Moisés Abrantes - um humanista do Fundão
Por © Inácio Steinhardt
quinta-feira, 19 de Outubro de 2000
Chegou-me às mãos, por estes dias, o livrinho «O Sol e a Sombra», da autoria de Moisés Abrantes, um humanista do Fundão, de cuja boa amizade me orgulho há algumas dezenas de anos.
É a terceira obra em que esse descendente dos judeus de antanho, que em 1497 foram forçados à pia baptismal do cristianismo, nos revela, fazendo magistralmente uso de palavras simples para transmitir sentimentos profundos, um pouco da sua longa e fecunda experiência de homem bom.
Um pouco, porque sei que Moisés Abrantes tem ainda muito para nos contar e no seu longo diálogo com o Criador, que já vem de há muitos anos, quase desde o berço, ele já obteve a certeza de que lhe será dado realizar essa missão até ao fim.
A prová-lo, está o epílogo deste livro, em que o autor nos promete já a obra seguinte, um diálogo com a Terra-Mãe, a que ele, tentativamente, já deu o título de «Grande Poeta É o Povo».
O primeiro capítulo de «O Sol e a Sombra», o que deu o nome ao livro, é um belo exemplo da forma como Moisés Abrantes conseguiu encontrar o que muito homens procuram incessantemente e não encontram: este verdadeiro Homem - na acepção de Kipling - encontrou-se a si próprio.
Mas o mesmo primeiro capítulo é também um duro libelo, magnificamente elaborado, contra os seus muitos amigos, que guardam no coração a sua amizade, e raramente vão suavizar o seu isolamento, entre as quatro paredes da sua casa, não tão nuas como ele tenta convencer-nos, pois são um verdadeiro museu de humanismo.
A maior contribuição que Moisés Abrantes terá dado à sua terra - o Fundão - foi a sua intencional firmeza em servir os seus patrícios pelo exemplo e prática do amor pelo próximo e de integridade inquebrantável.
É jus que os seus amigos, além da amizade que lhe guardam no coração, o ajudem também amenizando os seus longos dias de isolamento, intervalando a sua abençoada comunhão constante com Deus e consigo próprio, e as suas horas de penoso mas precioso trabalho, com o calor da companhia humana e da voz amiga.
Entretanto, nesta tão perturbada Terra Santa, onde profetas, sonhadores, criadores de religiões e visionários se cruzam e se desencontram, a Liga de Amizade Israel-Portugal, de Telavive, sentiu necessidade de consagrar a presença de Moisés Abrantes, que tanto desejou visitá-la e nunca lhe foi dado realizar esse anelo.
Na «Floresta Portugal», em Israel, um projecto que já conta com cerca de 5 mil árvores, plantadas por donativos de amigos de Portugal, em Israel, e por amigos de Israel, em Portugal, de todas as religiões, existem agora mais 10 árvores, em honra de Moisés de Brito Abrantes.
Ao tomar conhecimento deste gesto simbólico, o humanista do Fundão, prometeu "regar as suas árvores com lágrimas". Abençoadas lágrimas de um homem bom...
E certamente que aceitará o desafio para mais uma obra que ainda lhe cumprirá completar, pois no seu relacionamento com a Terra-Mãe, que promete para o próximo livro, terá que considerar também a Terra que abriga e alimenta as raízes das suas árvores.
Em tempo:
Moisés Abrantes faleceu em Dezembro de 2003, com 92 anos de idade. Ele que tanto queria que em Belmonte houvesse um cemetiério para judeus, onde, chegado o seu dia, ele gozasse do repouso eterno, foi, por ironia do destino, sepultado no cemitério cristão do Fundão.
Escrevi algumas palavras sentidas, em sua memória, no meu site em inglês www.steinhardts.com
Soube, entretanto, que em Fundão foi dado o seu nome a uma rua da cidade. Pelo menos isso. Foi uma homenagem bem merecida.