Ao correr da pena
por Inácio Steinhardt, em Israel
 
:: Muçulmano frustrado: Judeu frustrado Data: Sábado, 21 de abril de 2007

No chamado "Pátio Islâmico" do Cemitério Municipal de Granada, Espanha, o túmulo de um muçulmano, falecido na aldeia de Mijas, na Costa do Sol, está coberto por  uma lápide em mármore com a seguinte inscrição em caracteres latinos:

LA ILAHA ILLALLAH

MUHAMMAD RASULALLAH

MUHAMMAD

ASSAD

BORN 2 JULY 1900

DIED 20 FEBRUARY 1992

As primeiras duas linhas são a conhecida profissão de fé do Islão: "Não há Deus senão Allah e Maomé é o seu profeta".

Para além destes dizeres, a lapide é omissa sobre a personalidade do defunto e sobre os lugares onde nasceu e faleceu.

Antes de averiguarmos os traços principais da sua longa e aventurosa biografia, adiantemos que antes havia vivido, por um curto espaço de tempo, em Portugal, em Sintra, onde chegou em 1982, vindo de Tânger, para onde foi viver em 1964, e onde, em 1973, terminou uma segunda edição do seu livro «The Road to Mecca», que é afinal uma autobiografia incompleta.

Quanto aos marcos principais da sua carreira:

- durante 6 anos foi amigo pessoal, conselheiro e enviado, do legendário rei Abd al-Aziz Ibn-Saud, fundador da Arábia Saudita.

- Participou na criação do estado independente do Paquistão e foi seu ministro plenipotenciário na ONU.

Os antecedentes do homem sepultado em Granada são mais complicados.

Muhammad nasceu na Ucrânia, em 1900, conforme indica a sua lápide, quando aquela região pertencia ao império austro-húngaro, na cidade que então se chamava Lemberg, e agora é Lvov. Seu nome era então Leopoldo Weiss.  Descendia de uma longa geração de rabinos, de Czernovitz, capital da Bucovina. 

 

Seu avô, Benjamin Lev (Arye) Weiss, foi rabino ultra-ortodoxo, e presidiu ao rabinato de Lemberg, onde também faleceu,.

Seu pai, Akiva (Kiwa) Weiss, destinado pelo avô a continuar a dinastia rabínica da família, decidiu mudar-se, à revelia da família, para Viena, onde se formou em direito e exerceu advocacia e asoptou o judaísmo liberal.

Sua mãe, Amália (Malka) Feigenbaum, era filha do banqueiro Menahem Mendel Feigenbaum, senhor de uma grande fortuna.

Leopoldo, "Poldi", como o chamavam na família, teve, como se costuma dizer, uma infância dourada.

Nem por isso deixou de ser mandado estudar Torah e Talmud, a par dos seus estudos laicos na Universidade de Viena.

Separou-se depois da família, viajando de comboio para Berlim, onde trabalhou como assistente de um realizador cinematográfico, e depois numa agência noticiosa.

Em 1919, faleceu-lhe a mãe.

Então seu tio, Dorian Feigenbaum, famoso psicanalista em Jerusalém, sob mandato britânico, convidou-o a visitá-lo e estar com ele algum tempo.  Outro tio, irmão deste, trabalhava também em Jerusalém, como oftalmologista.

Do balcão da casa do tio, na cidade velha, junta à porta de Jaffa, Poldi assistia à passagem dos árabes que iam e vinham do bazar árabe.

Conheceu e teve longas discussões com alguns líderes sionistas de então, como Haim Weizman e Menahem Ussiskin.

Por essas conversas e por observação da vida diária na cidade velha, nasceu nele uma ideologia anti-sionista, convencendo-se que os árabes e não os judeus é que tinham direito àquela terra.

Decidiu então escrever a diversos jornais alemães, oferecendo-se para mandar regularmente crónicas da Palestina.  Apenas o Frankfurter Zeitung aceitou a oferta. Naturalmente que as ideias expressas por ele, nos artigos que mandava para o jornal, não agradavam nada aos judeus da Palestina.

Regressou então à Europa, foi para Frankfurt, onde, foi admitido na redacção daquele jornal.

Pouco tempo depois foi enviado para uma primeira missão como correspondente do jornal do Médio Oriente.

Durante dois anos percorreu grande número de países, viu-se moralmente envolvido na vida daqueles povos.   Entretanto aprofundara os seus conhecimentos sobre o Islão. Sentiu-se atraído pelo facto do Islão ser uma religião monoteísta, universal.  Por um lado não era exclusiva de um povo, como o judaísmo, por outro não usava de imagens no culto, como o cristianismo.  Concebeu uma imagem ideal do Islão, que, só muitos anos mais tarde viria a reconhecer que não correspondia à linha de conduta dos fundamentalistas da religião.

Regressado a Frankfurt, onde conheceu a sua primeira mulher, Elsa Schieman, viúva, cristã, quinze anos mais velha do que ele, acabou por se incompatibilizar com o director do Frankfurter Zeitung e demitiu-se.

Partiu com a mulher para Berlim, e a partir dessa cidade, com a reputação que já havia adquirido com as reportagens do Médio Oriental, conseguiu facilmente trabalhar para vários jornais de língua alemã da Suíça e de Alemanha.

 

Em 1926, decidiu converter-se ao Islão, convencido de que o Corão estava a ser mal interpretado por uma grande parte dos muçulmanos, e de que ele seria capaz de incutir na religião um novo espírito, que levasse os crentes a distinguir entre o cerimonial do culto e a verdadeira relação com Deus.  Elsa seguiu-o na conversação à nova religião.

