Ao correr da pena
por Inácio Steinhardt, em Israel
 
:: O "marrano" Ataturk Data: Terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Itamar Ben-Avi, o filho de Eliezer Ben-Yehuda, célebre porque o seu pai, o renovador da língua hebraica em Erets Israel, proibiu, desde que o filho nasceu, que a criança ouvisse qualquer outra língua além do hebraico, conta uma história curiosa, que já foi reproduzida em muitas publicações, mas que vale a pena contar mais uma vez.

Itamar costumava frequentar o bar do hotel Kamenitz, em Jerusalém.

Uma noite, no Outono de 1911, portanto durante o domínio otomano na Palestina, o proprietário perguntou-lhe se conhecia o oficial turco, que se sentava numa outra mesa.

Não, ele não o conhecia, porquê? "Porque é um dos oficiais mais importantes do Império Turco".

- "Como é que se chama?"

- "Mustafá Kemal."                                                    

- "Gostava de o conhecer"

 

O senhor Kamenitz, sem hesitar, fez as apresentações.

Conversaram em francês. E voltaram a encontrar-se muitas vezes, sempre na presença de uma boa garrafa de "arak", que se ia esvaziando noite fora, enquanto conversavam longamente sobre os diversos aspectos da política otomana.

Logo na primeira conversa, o jovem capitão confessou ao seu novo amigo que era descendente de Sabbetai Sevi. Já não era judeu, mas muçulmano, mas ainda admirava muito as ideias desse "vosso profeta", e recomendava que os judeus das Palestina as seguissem.

As ideias de Sabbetai Sevi, como já vimos num texto anterior, conduziam à assimilação. Um pouco, como diria Mendelssohn, "alemão na rua e judeu em casa", ou, no caso presente, "turco na rua", não interessa. Mustafá Kemal também preconizava a laicização do Estado. Tornar a Turquia um estado em que houvesse liberdade para não seguir a religião islâmica.

Dez dias depois, o capitão turco adiantou:

"Tenho em minha casa uma Bíblia em hebraico, impressa em Veneza. Já é bastante antiga, e lembro-me do meu pai me ter levado a um professor Karaita, que me ensinou a ler no livro. Ainda me lembro de algumas palavras"

É Itamar Ben-Avi que conta esta conversa, num livro já há muito esgotado.

E continua:

"Parou um momento, enquanto os seus olhos pareciam buscar algo no espaço, e continuou: Shemá Yisrael, Adonai Elohenu, Adonai Ehad".

"Mas essa é a nossa mais importante oração, capitão!"

"É também a minha oração secreta, cher Monsieur" – respondeu ele, enquanto enchia de novo os nossos copos.


Itamar não sabia então que o estava a ouvir não seria exactamente uma manifestação de Judaísmo. Uma das declarações secretas dos seguidores do falso messias era: "Sabbetai Sevi e nenhum outro é o verdadeiro Messias. Ouve à Israel, O Senhor é o nosso Deus, O Senhor é Único".

Talvez fosse daí, e não das lições do Karaita, que o oficial turco se lembrava das palavras do Shemá.

Mas não importa. Mustafá Kemal declarou ao seu novo amigo, então jornalista na Palestina, a sua origem judaica.

Mustafá nasceu em Salónica, em 12 de Março de 1881.

Teriam os seus antepassados pertencido a alguma das comunidades judaicas portuguesas, antes de se converterem ao Islão?

Não existe nenhuma indicação de tal facto.

Seu pai, Ali Rizá, funcionário da alfândega otomana na cidade, faleceu quando o filho ainda era muito novo. Diz a tradição que o nome adicional, Kemal, que significa "perfeito", lhe foi atribuído pelo professor de matemática, na escola militar secundária de Salónica.

Em 1907, aderiu ali ao "Comité da União e Progresso", conhecido normalmente como os "Jovens Turcos".

Em Setembro de 1922, as forças comandadas por  Kemal, lutando contra o exército grego, tomaram Izmir. A vitória de Kemal na Guerra da Independência preservou a soberania da Turquia. O Tratado de Lausanne suplantou o Tratado de Sevres e a Turquia recuperou a totalidade da Anatólia e da Trácia oriental, do controlo Grego.

No ano seguinte, em 29 de Outubro de 1923, Mustafa Kemal comandava a revolta que derrubou o califado de Constantinopla e proclamou a República Turca, de que foi o primeiro presidente. Por isso lhe chamaram Ataturk, o Pai dos Turcos.

Kemal Ataturk foi um ditador, que transformou a Turquia num estado laico. Por quanto tempo ainda o será é hoje posto em dúvida.

Mas as leis do Islão foram severamente cerceadas. Proibiu o uso do alfabeto árabe na língua turca, que não pertence às línguas semitas, e passaram a utilizar o alfabeto latino.

A transliteração das palavras ocidentais, dos caracteres árabes, que se escrevem sem vogais, para o latino, causou uma barafunda enorme.

Vemos hoje, nas ruas de Istambul circularem os "taksi", e a portuguesíssima família judia portuguesa Albuquerque, de Istambul, é agora conhecida por todos como Albukreke.

 


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