como adulto, ter pertencido durante vinte anos aos corpos directivos, quer do Centro Israelita de Portugal, de que fui vice-presidente, quer, nos últimos seis anos desse período, do Comité da Comunidade Israelita de Lisboa.

A muita consideração, respeito e admiração que sempre tive para com a personalidade do Professor Moses Bensabat Amzalak, com quem naturalmente convivi bastante no exercício dessas funções, sem nunca ter sido seu íntimo, nunca me impediram de manifestar publicamente, e por vezes veementemente, a minha dissidência perante algumas das suas posições e atitudes, nem de o apoiar, a ele e à sua equipa, naquelas acções que mereciam a minha aprovação.

Não me vou pronunciar sobre o mérito histórico da obra, que li com a maior atenção.

È óbvio que os autores dedicaram ao seu trabalho muito esforço e saber, muitas horas e quilómetros de pesquisas, e eu, que não fiz tais investigações, e não me assiste mais do que o meu testemunho pessoal, não tenho a veleidade de as discutir.

Alegadamente uma obra de carácter histórico, e portanto sem pretensões de julgar, o livro, porém, constitui um libelo que convida implicitamente os seus leitores a julgar o professor Amzalak, quer pelas suas ideias, quer pelas suas relações com Salazar, por um lado, e com representantes do Terceiro Reich pelo outro, culminando com a aceitação de uma importante condecoração alemã, que não teve a hombridade de devolver, considerando o peso que a sua personalidade teria concedido a um tal acto, em desagravo contra as atrocidades cometidas pelos nazistas, sobretudo contra o povo judaico, de que ele próprio, Amzalak, era um conceituado dirigente.

Apresentando-o, sob essa vertente, ao julgamento público, António Louçã e Isabelle Paccaud lançaram a segunda pedra! Porque a primeira pedra já a havia lançado Louçã, na sua obra anterior «Conspiradores e Traficantes» (Lisboa, 2005).

Parece, pois, que, contrariamente aos princípios básicos da democracia, os autores consideram que os homens devem ser julgados não só pelas suas acções e intenções, mas primariamente pelas suas ideias, sobretudo políticas.

Ao considerarmos uma acção boa ou má, estamos a faze-lo segundo os nossos critérios, mas devemos também admitir que quem a praticou poderá ter agido na convicção que agia pelo melhor, a não ser que possamos provar que foi movido por má intenção.

Ora eu conheci o professor Amzalak o suficiente para estar plenamente convencido de que, ao tomar uma atitude, quer com aprovação geral, quer contra a opinião dos outros, ele agia sempre na persuasão de que era essa a melhor opção, na defesa primeiro da sua comunidade e depois, dos judeus em geral.

E, o que não é menos grave, os autores envolvem directa ou indirectamente, no mesmo libelo submetido ao julgamento do público, a Comunidade Israelita de Lisboa, e os seus dirigentes na época do Holocausto, destacando o seu vice-presidente de então, Dr. Elias Baruel, e os irmãos Semtob, Samuel e Joel Sequerra, pessoas que sacrificaram incontestavelmente as suas vidas privadas e as suas carreiras profissionais, para ajudar em tudo quanto foi possível, os refugiados judeus, que passaram por Portugal, e as instituições que se dedicavam também a essa tarefa.

Toda a actividade das referidas pessoas não teria sido possível sem o apoio político e diplomático de Moses Amzalak, entre outras formas, por ter obtido do seu amigo Salazar o consentimento para que fosse a CIL, como instituição portuguesa, a cobertura legal para essas actividades de salvamento.

Será justo, diria que se impõe mesmo, que venha alguém a público, lançar a devida luz sobre estes factos.

Talvez não se possam apontar a Amzalak muitas oportunidades em que tenha demonstrado, por actos, a virtude da coragem; mas, em contrapartida, foram muitas aquelas em que demonstrou e usou, em prol da causa judaica, as suas qualidades de bom senso, de inteligência, de experiência científica e política, e de boa diplomacia, situando-se e colocando a comunidade no que considerava o lado certo da situação.