Converteram-se na mesquita de Berlim. Mudou o nome para Muhammad Asad, a única ligação com o seu antigo nome, Leopoldo, pois Asad  (lê-se Assad) significa em árabe Leão.

Partiu então em peregrinação para Meca.

Aí caiu nas boas graças de Ibn Saud, que se havia proclamado rei do Hejaz em Janeiro de 1926.  O rei encarregou-o de várias missões secretas nos outros países árabes.

A esposa alemã faleceu pouco depois, de doença misteriosa.

Asad casou pouco depois com uma árabe, Munira, da qual teve um filho, a quem puseram o nome de Talal, em honra do avô do actual rei Abdallah da Jordânia.   Talal Asad é actualmente professor de Antropologia em Nova Iorque,

Durante os seis anos em que viveu na corte de Ibn Saud, aprofundou os seus estudos sobre o Corão e publicou muitos artigos sobre o Islão, alguns dos quais foram traduzidos na Europa e continuam ainda hoje a ser citados.

No entanto, os antecedentes judaicos de Muhammad eram um obstáculo para a promoção da sua carreira na Arábia.

Decidiu então partir em viagem pela Índia, Turquestão, China e Indonésia.

Entretanto o pai recusou-se a ter qualquer contacto com ele, situação que se manteve durante quase 10 anos. Só a partir de 1935 trocaram algumas cartas.

Em 1939, Muhammad Asad foi a Londres para tentar obter vistos para salvar o pai, a irmã e a madrasta do que viria a ser o Holocausto.  Não conseguiu e eles pereceram num campo de concentração nazista.

Na Índia, conheceu o poeta e filósofo Muhammed Iqbal, que dava então os primeiros passos para conseguir a fundação de um estado independente muçulmano na península do Hindustão.  Iqbal convenceu-o a desistir do resto da viagem e a colaborar com ele na sua campanha para a independência. Asad estabeleceu com ele as premissas intelectuais do futuro estado paquistanês.

Porque escrevia artigos contra a presença britânica na Índia, os ingleses aproveitaram a circunstância de ele ser cidadão de um país inimigo, a Áustria, e puseram-no sob prisão.   Pediu a ajuda dos tios em Jerusalém, que lhe mandavam pacotes e tentaram em vão conseguir que os ingleses o libertasse.

Só quando os ingleses partiram e o Paquistão obteve, em Junho de 1947, a independência, Muhammad conseguiu a libertação, e ingressou logo no Ministério dos Negócios Estrangeiros, como director da secção do Médio Oriente.

Depois foi enviado como ministro plenipotenciário do Paquistão nas Nações Unidas.

Munira e Talal ficaram em Londres, por causa dos estudos do filho e ele partiu sozinho para Nova Iorque.

Nos Estados Unidos renovou os seus contactos com uma prima, Hemdá Feigenbaum Zinder, que havia sido uma das primeiras locutoras da Rádio "Voz de Jerusalém", e nessa altura estava casada com o porta voz da embaixada de Israel em Washington.

Evidentemente que entre os diplomatas israelitas na ONU e o ex-judeu da Galicia existia um antagonismo latente, que não escapou ao chefe da missão paquistanesa, que evitava envia-lo aos encontros com os colegas israelitas.

Nessa altura, Muhammad apaixonou-se por uma americana de origem polaca, Pola Hamida, de Boston, que se havia convertido ao Islão, por amor ao namorado, funcionário também da missão paquistanesa.

Como isso é permitido pela religião muçulmana, e aproveitando a ausência da esposa árabe em Londres, decidiu casar-se com a namorada do colega. Foi celebrante um juiz de origem judaica!

Munira, porém, não aceitou as coisas com essa facilidade toda; abandonou-o e ficou a viver com o filho em Londres.

Também o Ministério dos Negócios Estrangeiro paquistanês discordou do casamento, chegando mesmo a proibi-lo. Então ele viu-se obrigado a demitir-se.

Agora de novo sem trabalho, dedicou-se a conferências e artigos sobre o Islão.   Partiu com a segunda mulher. Esteve no Egipto, onde chegou a ser leitor na Universidade de El-Azhar, e ensinou também islamismo na Argélia.

Entre 1960 e 1964 viveram em Genebra, na Suíça, dedicando ele o seu tempo a traduzir a que é considerada a mais fiel tradução inglesa comentada do Corão.

Depois foram para Tânger, onde trabalhou numa nova edição da sua autobiografia «The Road to Mecca», impressa agora na Malásia, em 1996 e em Kentucky, em 1999.

Em 1982 mudaram-se para Sintra, e pouco depois para a Costa do Sol.

Muhammad Asad aderiu ao Islão com uma ambição: o ex-judeu da Galícia pretendia ser o promotor do renascimento do Islão.

Mas os tempos mudaram. Asad principiou a discordar abertamente com o procedimento dos novos fundamentalistas do Islão.

Depois da revolução iraniana, disse a duas jornalistas que o entrevistaram (Lisbeth Rocher e Fatima Cherqaoui) "Khomeini é pior do que o Shah.  Não tem nada de comum com o Islão".

As suas traduções começaram a ser criticadas. Alguns islamistas começaram a acusá-lo abertamente de tentar "judaizar" o Islão, tal como tinham feito os judeus no tempo de Maomé.

A Malise Ruthven, que o entrevistou em 1981 para um artigo na "Islam World Review", Asad/Weiss confessou mesmo: "... é mesmo possível que, se eu tivesse tomado contacto com os árabes agora, pela primeira vez, já me não sentisse atraído para eles."

Pedindo ainda a Deus forças para escrever mais um livro, que seria a continuação da sua autobiografia, faleceu, sem o realizar, na Andaluzia, muçulmano frustrado tal como fora um judeu frustrado.

 

 

 


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