Ao correr da pena
por Inácio Steinhardt, em Israel
 
:: A Dama das Papoilas Data: Terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

Shoshana Damari faleceu hoje em Tel Aviv.

Ouvi a triste notícia na rádio, quando ia a caminho da Shehunat Hatikva, um dos últimos redutos da vivência iemenita castiça, na cidade, onde esta manhã eu tinha um encontro..

Todos a conheciam como cantora nacional, com sua inconfundível voz de alto, com a sua pronúncia impecável da língua hebraica, que os professores, incapazes de a imitar, apontavam aos alunos como a verdadeira pronúncia da nossa língua.

Eram os seus "ayin" guturais, os "het" palatais, segundo os especialistas, os verdadeiros sons desses fonemas, na primitiva língua hebraica.

Shoshana nasceu em 1923, na cidade de Damar, no Iémen. Daí lhes vinha também o nome de família.

Tinha apenas um ano de idade quando a família teve que fugir das perseguições dos árabes para o então território do Mandato Britânico na Palestina.

Contava a Shoshana que só por um milagre ela chegou viva a Erets Israel. Durante a longa e atribulada caminhada de Damar para Aden, ela adoeceu gravemente.

A mãe dela, que tinha muitos filhos, dificilmente podia tratar dela. Sem médicos, sem medicamentos, a não ser as famosas e tradicionais curas caseiras das mulheres iemenitas, todas pensavam que iria morrer durante a viagem.

Foi isso que as outras aconselhavam à mãe dela. "Para que a levas?. Precisas de todas as tuas forças para tratar das outras crianças. Esta só tem um ano. Não vai resistir. Deixa-a ficar aqui."

A mãe não teve coragem para a abandonar em Aden. Trouxe-a juntamente com os irmãos, cuidou dela como pode, e Shoshana viveu ainda 82 anos.

Foi premiada com o "Prémio de Israel", o mais alto galardão de um país que não tem ainda condecorações, em reconhecimento do muito que fez pela Pátria dos judeus..

Ainda em garota cantava com a mãe em casamentos e outras festas.

Depois estudou canto e arte dramática.

Mas não foi só na música que ela contribuiu para o esforço comum dos fundadores do Estado de Israel.

Um dia o poeta Moshe Wilenski escreveu para ela uma canção sobre as papoilas – "Calaniot".

Para essa canção, na voz de Shoshana Damari, estava reservado um papel importante na história da independência de Israel.

Ela cantava num local nocturno, nas traseiras do qual a Haganá – a milícia armada da resistência judaica contra as tropas mandatárias - tinha um esconderijo secreto.

Os soldados ingleses tinham como missão localizar todos os esconderijos secretos da resistência e prender os conspiradores.

Os soldados usavam então boinas vermelhas, da cor das papoilas.

Quando eles entravam no local onde Shoshana cantava, ela terminava rapidamente a canção que estava a cantar e mudava logo para a mais famosa, "Calaniot", com todo o volume que a sua potente voz lhe permitia.

Essa era a senha para os conspiradores esconderem rapidamente tudo quanto os pudesse denunciar, antes que os "boinas vermelhas" se lembrassem de fazer uma busca por detrás dos bastidores.

Para os israelitas de então, "Calaniot" e a Shoshana Damari foram um símbolo da resistência, que se transmitiu para as gerações seguintes.

Esta manhã, era a canção mais ouvida em todas as estações de rádio.

Que sua alma ditosa goze da vida eterna.

 

P.S: - Milhares de pessoas desfilaram perante o féretro da diva exposto no átrio, profusamente decorado com papoilas, do teatro HaCamery, em Telavive.

Shoshana foi sepultada no Cemitério Velho da Rua Trumpeldor, em pleno centro desta cidade, fundada há apenas 97 anos.

O cemitério da Trumpeldor é um verdadeiro Panteão municipal. Alí repousam muitas das personalidade que deram os nomes às ruas de Telavive: Bialik, Dizengoff, Ahad Ha’am, Gordon e tantos outros. E, entre eles repousa também, o nosso rabino Samuel Mucznik, que marcou uma época na história da CIL.

A campa fresca de Shoshana Damari ficou totalmente coberta de papoilas.

Uma semana antes, os metereologistas da televisão comentavam que, este ano, as papoilas haviam antecipado a sua vinda, que anuncia habitualmente a Primavera. No princípio de Fevereiro, ainda eles previam neve para alguns sítios de Israel, e já se viam tapetes de verdura, cobertos de papoilas, pelos campos fora.

Elas lá saberiam por que anteciparam a sua chegada...

 

 


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Essa que fez de mim Judeu Errante
Do espírito, a torrente caudalosa,
Dos vendavais irmã tempestuosa,
- Trago-a em mim vermelha, triunfante!
No meu sangue rubis correm dispersos:
- Chamas subindo ao alto nos meus versos,

Papoilas nos meus lábios e florir!

                             

[Florbela Espanca, "Mocidade")


 

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