São qualidades que dificilmente farão dele um herói, mas sem as quais a missão dos heróis da salvação dos refugiados teria sido, em muitos casos, fatal.

Se alguma credibilidade me concede o ter sido frequentemente um dissidente do "regime" de Amzalak na CIL, não hesito em testemunhar que sempre encontrei nele uma intenção sincera de proteger, em primeiro lugar, a sua comunidade, e logo depois todos os judeus ameaçados por Hitler.

Talvez também nisso ele se assemelhasse um pouco a Salazar, para quem foi sempre de primeira importância manter o povo português fora do conflito que incendiou a Europa.

É certo que Amzalak era dominado, em todas as circunstâncias pelo receio das consequências de certas atitudes mais ousadas. Mas ao mesmo tempo ele procurava achar-se sempre na posição de ajudar, com suas influências, a remediar e salvar as vítimas de tais ousadias. Também no receio e na ponderação há uma certa dose de coragem, sabendo que se sujeita ao julgamento dos outros.

O que, nesta polémica, se põe em julgamento, é a escolha entre duas opções, que coexistiam na trágica situação dos refugiados: os que entendiam que se devia pactuar até com o diabo, para reduzir, tanto quanto possível, o número das vítimas, e os que não tinham dúvidas de que se deveria lutar com todas as forças contra o mesmo diabo, ainda que, se falhassem, a consequência pudesse ser um número de vítimas ainda maior.

Haverá sempre quem defenda ou ataque uma ou outra das posições, e acuse de traidores de cada uma delas aqueles que, na melhor das intenções, decidiram agir segundo a sua lógica e a sua inteligência. Lendo o «Segredo da Rua d' O Século», devemos ter presentes dezenas de casos semelhantes, ocorridos, na mesma altura, em outras partes da Europa, em relação aos quais persiste ainda hoje idêntica polémica.

Li e possuo o livro, em hebraico, em que Isaac Weissman chama a atenção para o valor da sua acção pessoal em prol dos refugiados em Portugal. Sendo ele próprio um refugiado, decidiu de moto próprio, assumir um papel activo na obra de salvação, à revelia dos "legalistas" da CIL, e para tal pediu, não que lhe tivesse sido oferecido, a cobertura oficial do Congresso Judaico Mundial.

Aí ele revela como, preocupado com o número elevado de refugiados ilegais, que a PIDE procurava localizar e perseguia, numa luta sem tréguas, teve a coragem de ir pessoalmente à sede da PIDE, propor uma transacção. 

Ele convenceria os ilegais a apresentar-se, para serem registados. A PIDE comprometer-se ia a não os meter em prisões, limitando-se a forçá-los a residir na Ericeira, até obterem vistos e transportes para deixar Portugal. Isso pouparia à polícia elevados gastos e efectivos na caça e perseguição aos ilegais, e permitiria aos organismos de assistência, através dos serviços da CIL, assistir economicamente a essa gente.

É natural que coexistissem duas espécies de interesses: o da Comunidade Israelita de Lisboa, para quem era importante assegurar a sua credibilidade, presente e futura, recusando assistência aos refugiados que receavam apresentar-se ao registo legal na PIDE; e o interesse dos refugiados para quem o importante era salvar as vidas e, se possível, alguns haveres, sem consideração para o que pudesse suceder em Portugal, depois de eles saírem. Muitos dos judeus de Lisboa, na ânsia de procurar ajudar os refugiados por todos os meios, condenavam, sem a compreender ou aceitar, a atitude legalista da CIL.

Se quisermos ser objectivos, uns e outros tinham razão: a CIL protegendo a sua credibilidade, em consideração do futuro, os refugiados acusando os legalistas de "maus judeus", por não sacrificarem essa credibilidade em favor das vidas que era possível salvar, antes que o exército alemão eventualmente chegasse também a Portugal.

Antes do julgamento público, a que a obra em análise convida implicitamente, achei ser meu dever apresentar aqui estas considerações.

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